Nunca podemos prever quando vai haver um momento taurino extraordinário. Não importa se são grandes figuras com um curro a prometer bravura. Por vezes, os deuses simplesmente mantêm o nível do espectáculo no mediano. Mas, há outras vezes, como a do passado dia 25 de Abril no Sobral. A cavalo e a pé tivemos um cartel de juventude, já com responsabilidade, mas ainda assim sem o estatuto de primeiras figuras. O elemento mais aliciante do cartaz, David Mora, não pode comparecer e foi substítuido por outro jovem espado: Pablo Aguado. Os touros, de Falé Filipe, já se espera que sejam de primeira qualidade, contudo, na temporada passada houve alguns que nos desapontaram e era algo que poderia voltar a acontecer.
Porém, os deuses estavam de bom humor ou com tantas saudades de ir aos touros que alinharam os céus de forma a termos num festival um espectáculo digno de uma praça de primeira a abrir o abono.
Salgueiro da Costa, Rouxinol Jr e o praticante David Gomes a cavalo; Dias Gomes, Pablo Aguado e Juanito a pé; tiveram oponentes ferro Falé Filipe, de 4 anos, que foram de grande qualidade e bem aproveitados. Os dois touros mais complicados foram o primeiro e o quinto da tarde. Mas não eram isentos de lide, e isso ganha extrema importância, porque a qualquer toureiro impõe saber sacar o melhor do que tem pela frente.
João Salgueiro da Costa, no seu primeiro e único ferro comprido entendeu maravilhosamente o touro que tinha para lidar, assim sendo, obteve nos ferros curtos grandes momentos de cravagem e brega, mediante as dificuldades que um touro pouco focado lhe trazia. A pega foi executada ao terceiro intento por Bernardo Moreno.
O outro complicado da tarde foi, portanto, o de Pablo Aguado, que, contrariamente ao jovem cavaleiro da Valada, não entendeu o touro o suficiente para ter uma lide que merecesse volta à praça. Manteve-se firme no capote e na muleta conseguiu pouco, sem transmitir aos tendidos, apesar da elegância com que se manteve toda a lide.
Luís Rouxinol Jr teve um magnífico oponente e aproveitou-o ao máximo, entusiasmando a praça, com meia casa forte de aficionados entendidos. A pega foi feita por Vitor Epifânio, ao primeiro intento.
A preprar-se para a alternativa e mostrando a garra de quem a quer tomar já em breve, David Gomes lidou bem, apesar de arrastar um pouco o final. Pelo grupo único da tarde, o de Lisboa, foi à cara Tiago Silva, que consumou a pega à primeira.
Manuel Dias Gomes triunfou entre os espadas e, se aceitarmos bem colocar no mesmo cesto os triunfos de uma corrida mista, triunfou a tarde. O seu toureio esteve ao mais alto nível, com traços de pintura, classicismo e presença tanto no capote como na muleta.
João Silva, Juanito, manteve o padrão de qualidade com que nos tem vindo a habituar, em traços também clássicos e sobretudo destacado no trabalho da flanela vermelha.
Sílvia Del Quema
