Os toiros de Vale Sorraia bem se sabe que não são suaves, nem grandes, nem
oferecem triunfos de mão beijada. Ontem em Alcácer-do-Sal deram jogo, mas apresentaram dificuldades e embora muito distintos de comportamento, todos foram encastados e com aquele “nervo” que sempre transmite à bancada. Mas verdade seja dita que os artistas lhes estiveram superiores.
Estavam em disputa troféus para a melhor lide e melhor pega da tarde. Anunciado o prémio ao cavaleiro Vítor Ribeiro, soou assobio enquanto Paulo Jorge dos Santos abandonou apressadamente a arena. Já se vê que a corrida teve caso… E se o júri era composto pelas duas empresas e por quatro representantes de órgãos de informação taurina, entre os quais este vosso espaço, cabe-nos apresentar os factos e apreciar a decisão com especial acuidade.
Rui Fernandes andou irregular na primeira actuação da noite. Correcto e ortodoxo nos compridos, foi menos assertivo nos primeiros curtos. O bonito chorreado andou sempre à procura de distrações e não foi claro, tanto se viu ficar no engano e faltar na reunião como antecipá-lo e reunir metendo a cara alta. Baseou-se a lide nas sortes ao piton contrário que Rui Fernandes foi ajustando mas que acabaram por não ter “aquela” reunião ao estribo que garantisse um resultado perfeito. A segunda actuação começou com pontos baixos e acabou “em altas”. O oponente saiu encastado e as investidas nos compridos foram a adiantar terreno à montada. De mais a menos, a casta do Vale Sorraia sobreveio em arreões, que o cavaleiro conseguiu “descomplicar” encurtando os terrenos e adicionando subtis adornos. Chegou às bancadas e reuniu um consensual aplauso na última rosa, que rematou em cingida pirueta.
Vitor Ribeiro encontrou um oponente sem querenças, que acudia às chamadas sem hesitações mas a que faltou alguma chispa para chegar com maior efeito às bancadas. Foi precisamente nesta lide que Vitor Ribeiro se sagrou triunfador. E porquê? Porque pôs nela o que o toiro não tinha! Como? Preferindo arriscar e escolher os terrenos de verdade a outras fantasias! Bons ferros, reuniões nos cânones, variou os terrenos e aproveitou em seu favor as várias notas que o toiro lhe apresentou. O sobrero que saiu em quinto, cedo descobriu uma querença em tábuas. Vitor Ribeiro voltou a estar “en torero” mas não conseguiu ligar os ferros e a brega, de maneira que os momentos isolados resultassem num conjunto realmente harmonioso.
Paulo Jorge dos Santos começou a primeira lide com nota altíssima, frente a um oponente sério e complicado. Muito bem na brega de recepção e grande efeito nos compridos de poder a poder, teve no primeiro curto o mais intenso efeito visual da noite. Na porta dos curros, aguentou e recebeu o toiro com um sonante, emotivo e exuberante quiebro, cravando o ferro de alto abaixo! Rematou a sorte e bregou o toiro para o segundo curto de reunião ao estribo, que voltou a causar impressão já que o toiro levantou as mãos do chão para colher. Vinha numa belíssima actuação… Fez contudo uma escolha que viria a modificar radicalmente o gráfico “da qualidade” da actuação. Trocou a montada, pôs em evidência a variedade e possibilidades do seu toureio, colheu palmas com os adornos nos cites e remates mas decaiu diametralmente em qualidade nos momentos chave das sortes. Com menos acerto, fechou a lide ao bravo que fechou a corrida com alguns percalços e colhidas que inviabilizaram o mesmo efeito que tinha logrado na primeira parte.
O capítulo das pegas, também tinha por epílogo um troféu para a melhor. Coube aos Amadores de Lisboa pegar a primeira parte da corrida e Aposento da Moita a segunda (mercê da troca da ordem de lide ao segundo toiro pelo quinto). Pelos de Lisboa foi primeiro solista Eurico Medronheira, que consumou ao quarto intento. Manuel Guerreiro concretizou duas tentativas duras com o toiro a meter um piton por diante e armar derrote por alto, concretizou à terceira, consentindo muito recuou mandando no toiro para se fechar com eficácia e aguentar a viagem com pata do exemplar. Pedro Gil concretizou à primeira e esteve tecnicamente perfeito numa pega e viagem rijas a que o grupo correspondeu coeso.
Pelo Aposento da Moita consumaram-se as três pegas à primeira tentativa. Foram caras José Maria Águas, que protagonizou a pega mais rija entre as três, em técnica intocável e o toiro a entrar pelo grupo – valendo-lhe o prémio. José Maria Bettencourt repetiu a boa técnica e embora o toiro tenha tido menos “gás” viu-se o grupo fechar mais coeso. Fechou a noite Salvador Pinto Coelho igualmente correcto e eficaz ao primeiro intento.
Arriscou-se em Alcácer-do-Sal uma “nova data” e um “novo formato”. Foi a terceira corrida da praça João Branco Núncio e a ideia mestra era a de “cativar toda a família” numa noite portuguesa: Toiros, Cavalos e Fados! Conforme, explicava o interessante e grato folheto oferecido à entrada da corrida.
Talvez por ser uma data “extra-calendário” a sempre acolhedora cidade de Alcácer, não se preparou para receber “de braços abertos” quem ontem a visitou, tal como prometia a própria Câmara Municipal no pequeno artigo que publicou no folheto da corrida. A iluminação da própria praça de toiros e os movimentos em seu turno pareciam mesmo ser o único “ser vivo” de uma cidade inteira que está de férias longe dali. Muita falta de visão e sentido de oportunidade por parte desta e tantas edilidades …
Quanto ao espectáculo pré-corrida protagonizado pelo “Centro Equestre das Cachoeiras”, teria sido mais interessante realizar-se antecipadamente à corrida de modo a não prejudicar as tradicionais 22h00. Já os fados que acompanharam as recolhas dos toiros, soaram lindamente ao longo de toda a noite… Ideia a repetir, limando-se algumas arestas.
Voltamos a estranhar algumas decisões do senhor director de corrida João Cantinho, parecendo-nos (para mais não dizer) um pouco arbitrário!
Além de nós, compuseram júri os Exmos. Senhores Vitor Pereira (Emoção Lda) com voto de qualidade, Dr. Tiago Gomes (Tauroleve), João Cortesão (Sortes de Gaiola), Solange Pinto (Touro e Ouro) e Miguel Ortega Cláudio (Naturales).
Sara Teles
