Muito se tem falado na “diarreia” de prémios e troféus que se vão disputando nas mais variadas praças e cartéis. Ainda no editorial do Olé! desta semana, Francisco Morgado fala nisso, chegando até a dar uma ideia muito criativa para próximas estatuetas… Na última de Coruche também havia prémio… Mas era um prémio diferente e muito bem introduzido no cartel: o cavaleiro mais votado pelo público repete na feira de São Miguel em Setembro, na mesma praça do Sorraia. Nada melhor para instigar seis jovens, certamente sedentos de contratações para dar o melhor e arrebatar o público.
Se isso foi notório? Foi sim senhor. Viram-se todos sem excepção a querer mostrar os melhores bordados no seu toureio e por isso a tarde foi de todo interessante.
Pena foi que o curro de David Ribeiro Telles, com peso e trapio (tudo acima da meia tonelada) e rematada apresentação, não tenha tido um pouco mais de “sal e pimenta” além de cumprir.
Marco José tem aguçado a curiosidade nesta que é a sua 17.ª temporada como cavaleiro de alternativa. Triunfou na televisionada das Caldas da Rainha e o impacto foi forte. Ainda agora, escutava a conversa de dois senhores ao meu lado nas bancadas: “Este é que foi aquele primeiro na da televisão não foi!?”. A pergunta / comentário merece duas interpretações: 1.º que o êxito na “televisão” foi mesmo um êxito; 2.º que injustamente não é prontamente reconhecido! Mas deixemo-nos destes considerandos e voltemos à corrida. Pois Marco José encetou a tarde frente a um exemplar reservado que cedo buscou tábuas. Esteve ortodoxo nos compridos e não se desligou do toiro nos curtos, pisando-lhe os terrenos e procurando levá-lo sempre embebido na montada. Levou-o na brega atravessando os três tércios e cravou ao estribo em sorte de caras, o segundo e terceiro ferros curtos. Uma lide complexa, com argumentos e de entrega, bem conseguida, ante um exemplar que não transmitia.
A Gilberto Filipe parece que toca “sempre” o mais pesado. Assim foi desta vez também. O ginete do Montijo lidou o exemplar de 600kg, um toiro sério, bem rematado e com trapio que saiu com codícia e que se manteve franco e colaborante dos três compridos aos cinco curtos. Foi uma lide com altos e baixos, com alguns bons apontamentos mas que não se destacou, não saiu da linha da ortodoxia e faltou-lhe quiçá, arriscar um pouco mais.
Foi Manuel Telles Bastos o mais votado pelo público de Coruche. O toiro que lhe coube teve o condão de abrir aos primeiros curtos e ao que vinha sendo bem feito acrescentou-se transmissão. De facto o ginete entendeu bem o exemplar e nos primeiros curtos viu-se diminuir os andamentos da montada para entrar na cara do toiro e a aguentar até que rematasse. Bonito de ver! Ferros “en su sitio”, de alto abaixo com reuniões de verdade, a que o cavaleiro juntou algum adorno sóbrio.
A tarde continuou renhida… Tomás Pinto esperou o exemplar à porta dos sustos e levou-o numa brega de bom efeito, já que o toiro saiu com som. Dos três compridos, foi bom o primeiro e muito bom o segundo, de praça a praça para abrir quarteio nos médios. A lide continuou em boa senda mas o toiro veio a menos, faltando quase sempre no momento da reunião. Primoroso a rematar as sortes, onde se registaram bons apontamentos, terminou com um violino e um palmo a passar pelo corredor.
O jovem Salgueiro da Costa esteve intratável! Arrojadíssimo, cravou os três compridos de praça a praça a esperar pela investida – e isto foi no quadro da corrida como uma pincelada de Picasso numa tela de Rembrandt. Escutou música ao primeiro curto, ao piton contrário. Não deixou que o toiro se refugiasse em tábuas e obrigou-o nos terrenos. Arriscou muito e chegou a sofreu mesmo um toque ao primeiro curto. No terceiro e quarto igualmente arrojados, acometeu até ao limite na cara do toiro cruzando o piton de saída no último milímetro possível. Esteve largamente por cima do toiro que lhe coube.
João Maria Branco já trazia uma boa carga aos ombros quando pisou a arena para o último da tarde. Não acusou a pressão mas, ao invés, mostrou ofício. Recebeu o toiro à porta gaiola e tentou levá-lo na brega embora sem o efeito desejado. Esteve “limpo” nos compridos e andou com leveza nos curtos, com sonoras piruetas a rematar as sortes. Embora algumas passagens em falso lhe tenham negado uma nota mais alta, saiu em plano ascendente, em particular nos últimos dois ferros de grande qualidade. Optou não rematar a lide com sortes de adorno e, a nosso ver, muito bem.
Nas pegas, a tarde não foi nada fácil e os anfitriões protagonizaram mesmo os momentos duros. Um grupo que prima pela rectidão da conduta, pela união e um carácter bem vincado, não se deixou levar em momento nenhum pela má sorte do sorteio e pelo azar que toca a todos.
Assim, pelos Amadores de Coruche Pedro Galamba viu aos dois primeiros intentos entradas intempestivas do toiro que o tiraram em fortes derrotes laterais, consumando à terceira com a ajuda menos consentida e muita vontade, ante os sérios derrotes que o exemplar imprimiu na viagem.
José Marques consumou ao quarto intento, suplantando a dificuldade que o oponente impunha a frenar e defender-se no momento da reunião.
Por fim Paulo Oliveira saiu gravemente lesionado à quarta tentativa, com o toiro a bater com derrotes laterais na reunião dura. Foi dobrado por Ricardo Dias que, de sesgo, consumou uma pega rija, que sobrou em valentia.
Pelo Aposento da Moita foi primeiro solista Diogo Gomes, eficaz ao primeiro intento a aguentar um derrote alto que o grupo deixou brilhar. Nuno Inácio consumou igualmente ao primeiro intento, vindo quase a escorregar da córnea na investida brusca, foi bem ajudado pelo grupo. Por fim consumou à segunda tentativa Francisco Baltazar, que empranchou na reunião rija e rodou na cara do oponente, repetindo depois à barbela com uma grande primeira ajuda.
Sara Teles
