O ser humano tem evoluído de um modo curioso. Afastou-se da Natureza, civilizando-se, criando as urbes cada vez maiores e mais consistentes em modernidade. Adaptou-se a não viver dentro dos parâmetros da Natureza, ignorando os horários solares, ultrapassando os cenários climáticos, desviando rios, criando terra a partir do mar, vencendo as alturas, ganhando terreno para viver aos outros animais.
O ser humano fez tanta coisa em – relativamente – tão pouco tempo. Evoluiu. Criou. Dominou a cadeia alimentar. Todos sabemos que existem poucos desafios naturais ao Homem. Ainda tem predadores, no entanto também tem as armas necessárias e perfeitas para os vencer. Neste momento do Mundo, o ser humano não tem inimigos naturais que sejam visíveis e não possa vencer. Contudo, permanecem os invisíveis.
Bactérias, vírus, fungos… Doenças. Catástrofes naturais, algumas das quais previsíveis, mas com um tempo de aviso demasiado curto, na maioria dos casos. São esses os inimigos à existência dos humanos.
Porém, é toda esta evolução que conduz ao afastamento do ser humano da Natureza. Sendo que, desde meados do século XX, vários movimentos iniciaram uma aproximação à Natureza. Os Hippies, os New Age, os Naturalistas… Enfim, uma série de correntes filosóficas, umas mais outras menos fundamentadas, procuraram empurrar a sociedade citadina para um regresso às origens. Ou seja, uma aproximação à Natureza.
As Conferências do Rio nascem desta convergência social, passando-a para a actividade política, que regula a sociedade. Sendo a poluição eleita como a prioridade destes debates mundiais regulares.
Tudo este contexto está espelhado numa atitude dos dias de hoje, que muita gente apelida de Animalismo. Sendo os Animalistas os seres humanos, animais racionais, que pretendem defender os seres não humanos, animais irracionais. No entanto, os ditos Animalistas são fruto da separação entre a realidade urbana e a realidade natural ou rural. Portanto, referimo-nos a citadinos, às gentes das grandes urbes, nelas nascidos e criados.
Eu sou Animalista. Eu defendo os animais, porque sou Humana, o que me aporta a responsabilidade de ter e agir em humanidade. E o que é ser-se humano para com o que nos rodeia? É respeitar. E o que nos rodeia? A Natureza. E quem faz parte da Natureza? Nós e tudo o mais. Dependemos da Natureza. Portanto, eu defendo mais do que os animais, eu defendo a Natureza, onde eles se inserem e onde os seres humanos se inserem.
Eu sou mais do que Animalista. Eu sou Humana.
É arrogante da minha parte? Talvez. Mas é também realista da minha parte. E como gosto de ser pragmática, aqui ficam estes factos sobre a minha pessoa, que apenas aqui narro para que se compreenda melhor o que escrevo a seguir.
As gentes das urbes de hoje dividem-se em três tipos:
- aquelas que não pensam sequer nos animais, preferem não os ter porque sujam e refreiam a actividade de uma casa;
- aquelas que lamentam imenso que os animais tenham morrer para que elas os comam, mas que não pensam muito no assunto para não lhes pesar a consciência;
- e aquelas que sentem necessidade de ter um animal (onde eu me incluo).
Depois há uma subdivisão dentro daquelas que têm animais:
- as que têm animais tratados como animais para serem felizes;
- as que têm animais tratados como utilitários;
- e as que têm animais para serem tratados como pessoas, complementando carências emocionais de índoles muito diversas.
Mas ter um animal… Que animal? Hoje em dias os animais exóticos, uma designação muito do século passado, estão tão banalizados que já nem os vemos como exóticos. Isto é, as pessoas têm hamsters, ratinhos, ratos, porquinhos-da-Índia (é politicamente incorrecto dizer cobaias, como se dizia quando eu era miúda), coelhos, caturras, papagaios, araras, aves de rapina (sim, há quem as tenha em casa! Desconheço a legalidade do tema.), suínos (porcos não fica bem dizer), répteis (com e sem patas…), aracnídeos. Entre outros que não me vêm à ideia.
Os animais que poderemos apelidar de comuns, para ser terem em casa, são os cães, os gatos e passarinhos de todo o género.
Os Animalistas são, de um modo generalista, anti-taurinos. Eu não sou (caso não tivesse percebido sou aficionada à tauromaquia de alma e coração).
Porque é que são anti-taurinos? Porque o touro sangra, basicamente. Acham que o touro é maltratado e por isso sentem necessidade de o defender com impropérios inenarráveis e para os quais nem me atrevo a perder tempo (o seu ou o meu!), pois chegam a saudar a morte dos taurinos.
Mas dentro da categoria de pessoas do grupo 3., que deseja ter um animal, há tanta gente que maltrata os animais! Por exemplo, quem tem animais só porque são de uma raça específica, normalmente a que é ‘chique’, ou quem tem animais para guardar a casa ou afugentar ratos; portanto pessoas do grupo b). Os cães de guarda são, talvez, o exemplo mais clássico. Muitas vezes estão confinados a canis de pouco mais do que 9m2 ou então estão presos a uma corrente. Soltos à noite, mas apenas alguns. Esta é uma forma, do meu ponto de vista, que descai fortemente para o maltratar. Respeito muito um cão para aceitar que esteja preso e acirrado. Muitas vezes sem acesso a água limpa ou a espaço onde não tenha de pisar os seus dejectos.
No grupo c), encontramos as pessoas que vestem os animais ou que os tratam como membros da família, humanizando-os. Chegam a pintar-lhes as unhas e os pelos e fazem-lhes cortes de pelo apelidados de divertidos… A dignidade de um cão ou de um gato que é assim tratado, onde é que está? Dignidade não é ter direito a ser-se o que se é? Se os humanos é que têm consciência racional, não são eles que têm de zelar para que a dignidade seja preservada nos seres irracionais? A mim ofende-me ver a humanização do animal que se têm como de estimação e que é usado para preencher uma lacuna mental ou emocional de quem o tem.
Quem encontra o equilíbrio dentro da necessidade de se ter um animal de estimação, sabe perfeitamente que fica mais próxima da Natureza, das origens do ser humano, da relação com o meio ambiente primordial. Esse equilíbrio subentende a compreensão das necessidades do animal irracional, que o animal racional deve nutrir. Essas necessidades não passam, para exemplificar com algo que está muito em voga, por retirar o aparelho reprodutor a uma cadela de modo a que ela não suje a casa durante o cio! E hoje em dia isso faz-se regularmente, antes das cadelas fazerem um ano de idade e sendo de raça. Portanto, não há aqui qualquer intenção de evitar a propagação de animais rafeiros, que têm mais dificuldade em ter donos. Estamos a falar numa cirurgia para alterar todo o sistema hormonal de um ser vivo animal, de maneira a que o seu dono viva mais confortavelmente com ele. A sério? Isso é humano?
E ter cães de grande porte dentro de um T1, com uma varanda de 6m2, porque é que não há legislação que proteja animais deste tamanho de terem de viver em áreas onde não podem ter qualidade de vida, e existem apenas para gáudio dos seus proprietários, por muito que estes se esforcem em dar passeios com eles (normalmente de trela e não mais do que uma hora por dia)? A lei não deveria ser retroactiva. Quem os tem, nestas condições, não defendo que perdesse os seus companheiros, mas por favor, não era de definir – como já acontece no Norte da Europa – os metros quadrados para a dimensão do cão? E explicitar as raças que precisam de mais ou menos movimento e trabalho, porque ter um Pequinês ou um pequeno Terrier não é a mesma coisa, apesar de o peso e a altura não serem muito diferentes.
Se querem defender os animais, façam-no com seriedade. Não se limitem a atacar o animal que, nos dias de hoje, entre todos os animais que são criados para usufruto do ser humano, é o único que realmente leva uma vida plenamente feliz, com toda a dignidade que a Natureza lhe outorgou, com um tratamento, até ao último momento, nobre, como mais nenhum animal tem. Não se esqueçamos que o gatinho lá de casa, quando começa a ter problemas de rins e consequente incontinência, é muito aborrecido e tem de ser ‘posto a dormir’.
Decidir da vida e da morte do nosso animal de estimação é muito complicado. É um grande telhado de vidro, que os anti-taurinos não tentam esconder, porque nem sequer o veem. O problema está precisamente na cisão que ocorreu entre a vida da cidade e a vida do campo. Quem está há duas ou três gerações na urbanidade, perdeu a noção da realidade da vida rural, que é aquela que, de facto, está ligada à natureza. É por a vida rural ser tão próxima da Natureza que entre os rurais ninguém se lembra de defender, especifica e particularmente, a Natureza. Fazem-no ao defenderem o seu estilo de vida.
Os Animalistas anti-taurinos não percebem que, a maioria daquilo que advogam não defende os animais. Defende a maneira que eles têm de usufruir dos animais.
Os telhados de vidro de quem vai capar uma cadela ou abater um gato ou de quem tem o cão de 30 kg todo o dia à sua espera no apartamento de 80m2 são invisíveis por falta de sensibilidade para a origem da vida. Falta de sensibilidade para a verdade do campo, em que o frango morre para ir para a churrasqueira e as ovelhas são tosquiadas em pânico até se habituarem. Falta de sensibilidade para se colocarem no lugar conquistado pelo Homem na Natureza (o lugar do dominador, caso esteja em dúvida, o topo da pirâmide). Esse posto que o ser humano conquistou na sua evolução, seja ela vista do ponto de vista cientologista, darwiniano ou divino ou outro qualquer, esse posto delega no ser humano a inerência de ter de ser a única criatura com o carisma e a responsabilidade de aplicar actos de humanidade, traduzidos no respeito e defesa da dignidade de todos que estão abaixo dele na pirâmide da existência.
Ter um animal em casa requer muito de uma pessoa. As condições na cidade e no campo diferem o suficiente para uma pessoa poder ter um cão pequeno (e eu defendo dois, por causa da necessidade de estarem acompanhados as muitas horas que não têm os donos por perto) ou ter uma matilha de diversos cães. É a diferença entre não poder ter um porco de estimação ou poder ter um porco, uma galinha (já tive!), coelhos e afins! As condições que proporcionamos à vida dos animais que decidimos ter são mais importantes do que a satisfação egoísta de os termos.
Ter um hamster numa gaiola e dizer que um touro é maltratado é ver o mundo numa realidade paralela, onde achamos que qualquer animal exótico pode ser mantido em casa, numa gaiola, para nosso bel-prazer, sem pensar que ele deveria viver num ambiente natural, entre os seus pares. Ele só está na gaiola ou na casa a viver connosco porque não lhe demos escolha. E não lhe demos escolha porque temos poder para tal, pois somos Humanos. E depois, a Natureza, vinga-se pelos tantos animais fora do seu meio natural… E é assim que se mantêm os últimos inimigos do Homem: vírus, bactérias e similares.
Ter um touro no campo é permitir a preservação de um ecossistema inteiro. O touro morre no fim? É verdade. Mas sem o sofrimento que os anti-taurinos apregoam do alto do desconhecimento (autoinfligido), sem ter prejudicado ninguém, e, sobretudo, depois de uma vida naturalmente feliz. Que é aquilo que no fundo, os humanos ambicionam ter. E que muitas vezes obtêm tendo um companheiro animal irracional a viver consigo, sem verem o sacrifício que estão a impor sobre esse animal.

