Alguém me disse que Futre tinha sido forcado ou quase forcado (e eu não desconfiei…). Não estranhei que tivesse entrado na arena para receber os brindes que lhe foram oferecidos. Aliás, começo até a senda de confissões que se vão seguir nestes três parágrafos, por dizer, que até afirmei esta suposta “carreira na forcadagem” a um estimado colega da escrita (ao lado de quem tive a honra de me sentar no Montijo) e que logo no momento não viu com bons olhos tais honras mal concedidas.
Pois soou-me agora que Futre forcado não foi, tal como não foi peão de brega, cavaleiro ou espada. Ora, também não vi o ex-futebolista saltar a trincheira para entrar no ruedo por isso não posso virar-me contra o chamado “el portugués”, que certamente desconhecia tal consuetudinária regra. Podemos “bater” a quem lhe indicou o caminho e tão-somente. Aliás, se a corrida “ía por” Paulo Futre (acho muito bem já que até chegou a trazer o emblema do meu clube junto ao coração) foi coisa que confessadamente me passou um bocadinho à margem, porque na verdade fui ali para ver os Arucci e a volta que lhes davam.
Também confesso, por outro lado, que nutro agora um diferente “respeito aficionado” pelo internacional português, muito particularmente depois de ver a extensa polémica que se gerou na sua página do facebook depois de orgulhosamente ter publicado uma fotografia da bandeira do primeiro comprido de Rui Fernandes com a imagem do seu rosto…
Certa que as minhas confissões pouco interessam ao propósito a que este espaço se dedica parto para um comentário acentuadamente breve sobre o espectáculo.
Os toiros de Arucci foram para o manso e não transmitiram muito (quase nada) para as lides a cavalo. A intimidante seriedade do peso foi então somente acentuada pelos encastados momentos em que se empregaram alguns.
Rui Fernandes sagrou-se triunfador absoluto da terna. O que lidou primeiro foi de investida suave, raramente passou do trote e serviu-lhe à medida. Registou um excelente momento ao terceiro curto, bem aguentado para cravar recebendo ao quiebro. A segunda lide teve nos cites e quarteios uma placidez que contrastou com a emoção na bancada frente a exemplar que veio de mais a menos mas que serviu mais uma vez aos intentos de Rui Fernandes.
Sónia Matias lidou primeiro um oponente que se furtava para tábuas na brega e que cumpriu empregando-se apenas no indispensável. Andou com sítio e confortável, numa lide correcta e com ritmo. O segundo exemplar tinha 5 anos e pesava 620kg mas a cavaleira não deu mostras de hesitação. Aliás, o toiro não se empregava em demasia e obedecia pronto, algo intempestivo (mas sem maldade) ao cite, permitindo a Sónia Matias andar ligada e oferecer a espádua ao oponente.
Por fim, Filipe Gonçalves protagonizou momentos de perigo vendo a montada de saída colhida contra as trincheiras e o toiro ensinado… A lide foi algo a descompasso, e apesar de não ter mexido bem o toiro, resolveu com ferros de frente para descomplicar. Há que conceder que suplantou a dificuldade. No último não teve melhor sorte, já que se tratou de um manso que se fartou de passar no capote mas que não tinha voluntariedade alguma para se empregar. A lide foi a possível, ao estilo do ginete, que ainda sacou dois bons ferros ao piton contrário e que adornou com as palmas e piruetas para chegar à habitual alegria das suas lides.
Nas pegas é que já não se viu candura nos Arucci…
Pelos Amadores do Montijo pegou primeiro Ricardo Figueiredo, que ao primeiro intento vinha bem pela barbela, donde foi tirado com um derrote e o peso do primeiro -ajuda. À segunda faltaram braços para aguentar os fortes derrotes e rodou da barbela. Foi à terceira, com a ajuda carregada, que ficou na córnea e consumou a pega. Ricardo Almeida foi quatro vezes à cara sem sucesso. Na primeira e segunda os derrotes lateral e para cima respectivamente fizeram-no sair sem hipótese; à terceira recebeu o toiro à meia altura e não conseguiu acoplar-se, também não consumou à quarta, recebendo uma mangada violenta que o comboio a sesgo do grupo não conseguiu resolver. A pega foi consumada de cernelha. Rogério Amaro, vinha com muita vontade de ficar ao primeiro intento mas não conseguiu suportar os dois violentos derrotes seguidos. Ao segundo intento viu-se mais prejudicado que ajudado nas primeiras, mas com vontade irredutível aguentou viagem para consumar a pega.
Pelos Amadores de Alcochete foi primeiro Fernando Quintela, que mandou no toiro levando-o fixo consigo, reunindo sem conceder à barbela com o grupo muito coeso.
Vasco Pinto, a quem faltou recuar mais um pouco para obter uma reunião justa ao primeiro intento, pegou à segunda, em técnica exemplar a que correspondeu uma excelente primeira ajuda. Rúben Duarte, outro dos nomes de registo neste grupo, protagonizou momentos de “assustar o medo”. Grande coração do forcado a tentar citar o toiro esgotado e fechado em tábuas (donde só partia, acobardado, para colher), foi à jurisdição por duas vezes e das duas não conseguiu resolver os duríssimos derrotes com que o toiro entrava pelo grupo. Saiu lesionado da arena com traumatismos que determinaram o seu internamento e com uma grande ovação das bancadas. Pedro Viegas, tentou por duas vezes a dobra sem sucesso e o toiro foi pegado de cernelha por André Tavares e Pedro Belmonte.
Termino cogitando que se acaso alguma vez passou pelos intentos de Futre vestir-se de forcado, certamente lhe terá passado pela cabeça o despropósito que teria sido perder uma brilhante carreira em prole dos tantos Aruccis por ai cá pegam….
Sara Teles
