Toda a gente conhece a passagem bíblica de “David e Golias” que relata a história de um jovem que, contra todas as probabilidades, venceu o confronto contra um gigante. A metáfora é tudo menos perfeita porque para contar a corrida do Alandroal temos que adulterar não só o número de personagens como o conteúdo e desfecho da história; mas era isto que o cartel fazia lembrar. Foi este confronto desequilibrado de forças aliado ao duelo de titãs que, certamente, ajudou a que as bancadas da praça alentejana quase enchessem, descendo do recinto da festa em honra de N.ª Sr.ª da Conceição para o da «desmontável fixa» à entrada da localidade.
Os toiros da noite eram de duas divisas distintas. Cunhal Patrício e Conde de Arriaga, divididos respectivamente pelas duas partes – saíram a cumprir em geral com nota muito positiva.
João Moura foi o primeiro Golias a pisar a arena. Sem sorte com Cunhal Patrício que lhe coube (único manso da noite), viu-se cumprir a ferragem comprida e andar sem acerto na mão na passagem para os curtos. Falhou por três vezes o primeiro e depois acabou por ver cair alguns ferros – mas viu-se entrega e vontade de contornar a impossível mansidão do exemplar, entrando-lhe nos terrenos e obrigando-o na querença. Valeu a brega em terrenos de cercania para compor um quadro que reduzida arte podia ter. Na segunda parte a sorte do cavaleiro não foi muito melhor. O Conde de Arriaga serviu mas era malvisto e exigiu trabalhos redobrados para o pouco brilho que permitia. Com o toiro a adiantar-se (mais pelas dificuldades de visão do que por maldade), Moura teve que pôr em cada ferro muita intuição para que a lide resultasse correcta e em sentido ascendente como acabou por acontecer com as duas rosas com que fechou.
Rui Fernandes era um segundo Golias. Como aqui não há nem vencedores nem vencidos, não derrotou – obviamente – nenhum dos alternantes, mas saiu de facto, com grande cartel. Tocaram-lhe os dois melhores de cada ganadaria e o ginete aproveitou-os da melhor maneira. O Cunhal Patrício saiu com som e foi nobre nas primeiras provas no capote e ferragem comprida. Dali o cavaleiro passou para os quiebros, reunindo nos médios, com três ferros que “roçaram a violência” ao olhar pela reunião mais do que consentida a sacar a montada do corno contrário no último milímetro viável. É claro que as bancadas estalaram imediatamente e reagiram com igual satisfação aos dois últimos, com cites vistosos, reunião de caras e rematados com piruetas. Com igualmente bom ambiente fechou a segunda actuação frente ao Conde de Arriaga. Embora menos exuberante, “montou faena” levando o cabano pelo estribo, mexendo-o para os terrenos certos e bons ferros entre a sorte de caras e os carregados ao piton contrário. Fechou com vistosas piruetas e levou o público consigo.
A história de David e Golias é uma metáfora sobre a possibilidade de os mais frágeis e de menos recursos vencerem os mais fortes. Rui Guerra era o David desta história e havia uma expectativa enorme para o ver entregar-se à luta e romper o quadro. Foi, obviamente, uma grande oportunidade para o jovem mostrar bom ofício e ao mesmo tempo uma enorme responsabilidade aos seus ombros. No primeiro da noite, viu-se a responsabilidade espelhar em excesso de cautelas nas primeiras abordagens. À medida que avançou, o peso foi-se diluindo e fechou uma lide limpa. O último da noite, de Conde de Arriaga era mais complicado e exigiu mais do cavaleiro que conseguiu contornar as dificuldades e cumprir a papeleta.
Nas jaquetas de ramagens estavam três grupos a disputar o troféu “Sousa” para a melhor pega. Foi mesmo isto que se viu: uma disputa entre os três grupos para levar para casa o troféu passando por cima de algumas “regras” tão consuetudinárias quanto a figura do forcado amador. Foi, digamos, a pior parte do espectáculo, já que além de alguma falta de brio (em particular com voltas desadequadas), se viveram momentos dramáticos e de verdadeiro pânico.
Pelos Amadores do Ribatejo: Joaquim Pedro viu o toiro entrar com pata e não conseguiu flectir-se nem fechar-se à primeira. À segunda o forcado voltou a não receber bem o toiro e saiu da cara com o peso da primeira ajuda. À terceira, recebeu com boa técnica e ficou com decisão, agora com boa primeira ajuda. Telmo Correia foi destacado para pegar o malvisto que saíra em quarto na ordem. Ao primeiro intento viu o toiro sair a procurá-lo e recuou quiçá cedo demais, conseguindo ainda assim fechar e aguentar parte da viagem a que o grupo tardou. À segunda o forcado corrigiu-se e mandou na investida mas não conseguiu fechar-se já que o toiro baixou muito a cara. Saindo lesionado do terceiro intento, viu o toiro arrancar já mais brusco e a bater, faltando-lhe agora forças para aguentar a viagem. Foi dobrado por João Machacaz que não concedeu e consumou a pega com muita determinação.
Pelos Amadores do Redondo: João Madeira executou os três tempos um pouco tardiamente e ficou sem espaço para recuar, empranchando ao primeiro intento. À segunda o toiro voltou a meter a cara em baixo e o forcado recebeu-o com os joelhos, apesar de ainda ter logrado aguentar alguns derrotes, acabou por sair lesionado. Na dobra, Mário Pinto suportou a entrada dura e fechou com muita decisão aguentando a viagem até o grupo chegar. Jorge Belo consumou uma pega de técnica exemplar. O toiro arrancou pronto, o forcado alegrou-o, consentiu e recuou para o receber humilhado e ficar decidido na cara com o grupo a reagir com prontidão (pega justamente vencedora do troféu).
Pelo Aposento do Alandroal: João Paulo não conseguiu recuar o suficiente e abrir as pernas ao primeiro intento, saindo empranchado. O mesmo sucedeu ao dramático segundo intento, de que saiu lesionado. À terceira, o grupo consumou de sesgo com ajuda carregada. Filipe Ramalho empranchou e lesionou-se num braço ao primeiro intento. Mostrou garra para voltar a tentar a pega embora o grupo o quisesse impedir. Na dobra consumam à terceira, de sesgo com ajuda carregada.
Sara Teles
