Ora então hoje, e por sugestão alheia, a qual me agradou muito, vou tentar escrever sobre o papel da mulher no mundo dos toiros.
E se já muito se falou sobre o assunto, não quero de todo fazer a descrição histórica das intervenientes no mundo dos toiros, e muito menos dar uma visão feminista da coisa, até porque, mesmo que o quisesse, não seria capaz. Mas sobre a feminilidade, ah isso sim, sou capaz e tenho bons exemplos para o fazer!
Pondo desde já de parte gostos pessoais, preferências por cada uma das variantes do toureio, ou até mesmo simpatias, devemos reconhecer que todas elas acrescentam riqueza ao toureio enquanto arte. Posto isto, gostaria de referir os papéis que para mim tiveram algumas delas: as que tive o gosto de conhecer.
Tive a enorme honra e o deslumbramento de conhecer pessoalmente Conchita Cintrón, “La Diosa de Oro”, na altura no auge dos seus 70 anos. Sabendo a história que carregava, por ter sido quem foi, na época que foi, e por ainda ter uma beleza e um porte invejáveis, mostrou-se de uma candura incomensurável. Não existem epítetos suficientes para Senhora tão magnética. Uma Dama na verdadeira acepção da palavra. Luso-Peruana, passeou a sua classe entre Portugal, Espanha, México, Colômbia e França, teve a bravura e a valentia de se afirmar em plenos anos 40, singrar, triunfar, há quem diga que toureou como um homem, e sem nunca, mas nunca, perder a feminilidade. Sobre ela escreveu Orson Welles: «A sua memória destaca-se como uma repreensão a cada um de nós que afirmavam que uma mulher deve perder algo da sua feminilidade, se ela pretender competir com os homens.»
Outra, e não podia deixar de falar nela, Cristina Sanchez, um marco no toureio apeado, que começou a triunfar por Espanha, Portugal e Sul América desde os anos 90. Com toda a sua força, garra, valentia, uma admiração enorme!…
Das Portuguesas, e as restantes que me desculpem, não é nada pessoal, mas não consigo chegar a todas e elogiá-las de uma forma condigna, destaco a bela Sónia Matias, que com a sua alegria, espontaneidade e feminilidade, cativa qualquer praça. Segundo a mesma: «No início não foi fácil porque era uma profissão exclusivamente masculina e eu fui a primeira mulher a tornar-me profissional.»
Todas têm um valor inestimável!
Ainda que digam que o mundo dos toiros é um mundo machista, o que tem algum fundamento de razão, não me parece que os homens se sintam de alguma forma ou ameaçados por algum tipo de competitividade, ou que banalizem o trabalho, esforço e mérito das intervenientes.É certo que faltam mulheres nos outros sectores da tauromaquia, direcção de corridas, jornalistas, ganadeiras, e por aí fora. É um trabalho árduo chegar a estes lugares, como tem sido o das mulheres em qualquer área.
Mas do quero mesmo falar é do papel das mulheres aficionadas, as que estão nas praças! Se já por si as corridas possuem uma beleza extraordinária, repleta de poesia, magia, grandeza, mas também de solidão, disciplina, liberdade, alegria e dor em doses iguais e inesperadas, carregadas de presença feminina então, nem se fala! Ela está nas cores, nos cheiros, na música, nos animais, nos trajes, em tudo!
Uma noite, a meio de um jantar sempre agradável com o Maestro Víctor Mendes, e penso que ele me vai perdoar esta inconfidência, este recorda que na praça de Quito ou Cali (não sei ao certo, é sabido que Equador e Colômbia são países carregados de mulheres lindíssimas, e jantares em boa companhia, com muita conversa e algum vinho fazem-nos apenas reter os detalhes mais importantes), uma das vezes que por lá toureou não conseguia olhar para a plateia, pois nunca tinha visto tantas e tão belas mulheres, estava assustado com tamanha desconcentração!Convenhamos, quem não se lembra de fotografias míticas da deslumbrante Ava Gardner a assistir a uma corrida ou até mesmo da belíssima Sofia Loren? E muitas outras, muitas mais…
É inegável a beleza que as mulheres trazem à festa, a moldura fica tão mais bonita… São mães, mulheres, irmãs, filhas, amigas de toureiros, namoradas e admiradoras de forcados, ou apenas aficionadas, que quando alguma coisa corre menos bem, tapam os olhos, gritam, mas quando tudo corre pelo melhor levantam-se, aplaudem, atiram flores e xailes à arena.
Temos fama de ser mázinhas umas para as outras, mas aqui, todas nos unimos para apreciar espectáculo de tamanha beleza. Engalanamo-nos para assistir, acompanhamos, sofremos e rejubilamos de alegria. E temos de ser mais, mais aficionadas/os, temos de ir mais às praças, e temos de ir cada vez mais bonitas.
Se o mundo do toureio podia viver sem mulheres? Podia, mas ficava tão menos glamouroso.

