O primeiro Passanha que abriu a corrida de quinta-feira na Feira da Moita fez temer o pior. Outra mansada, numa corrida de tantas expectativas e com a praça quase cheia seria petardo difícil de contornar. Felizmente, só o primeiro deixou mesmo a desejar. Foi João Salgueiro a quem tocou “a fava” do curro. Verdade que o cavaleiro esteve por demais desinspirado frente ao exemplar; procurou as abordagens acometendo e a pisar terrenos mas mesmo assim das investidas que lhe sacou foi notória a escassa entrega do toiro, que só se mexia com o cavalo “lá em cima”. Nos demasiados percalços entre as passagens em falso, os ferros que não ficaram na cruz e alguma apatia, não logrou convencer as bancadas. Na segunda parte, com um toiro muito diferente, levou a faena mais ligada e foi mais evidente mas não chegou para romper.
Felizmente, de facto, o jogo simples e suavón dos Passanhas, que tiveram andamento e acometividade, nobres e com muita classe, permitiu a Ventura um recital numa narrativa cheia de recursos e a Telles Jr. uma prosa lírica à altura do desafio.
Diego Ventura armó el lío no primeiro toiro. Recebeu à porta gaiola, levou-o aos médios onde se dobrou arrimado. E arrimado andou sempre, ora de frente a dar vantagens, ora na brega a duas pistas com o toiro a acometer com nervo, ora nos quiebros. Estes – o quarto, quinto e sexto, têm descrição impossível – a impressionante suavidade e o “irrealizável” compromisso dos terrenos, estalam violentamente à vista. Absurdamente genial! O segundo do seu lote teve menos som e o ginete português, convertido a Espanha (isso é que não lhe perdoamos!), permitiu-se aos aspectos mais lúdicos, terminou a lide com o Morante e o público rendido.
Certo é que João Telles Jr. esteve à altura do compromisso. O primeiro do lote foi recebê-lo à porta dos sustos para o levar aos médios e executar o primeiro – muito bom – comprido. Ao segundo curto teve música e levou em redondo uma lide baseada nas sortes de câmbio frente a um toiro que cumpriu mas a que faltou nervo para se empregar nas reuniões. Com a graça que lhe é inata, esteve muito por cima do oponente. Com o enraçado que fechou a corrida andou “a dois tempos”, boas reuniões e terrenos cingidos. Prolongou a lide até ao sexto curto, e nestes últimos ganhou efeito na brega, com o toiro pelo estribo.
Mas esta noite, foi sem dúvida de Diego Ventura.
As pegas estavam a cargo do Aposento da Moita em solitário. Noite de responsabilidade para o prestigiado grupo.
José Broega consumou ao primeiro intento, com o toiro cerrado a tábuas. Igualmente à primeira consumou Nuno Inácio, pega difícil à córnea com uma enorme primeira ajuda. À segunda José Maria Águas encontrou dificuldade com a saída do toiro “a apalpar”, pisou a jurisdição e não teve margem para recuar o suficiente na saída encastada. Consumou à segunda. José Maria Bettencourt não foi eficaz nas duas primeiras reuniões ante a saída enraçada de cara por baixo que o exemplar impunha. À terceira consumou sem dificuldade. A pega da noite coube a Ricardo Matias: esteve tecnicamente perfeito, entrou nos terrenos do toiro e aguentou com “braços” derrotes a bater, na viagem a fugir ao grupo.
Sara Teles
