Podia ter sido uma corrida extraordinária, mas foi uma corrida de onde o público que encheu a praça salvaterrense não saiu defraudado. Ana Batista agigantou-se com o seu segundo touro da noite, Diego Ventura tinha o seu público quer tivesse tido touros melhores ou apenas o que teve, João Ribeiro Telles singrou ante dois touros complicados, apesar de não terem sido os piores da nocturna que confirmou as excelentes apostas do empresário Rafael Vilhais, que tem conseguido recuperar uma praça de pouco mais de meia casa, para casas cheias.
A corrida, para mim, teve um factor emocional muito particular, pelo dia em que foi e pelos motivos que me fizeram não deixar de ir a essa corrida. Ou à do dia seguinte, da mesma empresa, mas nas Caldas da Rainha. E menciono isto pela importância que tem estar-se numa praça de toiros numa noite e noutra noite o mesmo. Nos tempos que correrem, em que os anti-taurinos teimam em querer provar que não há adesão aos festejos tauromáquicos, encher duas praças que há minuto tinham dificuldade em quase esgotarem, é brilhante.
Foi sob o signo de um eclipse que só se vê uma vez na vida, que a corrida se iniciou, abrindo praça a cavaleira da terra, depois de uma sentida homenagem póstuma ao jovem Manuel Vinagre, ginete salvaterrense.
Ana Batista teve um primeiro touro fraco, que lhe levantou dificuldades, mas, sobretudo, não criou ligação. Saiu por cima dele, cravando bem, mas em luta, pelo que a sua primeira de foi um momento de espera que o público teve para ver Ventura. No entanto, com o seu segundo touro, um dos mais prestáveis do curro de Canas Vigouroux, Ana esteve fortíssima, com muito emoção na lide, cravando bem e bregando com elegância e afinco. Uma lide memorável, mas que ficou na sombra do cavaleiro vindo da Puebla.
Diego Ventura teve dois dos piores touros da noite, mas a sua arte equestre prevaleceu sobre os oponentes, conseguindo com a grega tourear sem tourear e o público sem se importar, ovacionou o ginete. Não houve dúvida que foi a ele que as pessoas foram ver e com o Dólar, a estrela da sua quadra de cavalos, no último touro deixou todos satisfeitos ao tirar-lhe a cabeçada e assim cravar dois pares de bandarilhas.
João Ribeiro Telles lidou depois do furacão, pelo que as suas lides estavam tão eclipsadas como a lua. No entanto, o cavaleiro da Torrinha esteve bem em ambos touros, com excelente cravagem e o seu classicismo rebelde bem patentes.
As pegas foram efectuadas com dureza, pelos grupos de Montemor o Novo e Alcochete. Por Montemor foram à cara Vasco Ponce, que se fechou à primeira, tal como Bernardo Dentinho, e António Calça e Pina, pegou à segunda. Pelo grupo de Alcochete pegaram Pedro Gil, à segunda, João Machacaz que dobrou Diogo Timóteo e pegou à primeira, e João Guerreiro, ao quarto intento.
Silvia Del Quema
