A vida é feita de impressões e no Festival de homenagem póstuma a Fernando Quintela, em Alcochete, fiquei com uma impressão vincada em mim, que vem desde há algum tempo a instalar-se: há um cavaleiro que passará o estatuto de figura – já difícil de alcançar – para atingir, mesmo, o estatuto de figura histórica do toureio português.
Numa altura em que se fala à boca cheia que Espanha nos ‘roubou’ o protagonismo no ‘nosso’ toureio, com os seus rejoneadores, é ainda mais importante reconhecer em Francisco Palha uma temporada de 2018 brilhante e um início de 2019 que ultrapassa um bom augúrio.
Como mencionei, a vida faz-se de impressões, boas ou más, que são as imagens das nossas vivências, colectivas ou individuais, gravadas na nossa memória. O que não nos fica gravado na memória é o que não interessa. Portanto a impressão que fica, que de quando em quando recordamos e que sabemos que voltaremos a recordar, é aquela que tem valor.
Na tarde de Alcochete essa boa impressão ficou-me muito clara. Margaça, como é conhecido, é uma personagem da Festa Brava com mérito de Figura e com o Nome para a História. A forma como se impôs a um touro que, mais do que manso, era um verdadeiro coirão (não é um nome técnico, mas é um nome que explica melhor a verdade sobre o segundo Passanha que saiu dos curros de Alcochete).
Desde que deixou a porta dos sustos o touro esteve sempre com o seu sentido na trincheira, não teria capacidades para saltar, mas o seu interesse era maior nas pessoas do que no ginete. Poderia ter mudado com os ferros compridos, mas só piorou. Quando se voltava para o cavalo, contra o qual não tinha investida, mas antes arremessos, era com arreões que impossibilitavam uma cravagem exemplar ou uma brega embelezada ou sortes bem rematadas. É nestes momentos que se vê os toureiros porem ‘a carne no assador’ ou não. E Palha foi o que fez.
Pediu alto e bom som para que a sua quadrilha não tentasse ajudar e que o “deixassem tourear” e foi isso mesmo que ele fez. Sacou ferros impossíveis, cravou com ganas e garra, transmitindo toda a emoção que se pode imaginar, ao dar tudo por tudo numa lide que parecia inexistente. O toureio de Palha é grande, como se pode ver nesta tarde, mas maior do que isso é ganhar esta impressão de que ele é um toureiro da tradição portuguesa, a seguir a cartilha Marialva e a assinar por baixo a sua contribuição para esta arte nacional.
Mas a tarde de Alcochete não se ficou por aqui, antes da lide não de beleza e arte, mas de encanto e poder de Francisco Palha, houve uma cravagem de curtos que deixou a todos entusiasmados. Refiro-me a Filipe Gonçalves, com o seu Romão Tenório, que sentiu também algumas dificuldades com o seu oponente, sabendo dar-lhe mais do que apenas ‘a volta’, Filipe soube dar arte ao ficar por cima do toiro. E isso é lindo de se ver.
Quiebros em cima da cara do touro em três ferros curtos notáveis, com uma força interior que passaram a todos os tendidos e que, a meu ver, marcam outra impressão: Filipe é um cavaleiro a despontar, com muito para dar à Festa.
Não se pode dizer que algum cavaleiro tenha estado verdadeiramente mal nesta tarde de Festival, Rui Fernandes, que abriu praça ante outro toiro de Passanha, esteve bem ante um oponente reservado e sem transmissão. Por outro lado, Diego Ventura, a lide mais esperada, não defraudou as expectativas de ninguém, estando magnífico a cravar o par de bandarilhas sem cabeçada no seu Dólar e com uma lide de grande nota no geral com um bonito Cortes Moura que deu pouco jogo. João Ribeiro Telles lidou um touro da ganadaria de família e singrou-se com excelentes cravagens ao estribo num touro que não criou grande ligação aos tendidos. Mara Pimenta mostrou bem a vontade de assinar contratos e deu tudo o que tinha com o seu Prudêncio, destacando-se na cravagem final por palmitos.
As pegas, entregues ao grupo do qual Quintella fez (e fará sempre) parte, os Amadores de Alcochete, foram difíceis, mas a homenagem foi tocante, com os antigos e actuais forcados todos presentes em praça. Por ordem, Vasco Pinto pegou ao terceiro intento; tal como Ruben Barroca; Nuno Santana fechou-se à segunda tentativa; João Belmonte fez uma primeira tentativa em que se lesionou, sendo dobrado por Vítor Marques que se fechou no sexto intento de pegar o touro de Ribeiro Telles; Diogo Vivo e João Ferreira escolheram uma cernelha e concretizaram à terceira tentativa, sendo nas duas primeiras recebidos a fortes coices do manso lidado por Margaça; João Machacaz fechou a tarde de touros pegando à primeira.
Sílvia Del Quema
