Um século de idade e é a praça mais bonita de Portugal, na minha opinião. A Chamusca tem afición séria e desde há um século que se mantém firme a projectar cartazes com figuras de peso na tauromaquia nacional e internacional. Na abertura da festa dos seus 100 anos, o cartel não fugiu a essa regra: António Ribeiro Telles pai e filho; João Salgueiro, pai e filho; Paquirri, Morante, Cid e o jovem Vasco Veiga, compunham o cartaz, cujas pegas foram asseguradas pelos grupos da casa, amadores e aposento da Chamusca. Os novilhos foram cedidos para este festival de beneficência da Santa Casa, proprietária da praça, pelas divisas de Ribeiro Telles, Rosa Rodrigues, Veiga, Assunção Coimbra, Calejo Pires.
A moldura humana era mais do que generosa e se a casa não esgotou terá sido certamente pela falta de garantias que não ocorreria outra carga de água e granizo. Sendo que das intempéries previstas apenas o frio e o vento estiveram presentes.
António Ribeiro Telles abriu praça com o seu filho, mostrando-se bem entrosado na lide a duo com o seu filho António, ante um oponente também proveniente da Torrinha. A cravagem foi correcta e a volta merecida.
O segundo duo, a lidar um novilho de Eng. Rosa Rodrigues, foi João Salgueiro e João Salgueiro da Costa, que fizeram os aficionados levantarem-se em aplausos, especialmente, nos três últimos ferros, de cariz algo apoteótico, depois de Salgueiro da Costa ter feito uma primeira cravagem emocionante, a quiebro, o pai cresceu ainda mais e não houve momento algum em que não nos lembrássemos como é que este grande cavaleiro fez a sua trajectória. Foi dos melhores momentos da tarde, anda que o mais esperado, notava-se era Morante de la Puebla.
As pegas foram efectuadas, ambas ao primeiro intento e sem dificuldades, respectivamente por Francisco Borges, do grupo de Amadores da Chamusca, e Vasco Reis, pelo grupo do Aposento da Chamusca.
Francisco Riviera Ordoñes ‘Paquirri’, abriu a parte do toureio a pé, com um Assunção Coimbra pouco colaborante, que não criou ligação e as tandas foram algo desinteressantes apesar do bom esforço do toureiro.
Morante de la Puebla era sem dúvida o Matador por quem se aguardava, com uma ansiedade silenciosa, contudo coube-lhe o hastado manso da tarde, com as cores de Manuel Veiga. Podia ter deixado a lide mais tarde, mas não deixou porque quis entregar-se ao carinho do público da Chamusca e mesmo com o mansote soube dar-nos grandes momentos, dando volta ao ruedo, exigida pelo público de pé.
Foi Manuel Jesus ’El Cid’, que se retira este ano das arenas, quem esteve verdadeiramente em grande, sabendo que a sua força maior é a mão esquerda, foi por ela que mais brilhou, contudo não esteve a menos na mão direita. Lidou um Calejo Pires de boa qualidade, e deu duas merecidas voltas à arena.
Vasco Veiga lidou um novilho de sua casa, estando bem no capote, iniciando com uma afarolada cambiada de joelhos, bandarilhou com mérito, e teve com a muleta a um nível interessante.
Não se pode deixar de dizer que criou estranheza na tarde que não tenha sido dada música a Morante numa lide artística e de esforço, com uma entrega fabulosa e que não era requerida, depois de Paquirri ter obtido música com muito menos. Pode a direcção de corrida ser daquele grupo que acha que Morante tem de dar sempre mais do que os outros para ter troféu, só porque é das três maiores figuras mundiais do toureio? creio que sim.
Sílvia Del Quema
