O termómetro não apontava temperatura “por aí além” – 33 graus celsius não são nada para o típico calor alentejano. Mas o sol não estava para dar tréguas e ao longo da primeira parte da corrida a inveja mal me deixou olhar para a aficionada bancada de sombra. Estas preocupações (merecidas para quem chegou tarde, quando já se tinham vendidos todos os bilhetes de sombra, onde a moldura humana estava mais do que bonita!) vinham intercaladas entre um momento ou outro do espectáculo, em que a candura e suavidade do curro da Herdade de Pégoras resvalavam para o insonso…
Os cavaleiros estiveram em geral por cima ou ao sabor dos Pégoras, que não incomodaram mas que não transmitiam apesar da boa apresentação e da chama com que saiam dos sustos, a levantar o pó da praça.
Luís Rouxinol foi o primeiro a provar o insonso que a apresentação não fazia adivinhar. Tocou-lhe um toiro de excelente tipo, montado por diante e sério de cara mas que não acompanhou em casta. O ginete apontou dois compridos a que teve de impor o remate e cinco curtos, de que se destacou o primeiro em que a brega resultou bem. Os dois seguintes ficaram a cilhas passadas com o toiro a faltar na reunião. Um quarto correcto e um palmo para dar algum brio foram o conteúdo de uma lide que ficou sem muito que contar. Na segunda metade houve mais do mesmo. O toiro era reservado e parado e acresceu-lhe a desvantagem de se começar a tapar nos curtos. Viu-se mais uma lide técnica com o esforço para o brilho no par (bom) e palmo (bom) do final.
Não é inédito nesta temporada de Moura Caetano causar um verdadeiro burburinho nas bancadas. Os dois compridos a abordar docilmente o piton contrário foram brutais mas a bancada gostou mesmo foi do recorte que lhe apôs a seguir, inesperado, cingido e de poder-a-poder. Fez cortar a respiração e quando ela voltou estalou em ruidoso eco entre as bancadas – quebrou a monotonia. Depois seguiram-se quatro ferros cravados de alto a baixo, pelo estribo e no
alto do morrilho, sem alarde, com bons remates e agradável inspiração, frente a um dos melhores toiros da tarde, que sendo nobre sem se empregar em demasia cumpriu muito bem. Na segunda parte as coisas não correram tão de feição já que o toiro, apesar de pouca chispa, tinha uma investida pouco clara, defendia-se e foi um para o brusco nas reuniões. Andou correcto, com bons pormenores (o segundo curto foi realmente bom!) adornou-se na brega, mas não chegou ao patamar elevadíssimo da primeira carta que jogou.
Marcos Bastinhas arriscou tudo no primeiro comprido. Seria um ferro brutal e de certeza que seria o prelúdio de uma lide fora do comum. Contudo, ao invés de um ferro brutal sucedeu antes uma colhida brutal, que atirou o cavaleiro fora da sela e o deixou visivelmente magoado na arena. Isto não mudou a disposição do ginete e a isso fazemos a devida vénia. Voltou a arriscar nos terrenos para o então segundo compridos e depois andou encastado a cravar os ferros de frente, valendo-se de boa brega para ganhar numa
emoção que o toiro não tinha, já que nem por ter provado o gosto de colher se viu malícia nas investidas suaves. O último toiro saiu com pata da porta dos sustos onde o cavaleiro o foi buscar, resultando muito bem a porta gaiola. Os quatros primeiros ferros (dois compridos e dois curtos) não resultaram bem, ora descaídos ora traseiros mas o ginete não estava disposto a ficar por aí e com exagero de gestos acabou por ganhar o público, que lhe viu as ganas de fazer o que fosse preciso para mostrar quanto vale.
“La oportunidad se presenta tarde y se marcha pronto” e o praticante Manuel Vacas de Carvalho, acarinhado montemorense, entrou no cartel para provar uma coisa: tem uma grande escola e está preparado para os desafios mais altos. Não foi em facilitismos e encetou uma lide sem pausas, com ritmo entre as maneiras clássicas dos ferros de frente. Sem que as reuniões tenham sido pela ortodoxia do estribo, os ferros tiveram o condão de ficar todos “em cima da divisa” e não há dúvida que mostrou um bom
trabalho.
Nas pegas tinham que fazer parte dos momentos mais bonitos da tarde. Os Amadores de Montemor, a pegar em solitário na sua arena, na sua feira da Luz – incontornável «amador nobre e valente» cantado pelo mais tradicional dos fados… A tarde não foi rija, porque os toiros entraram nobres para o forcado – mas houve boas pegas, muito donaire e muita técnica. João Tavares foi à cara do primeiro, que recebeu à meia altura, saindo lesionado ao primeiro intento. Foi dobrado por João Romão Tavares que recebeu também uma entrada rija com um piton por diante, que só com grande determinação resolveu bem fechado à córnea. Francisco Borges não suportou os derrotes laterais e para cima apesar de ter recebido o toiro humilhado depois de o ir buscar à jurisdição. À segunda a reunião é dura e resulta numa bonita pega à córnea com o toiro a empurrar até tábuas. João Cabral consumou à primeira em técnica exemplar, flectindo-se bem para se acoplar à cara e ficar com decisão na córnea. João da Câmara perfila-se para um cite sereno e bonito – sacou o toiro de tábuas, recuou correctamente e
fechou-se à barbela, bem ajudado pelo grupo. Também bonita foi a pega de Manuel Ramalho – deu muita praça ao toiro que arrancou pronto para uma reunião eficaz à córnea. Noel Cardoso bateu as palmas ao toiro por duas vezes, na primeira o toiro defendeu-se e tal como havia feito na lide arrancou com investida incerta tirando o forcado da cara. À segunda, com o toiro a fugir ao grupo consumou a pega à córnea. Por último pegou António Vacas de Carvalho à córnea – a cumprir os tempos escrupulosamente, consentiu e mandou no toiro para reunir no momento certo e fechar à córnea.
Sara Teles
