Pedro Reinhardt digiriu a última corrida de Alcochete.
Foi desconcertante!
Os delegados técnicos ainda não estão munidos dos lenços coloridos que lhes dão poderes para ordenar as voltas. O atraso no cumprimento do regulamento, soa-me a caturrice, mais do que outra coisa qualquer. O comunicado que fizeram através da associação não deixou intuir, mas hão-de, suponho, ter os seus motivos para não facilitar…
No entanto, este contratempo acaba por deixá-los numa constrangedora confusão. Por um lado, ninguém está habituado a isto dos lenços, e, por outro, não podem deixar de cumprir a lei.
O sistema dos lenços colide um bocadinho com a verguenza torera. Para que o director “autorize” a volta, pressupõe-se que ela lhe seja pedida. Ora, este gesto é completamente impróprio. Ao toureio e ao forcado cabe esperar que lhe seja “exigida” a volta, isso sim…
Por enquanto, porém, não se vê ainda nada disso. De tão habituados a dar a volta, nem todos se lembraram de olhar para Pedro Reinhardt antes de saltar para a arena, e este, via-se forçado a dar avisos, através do cornetim, o que deixava o interveniente envergonhado e sem jeito. E a banda? Começa logo a tocar ou espera para ver se há volta?! E se ninguém no público está a bater palmas “por que raio” se autoriza a volta?! Bem se vê… uma consternação.
Ao que interessa…
A noite esteve deveras desagradável. Frio e vento a incomodar ao longo da corrida que começou pelas 22h com a Gala à Antiga Portuguesa e decorreu com sete lides de diferente assinatura.
Os toiros foram todos da ganadaria de Fernandes de Castro. Um curro díspar de apresentação e de comportamento. Houve um bravo, um salgado escuro que tocou a Filipe Gonçalves. De resto foram encastados e “com picos”. Por desígnio do destino, couberam os mais cómodos aos veteranos e os mais difíceis na segunda parte, e, portanto, aos mais jovens.
João Moura abriu a noite. Vinha da corrida de Amareleja, que se dera pelas 18h a 200km de distância. Chegou a horas a Alcochete e por aqui rubricou uma lide “a cumprir” a ordem. Verdade também que o oponente de Castro exigia cátedra. Tardo e nada voluntarioso, o oponente resignou-se à luta… Dali que os ferros se tenham sucedido em plano regular.
O segundo da noite, embora bisco, exibia bonita cara. Rui Salvador esteve em plano ascendente e inspirado! O toiro revelou-se um dos melhores da noite. Nobre e com mobilidade, acedia aos cites empregando-se para os ferros. O primeiro da ferragem curta, de tão bonito desenho e reunião fizeram soar a primeira ovação séria da noite. De excelente nota foram os últimos. Uma lide a encher as medidas de Alcochete.
O primeiro curto de Sónia Matias foi de estalo. Citou e deu vantagem ao toiro à porta dos curtos e quando saiu intempestivo tirou a garupa da montada a milímetros. De resto esteve tão valente como lhe é apanágio frente a um toiro que começou por se adiantar bastante mas que depois abriu com a lide e correspondeu colaborante.
Filipe Gonçalves lidou um salgado escuro que regressou ao campo, quiçá, para padrear. O toiro deu excelente jogo, sem escolher terrenos, correspondeu a todos os intentos do cavaleiro. A bravura do toiro e as ganas de triunfo do ginete fizeram do conjunto o melhor da noite, que se partiu, daqui para frente em sentido francamente descendente.
Pois Manuel Lupi não pôde com o oponente que lhe tocou. Saiu encastado e perseguiu a montada em várias voltas à arena que os capotes não conseguiam travar. De brega impossível, o exemplar mandava nas sortes a seu gosto – saindo só mesmo pela certa para colher. Era demasiado difícil e o cavaleiro optou por não ir além dos dois compridos e dois curtos que deixou. Saiu sem escutar a música e recusou a volta.
Também Mateus Prieto se viu a contas com um exemplar de índole semelhante e também não escutou música nem quis dar volta. Sem “gostar” do capote, o toiro acometia em arreões mas não tinha nem o mesmo sentido nem poder do anterior. Empenhou-se e resolveu a papeleta com dois compridos, três curtos e um violino a que o público reagiu com muito som.
Por fim Jacobo Botero, conseguiu encontrar sítio a meio da lide. De início, o reservado tapava-se para os ferros ficando todos irregulares, depois, o cavaleiro acabou por dar-lhe a volta acometendo de frente. Terminou com violino e violento toque à garupa. Resolveu – mas não foi feliz.
Para as pegas estavam destacados os Amadores de Évora e de Alcochete.
Dos Amadores de Évora foi primeiro Gonçalo Rovisco, a resolver ao primeiro intento, frente a um exemplar fechado de cara que impediu a reunião de pernas. Dinis Caeiro não conseguiu efectivar nas três primeiras tentativas. Na primeira, encontrou dificuldade na investida a ensarilhar e nas duas seguintes nos fortes derrotes laterais. Só à quarta, depois do aviso, com o grupo de comboio efectuou a pega, não sem aguentar boa parte da viagem sozinho e com derrotes. João Madeira complicou à primeira tentativa e à segunda emendou-se para concretizar a pega sem dificuldade. João Pedro Oliveira efectivou à primeira uma boa pega que fechou a noite.
Dos Amadores de Alcochete foi primeiro Joaquim Quintela, que conseguiu recuar uma enormidade para obter a reunião correcta com o oponente que veio a chouto. Leandro Bravo, concretizou à segunda uma pega dura com o oponente a derrotar forte. Por fim, uma pega enorme de João Gonçalves à primeira – o toiro meteu a cara no chão e a viagem foi dura! Extraordinária a ajuda de Diogo van den Toorn para quem se exigiu volta com o da cara.
Sara Teles
