Ao longo da semana fizeram-se apostas sobre os resultados da bilheteira do festival de beneficência de Santarém. Treze toiros no 13 de Outubro pela simbólica quantia de seis euros, eram a promessa de um dia aficionado para chegar a casa e “sonhar com toiros”. A praça compôs-se a dois terços com quatro sectores completamente preenchidos numa bancada muito vibrante e condescendente em demasia. Foram três euros, com muito para ver, apesar de em geral ter faltado emoção.
A Luís Rouxinol coube o papel de “meter o público no espectáculo”. Mas fê-lo sem que tenha conseguido aquecer a bancada. Lidou um exemplar de António Silva que foi a excepção à regra das boas notas que a ganadaria obteve esta temporada. O exemplar serviu sem transmitir (mantendo-se a trote e defendendo-se ligeiramente) e o cavaleiro cumpriu a ordem sem sobressair. Ainda assim, veio de menos a mais: no quarto ferro de caras, aguentando o quarteio para cravar ao estribo e nos habituais de adorno de violino e palmo.
Saiu lesionada e ainda não se sabe da gravidade da lesão, nem ao certo o que se terá passado durante a lide de Sónia Matias ao colaborante São Martinho. Certo é que saiu para a enfermaria, mercê da entrega com que andou (repetindo, aliás, o que foi o seu registo, mais do que nunca, nesta temporada). Foi uma das mais bonitas actuações da tarde, redonda, modular, ligada e com ritmo – e quer a brega quer as reuniões tiveram nota alta. À excepção do primeiro comprido, ligeiramente descaído, todos os outros ferros ficaram exactamente “en su sítio”, a selar uma grande actuação.
Filipe Gonçalves lidou um sobrero de António Silva que, apesar de ter acusado menos na balança que os dois anteriores, teve mais presença na praça e “aquele tipo de investir” que desperta logo a atenção. Do primeiro comprido ao segundo curto o registo dos ferros do ginete algarvio não passou da regularidade e sem arriscar em demasia. Subiu o timbre depois com a sorte ao piton contrário mais afinada ao terceiro e quarto curtos mas voltou a baixar o registo com o Xique, já que a montada estrela não permitiu entrar pelos terrenos que o toiro, a este ponto, já exigia.
Irreverente, Marcelo Mendes arriscou nos compridos e as duas sortes à tira resultaram a “encher o olho”. Sucede que ao primeiro curto o cavaleiro confiou-se demais e o Lampreia apertou colhendo-o contra as tábuas. Pouco depois o cavalo perdeu as mãos e ficou a impressão na bancada que a colhida tinha lesionado a montada. Certo é que os assobios foram aumentando e foi pena que o cavaleiro não tenha acedido a trocar a montada rapidamente já que simplesmente não tinha o público com ele. Esta turbulência não deve ter dado tranquilidade ao jovem que se esforçou por agradar mas acabou por pecar por não dar as devidas distâncias a um oponente que as pedia e que, certamente, o fariam sair com um melhor resultado. Terminou muito bem, arriscando nos terrenos, em plano ascendente.
Sem peões de brega e nos médios, esperou Tomás Pinto o oponente de São Martinho para uma belíssima sorte de gaiola. Foram três belíssimos ferros compridos, numa inspirada abordagem. Nos curtos, apesar do toiro transmitir acabou por não ser tão bom como dera mostras e, tapando-se, foi olhando para tábuas sem partir com iniciativa. Com as sortes mais aliviadas e mão menos certeira, cumpriu a ordem de mais a menos.
Ao colombiano, que se apresentava em Portugal pela segunda vez, coube lidar um Infante da Câmara. O exemplar, reservado desde que saiu dos curros, teria exigido que lhe entrassem por terrenos proibitivos para que, quiçá, rompesse. O primeiro comprido e o último curto abrindo bonito quarteio foram bons mas os demais faltos de conteúdo. Talvez lhe tenha feito diferença a ausência da sua quadra para poder arriscar mais e acabou por passar em branco e com muita dificuldade pela monumental escalabitana.
A meio do espectáculo houve ainda Octavio Chacón. O diestro espanhol parece entender perfeitamente que o pouco que se vê de toureio apeado em Portugal condiciona as reacções do público. Assim usou-se da variedade de recursos, adornos e exagero de desplantes para levantar a bancada. O que é facto é que a bancada se levantou a aplaudir a lide a um extraordinário exemplar de Benjumea, que, cómodo de cara, foi tudo facilidades na flanela, mercê da nobilíssima condição.
O capítulo das pegas estava a cargo de três grupos de forcados, cujos três cabos puxaram dos galões para abrir praça.
Amadores do Ribatejo: João Machacaz deu muita praça ao toiro, levou-o toureado e recebeu com eficácia muito bem ajudado nas segundas. João Guerreiro esteve bem na cara do toiro e protagonizou uma bonita pega à barbela ao primeiro intento, apesar de o grupo só ter fechado em tábuas
Amadores do Montijo: Ricardo Figueiredo não obteve boa reunião ao primeiro intento, nem ao segundo teve ajuda eficaz para lá ficar. À terceira o toiro voltou a empregar-se a galope e a reunião foi acertada com boa prestação das primeiras e segundas ajudas. Hélio Lopes encheu a praça com o cite bonito de largo e ajuda longe. O toiro investiu a apalpar e entrou para o forcado com a cara a meia altura. Veio quase pendurado na córnea e só muita vontade e uma ajuda eficaz o mantiveram para consumar a pega ao primeiro intento.
Aposento da Chamusca: Pedro Coelho dos Reis reuniu com um piton entre as pernas e apesar do esforço para ficar, a que correspondeu uma boa primeira ajuda saiu despejado a meio da viagem. Ao segundo intento o toiro meteu bem a cara e a recepção foi eficaz à barbela, correspondendo o grupo a consumar uma boa pega bem rematada pelo rabejador. Francisco Montoya teve coração para citar o toiro na jurisdição e esperar-lhe pela investida intempestiva. Consumou à primeira uma boa pega à barbela.
Sara Teles
