As nocturnas de Lisboa voltaram ao Campo Pequeno num cartel que atraiu pouco menos dos 50% aficionados autorizados a encherem a principal praça do País.
António Ribeiro Telles, Marcos Bastinhas e Francisco Palha, com os grupos de forcados de Lisboa e de Coruche, para touros de Canas Vigoroux. Agosto é, tradicionalmente, o mês mais fraco do Campo Pequeno, mas apesar de não se sentir o ambiente exterior de outros tempos pré-Covid – nem no início nem no fim da corrida -, a praça vibrava de alegria pelo regresso tão aguardado às lides taurinas. Quis a sorte e consagrou a arte que esta importante noite fosse para Francisco Palha. Com Bastinhas no encalce e Telles sem demérito.
O jovem cavaleiro entrou em praça destemido, a prometer emoção. Escolheu uma sorte gaiola que deu aos tendidos a emoção prometida. Bem correspondida pela saída do Canas de boa nota, a sorte gaiola foi cravada em curto e rematada em redondo. Prendeu a atenção de todos e seguiu toda a lide neste tom. Deu duas voltas, daquelas que agora se dão no centro da praça em vez de circular a teia. Com o seu segundo touro, Palha fechou a nocturna com chave de ouro. Encontrou-se delante de outro bom touro, com outra boa (mas menos emocionante, pois emoção depende tanto de destreza do cavaleiro como da atitude do touro) sorte gaiola. Depois houve excelentes momentos de cites ao piton contrário, que imprimiram o tom de toda a lide. Grande noite do cavaleiro no Campo Pequeno.
Marcos Bastinhas esteve intenso, recebendo o touro à porta gaiola conquistou o público, seguindo a sua prestação com a genica que lhe é conhecida e a demonstração de todos os dotes dos seus cavalos, extremamente ágeis e bem postos, deu-lhe direito às duas voltas. Com o segundo que lidou, teve momentos emocionantes ante um touro menos colaborante, como um bem executado câmbio na cara do touro, tendo fechado esta lide com uma cravagem de um par de bandarilhas, que ele não sentia necessidade de pôr com boa razão, mas forçado pelo desejo do público cravou, com dificuldade em ir buscar o oponente às tábuas.
António Ribeiro Telles, não esteve nos seus dias, neste caso noite. O Maestro da Torrinha lidou um primeiro touro que esteve sempre queixoso do posterior esquerdo, numa lide sem história: não houve incorrecções ou más interpretações, mas não houve o brilhantismo a que nos acostumou. Já ante o último touro que teve pela frente, foi de menos a mais e primou pela rectidão do seu toureio clássico, ficando um boa nota de cravagem.
Para os forcados de Lisboa houve três pegas à primeira, executadas por Victor Epifânio, João Varandas e Duarte Mira. O grupo de Coruche enviou António Tomás, que pegou à primeira, Miguel Raposo, que se fechou ao segundo intento, e João Prates, com uma importante pega à primeira.
A corrida que inaugurou este abono lisboeta teve o importante mote da candidatura da tauromaquia a Património Cultural Imaterial de Portugal, que não acredito que se vá conseguir, embora fosse de incrível importância e extrema justiça.
Os tempos que correm não estão de feição aos touros e são ventos que não parecem estar para mudar.
Sílvia Del Quema Vinhas
