Ainda que não goste de uma “boa” desgraça, enfatizar o mau que nos vai calhando a todos, como muita gente faz, ainda assim, terei de mencionar algumas para exaltação da vida! Serve este último “Milagre” para enfatizar apenas, e só, os Milagres que acontecem nas arenas.
Há pessoas que dizem umas coisas mais importantes que tudo o resto, e alguém disse: “todos nascemos e morremos, o que nos distingue é o que fazemos entretanto.”
Todos podemos não estar por cá amanhã, mas ainda assim há quem arrisque mais que outros. E se durante o tempo que andamos por cá, alguém há que arrisca a própria vida por tão nobre arte e nos brinda com espectáculos soberbos, resta-nos reconhecer e agradecer sempre tamanha generosidade, independentemente de simpatias ou fanatismos…
Não sabemos como vai ser amanhã, mas vai ser diferente de certezinha. E não é pelo risco que lá vamos, ver toiros!
É que a coragem vem dos verdadeiramente generosos: “Vai. E se der medo, vai com medo mesmo”, disse a Clarice Lispector que sabia muitas coisas.
É ser independente e generoso, e ainda ter aquela centelha que é só de alguns, dos que se superam. Porque coragem é amor! E no amor reside o que não passa pelo filtro do cérebro, sem dramas, sem espinhas, inevitável, urgente e incandescente.
Claro que situações houve que correram menos bem, e que o final não foi feliz, mas não é dessas que quero falar. Mas sim das que houve uma “mão” que os protegeu, apesar de tudo.
E se por vezes se distraem, a maior parte das vezes os Santos olham por eles, pelos artistas. Parece-me que ninguém terá dúvidas da protecção divina que existe na arena.
Sim, porque os toiros toureiam-se porque investem, e não ao contrário, não há defesa mais directa…
Quem não se lembra da última grande colhida de Padilla? Por milagre escapou! No dia 7 de Outubro de 2011, em Zaragoza, depois de um par de bandarilhas, tropeçou e um toiro Ana Romero feriu-lhe o rosto com o pitón. O resto, já todos sabemos. E a de Miguel Angel Perera em 2015, em Salamanca, quando recebia o toiro de joelhos?
Para não falar do saudoso Mestre Baptista que, dos momentos menos bons, se destaca a colhida grave na praça de Santarém.
Menos mediático, mas com um valor sentimental inestimável para as minhas gentes Barranquenhas, Pepe Camara, que teve uma colhida aparatosa por baixo de um tabuado e, com o apoio de todos, recuperou e nunca deixou de o reconhecer, regressando todos os anos em jeito de agradecimento.
E forcados, tantos que só mesmo por intervenção divina continuam connosco, nem me atrevo a enumerar nomes.
Tudo isto é apenas uma prova de que algo de mágico sempre acontece.
É uma arte que tem tanto de grandeza e valentia, como de subtileza, delicadeza, bravura. E há tanta elegância num mesmo local!
Como escreveu alguém: “é como se deuses vivessem entre os homens de vez em quando.”
Criar e coleccionar memórias é o que nos distingue e eleva. E mesmo as piores têm de ser guardadas, para que nunca caiam no esquecimento e para que possamos aproveitar cada lide como se fosse única.
Emoção é o que nos torna únicos, é o que nos faz bater o coração mais forte, o que nos faz pulsar o sangue mais rápido, e tão bom que é! É o que nos torna humanos e, quem sente a Tauromaquia, sabe bem que assim acontece quando despertamos memórias que nos transportam para momentos sublimes carregados de emoção.
E não, não é lirismo, é percebermos que é tão arriscado e assustador quanto pode ser excitante e glorioso. E nada tem mais poder e pinta que uma corrida de toiros!
Em jeito de conclusão dos “Milagres”, digo eu que não sei nada, mas deu-me imenso gozo escrevê-los, e pôs-me a pensar, que é para isso que se escreve – e para partilhar com quem gosta do mesmo.
E não é à toa que escrevo, primeiro há que ter alguma experiência de vida para ganhar densidade, corpo e, eventualmente, opiniões. Para escrever umas coisas, é preciso ter-se vida vivida, e humildade. E exigência! E exigência e excelência é o que merece tudo o que seja escrito sobre este “mundo”.
Depois de tudo isto há dúvidas que os Milagres existem e que somos abençoados todos os dias?

