Padilla é mais do um daqueles raros toureiros cuja arte impressiona, é um toureiro de poder. E que poder.
O Campo Pequeno está, praticamente, a meio da sua temporada, e se o ano passado teve o que considerei o melhor abono desde a sua reabertura, em 2016 creio que se vai superar. Depois da extraordinária noite de Morante, tivemos esta quinta-feira dia 14 Padilla a abrir a porta grande da primeira praça do País.
Nesta nocturna, só houve uma falha: Para mim, o ganadero precisava ter saído à arena. O curro de Varela Crujo foi impressionante tanto a pé como a cavalo.
O outro senão da noite está longe de ter sido uma falha, e sim um azar: Rouxinol (pai) só fez a lide partilhada com o filho no primeiro da noite, onde se destacaram nos ferros curtos a mostrar que em casa se treina em conjunto. Depois disso , foi substituído pelo seu filho Luís, que não defraudou a plateia.
Rouxinol jr. esteve bem perante dois oponentes de trapio e bravura, apreciei a sua primeira lide a solo sobretudo na brega barroca que executou, seguida de cravagem de grande nível.
O toureio a cavalo desta corrida esteve a um excelente nível e num estilo ligado aos tendidos muito semelhante ao do toureio a pé. Mas quem teve a noite muito dificultada para brilhar, foi Juan del Alamo, o matador espanhol facilmente seria o triunfador da noite, não fora compartir cartel com o extraordinário Padilla.
No último da noite, Alamo apresentou-nos um toureio com um ritmo alegre, mas sério, só que os seus desplantes ou passes de rodilhas não brilharam depois dos de Juan José Padilla.
E voltamos a Padilla… A emoção que este toureiro coloca em praça ensombra quem saia em paseílho com ele. Para mim, como dizia no incio desta crónica, estamos falar de mais do que um toureiro de grande mando e poder: Estamos a falar de um herói. O seu toureio em Lisboa remeteu-nos para a Grécia antiga, onde o minotauro e Teseu coabitavam com os meros mortais que, para se elevarem à condição de deuses – condição traduzida mais pela imortalidade do que pelo poder – iniciaram a tradição de lutar com o touro, animal que combatiam de uma forma mais semelhante aos
forcados do que a qualquer outro actor das arenas de hoje.
Os heróis gregos combatiam não para defender o bem do mal directamente, combatiam para se elevarem à imortalidade pessoal. Nesse processo faziam grandes feitos e isso implicava ultrapassar o Mal e representar o Bem. Padilla remeteu-me para essa heroicidade em Lisboa.
Lidou com paixão e transmitiu emoção forte, deu cinco voltas à praça, todas igualmente calorosas de aplausos. E se Lisboa não era onde em Portugal se vibrava mais no toureio a pé, com Juli o ano passado e Morante no início de julho e agora Padilla, estou certa que a aficion do Campo Pequeno já aprendeu a mais do que ir ao touros com matadores, agora já quer matadores e corridas mistas!
Receber o touro praça a praça de joelhos, desplantes plenos de ousadia, bandarilhas citadas do estribo e também colocadas de violino… No primeiro touro as suas bandarilhas deixaram a praça eufórica, e no segundo ia ser um tércio dado à sua quadrilha, mas o publico não permitiu e o toureiro cumpriu, voltando a entrar no terrenos de risco para nos brindar com três bom pares.
O seu toureio também mostrou bem que é possível ultrapassar o momento de picar o touro. No capote esteve clássico, rondeño, a receber no chão o touro, como se fosse fácil. Como se tivesse dois olhos e não estivesse a contar apenas com o que sente do seu oponente para pintar uma tela de Goya ou uma geavura helénica.
Na muleta a heroicidade manteve-se e por tudo isso, pelo poder no trapo vermelho, pela lide completa e pelo mando de uma pinta à outra dos tércios, Padilla ofuscou o resto do cartel e abriu a porta grande com todo o mérito.
Brindou aos forcados, do Aposento do Barrete Verde de Alcochete, e foi outro momento de emoção, pois nota-se bem a admiração que nutre por eles.
Nesta nocturna as pegas foram todas de grande nível, só Diogo Amaro teve de repetir a tentativa por ser afastado da cara com os fortes derrotes do seu touro. Marcelo Lóia e Luís Gomes executaram as pegas com grande nível ao primeiro intento.
Os gritos de “torero” que abriram a porta grande do campo pequeno ficaram a ecoar e creio que vão conduzir a que, ainda neste abono, se monte, no mínimo, outra grande corrida mista.
Sílvia Del Quema
