Entrevista: Rita Vaz Monteiro Leão Cabreira
Abril 2013
Avis
A bonita herdade de S. Martinho no Maranhão, acolhe aquela que é a mais antiga ganadaria portuguesa.
Fundada em 1840, foi pela mão de José Vaz Monteiro que nasceu uma ganadaria com vacas e sementais de casta portuguesa, procedente do então Marquês de Vagos.
A ganadaria Vaz Monteiro, é hoje levada pela neta do fundador com um orgulho que se lhe sente na voz e a determinação de quem se mantém firme nas suas crenças.
Com mais de 170 anos de vida, conte-nos um pouco da história desta ganadaria?
A história da ganadaria remonta à procedência da antiga casta portuguesa Marquês de Vagos, a data da fundação é 1840, mas o primeiro curro de toiros foi lidado em 1843, sendo esta a data que fixa a antiguidade.
Daí para cá houve algumas movimentações, primeiro com a ocupação das herdades durante o 25 de Abril de 1974, o que obrigou a passar a ganadaria para a Companhia das Lezírias, mais tarde veio aqui para a Herdade de S. Martinho, em 1992. Aqui se tem mantido até hoje.
A Rita é uma ganadera de fortes convicções, nomeadamente no que diz respeito à pureza do efectivo e mantém a casta portuguesa, que por não ter introdução de qualquer outro sangue, constitui já Património Genético, Histórico-Cultural. Sente a responsabilidade de manter este legado?
Sinto responsabilidade enquanto aficionada e enquanto ganadera, sim.
Mas, digamos que não é isso que me move! Reconheço que é um factor importante, manter o legado e o património genético, mas o que me faz estar mais ligada a isto é sem dúvida o facto de me ter sido deixado pelos meus avós e é também a parte afectiva, que está relacionada com a minha infância e todo o amor e carinho que fui desenvolvendo por eles (o efectivo).
Resumindo, a afeição pela ganadaria não está apenas relacionada com a vertente genética, mas vai muito pelo cariz afectivo.
Quão difícil tem sido manter a ganadaria, olhando à conjuntura sócio-económica?
É de facto muito difícil, muito difícil. Claro que estas vacas têm um intervalo entre partos maior do que aquilo que seria o normal, é um dos aspectos negativos que a consanguinidade traz. Por outro lado, também me faz ter um menor número de animais o que na vertente económica dada a conjectura que se vive….bom, não é fácil vender estes toiros. São animais que têm umas condições de lide muito distintas ao que hoje em dia o toureiro pede e portanto esse lado é sempre mais complexo.
Quanto custa um toiro?
Criar um toiro hoje em dia, desde que nasce até que sua saía em praça andará na ordem dos €2.500.
Como é composto actualmente o efectivo?
O meu efectivo é composto por cerca de 57 vacas de ventre e 2 sementais.
Na Herdade de S. Martinho, quais são os factores dominantes que determinam a eleição das novilhas?
As tentas são feitas normalmente, eu não tento todos os anos porque não tenho um número muito amplo de novilhas e portanto prefiro juntar vinte ou trinta e nesse ano tenta-se.
Como aliás faremos este ano, estamos um pouco atrasados porque choveu muito e o tentadero não está nas melhores condições. A tenta é feita segundo os meus critérios, sorte de varas, muleta, portanto é como se faz à espanhola.
Concorda, quando a crítica refere que em Portugal tentamos para a muleta, quando deveríamos tentar para o cavalo?
Não, não concordo nada com isso. Quanto a mim dou tanta importância ao cavalo como à muleta. O cavalo demonstra um certo número de qualidades e a muleta outros, portanto a meu ver são as duas importantíssimas e distintas.
Quantos curros Vaz Monteiro serão lidados em 2013?
Tenho um curro para sair este ano.
Na era Rita Vaz Monteiro, recorda algum exemplar de destaque que queira partilhar connosco?
Não, por enquanto ainda não. Eu levo a ganadaria há cerca de vinte anos, parece-me pouco tempo para dizer que me saiu um toiro que me encheu as medidas. Ainda não posso dizer isso!
Eu tenho que ser exigente, repare, a questão da genética não é nada fácil. O que eu tento fazer é, dentro das características que o Vaz Monteiro tem, tento melhorá-las e adaptá-las às actuais condições de lide, mas sem nunca perder as suas principais características. O toiro Vaz é um toiro que é muito ágil, é rápido, é brusco, impõem mais a sua vontade e eu tento que essas características não se apaguem.
Imagine que sai à praça o melhor exemplar da camada, quem o lidaria?
Um toiro bom…se é um toiro com capacidade de mostrar ao ganadero que corresponde ao seu ideal, nunca pode ser toureado por uma pessoa qualquer. Tem que ser um profissional que saiba tirar o máximo partido da lide, ou seja, é o meio que tem de mostrar ao ganadero “aqui está o teu toiro!”. Tem que ser um toureiro que encare as coisas da seguinte forma…”as características que o toiro tem são “estas” e eu é que as vou conseguir mostrar”.
Agora que o toureava….bom, tenho vários toureiros de que gosto muito, e que poderiam lidar um toiro assim, gosto do António Telles, gosto do Salvador, gosto do Salgueiro (pai), gosto do Kiko Cortes… e fico por estes porque são os que talvez conheço melhor.
Se estivermos a falar de toureio a pé, para lidar um toiro meu sem dúvida nenhuma escolhia o Juli.
A corrida das Caldas da Rainha em 13 de Maio 2012, teve um sabor especial, quer comentar?
Teve um sabor muito especial….de tal forma que já estou emocionada.
Teve um sabor realmente especial, coincidiu com o facto de o meu avô ter morrido, coincidiu com eu ter tido a ideia de fazer essa mesma corrida, digamos que foi uma homenagem que eu quis prestar, não apenas ao meu avô, à minha avó, mas a todos os meus antepassados, que no fundo são os grandes responsáveis pela existência desta ganadaria. Digamos que surgiram uma série de acontecimentos que proporcionaram a realização dessa corrida, e também teve como objectivo mostrar ao público e a mim própria os resultados de vinte anos de trabalho e dedicação.
Como é composta a equipa que trabalha ao seu lado, na gestão da ganadaria?
Na gestão da ganadaria a única pessoa que colabora comigo é o meu empregado, o Manel Zé, em quem eu tenho a máxima confiança e que se tem mostrado uma pessoa à altura.
Cada ganadero tem o seu maneio próprio que quer dar à ganadaria e o Manel tem-se enquadrado perfeitamente bem àquele que eu entendo que deve ser o maneio desta ganadaria.
Há quem diga que as nossas ganadarias estão a atravessar uma boa fase, e há quem critique as condições do mercado e defenda que por isso as ganadarias estão a perder qualidade. Como classifica a qualidade das ganadarias?
A qualidade das ganadarias portuguesas é um tema sobre o qual eu não falo.
Posso dar a minha opinião enquanto aficionada e enquanto ganadera, sabemos que estamos em épocas complicadas como é óbvio, em termos económicos. Do meu ponto de vista, aquilo que se oferece ao espectáculo em si custa muito caro, ou seja, paga-se muito caro para aquilo que o espectáculo nos oferece a nós. Com a agravante de que, uma corrida de toiros é um espectáculo único, um acontecimento especial, quanto a mim deve ser enquadrado o mais possível dentro de cada região e realizado numa data que tenha a maior relevância, portanto eu acho que uma corrida de toiros deveria ser mais cuidada, mais bem elaborada. Não se deviam atropelar datas, nem repetir cartéis, deveria haver mais cuidado nesses aspectos.
Relativamente aos toiros….os toiros são toiros, representam perigo, representam emoção! Quanto a mim, os ganaderos nesse aspecto, são os maiores responsáveis em transmitir essa emoção e em levar às praças toiros que façam com que o público reconheça que o toiro é um animal que constitui esse perigo. Portanto, deveria ser dada mais importância a esse aspecto e ser mais respeitada a essência do animal em si.
Aos olhos do mundo taurino, como considera que é classificado o toiro Vaz Monteiro?
É uma opinião que eu não considero boa, sou franca. Não vou dizer coisas que não são verdade, até porque não faz parte da minha maneira de ser. Desde pequena que oiço dizer que o toiro Vaz Monteiro é um toiro que não presta, que é um toiro que é manso, que é um toiro cobarde, que salta a trincheira, já ouvi dizer muita coisa.
Em primeiro lugar, parece-me que deveria haver maior respeito por este património genético, por outro lado as pessoas não se podem esquecer que o comportamento de um toiro de antiga casta portuguesa não tem a ver com o que evolução traduziu naquilo que são consideradas hoje as condições de lide.
Portanto, acho que hoje em dia há uma opinião sobre o toiro Vaz Monteiro que é infundamentada e que eu procuro contrariar através dos melhoramentos que faço, mas sem deixar que o toiro Vaz perca a sua característica própria, que é de um toiro com condições diferentes dos outros.
Eu tento repor a imagem infundamentada e negativa que alguns têm sobre o meu toiro, tento mostrar ao público aquilo que o toiro Vaz Monteiro é hoje em dia, porque a genética tira e põe muita coisa, nesse campo eu não mando nada, tento dentro daquilo que posso melhorar o toiro Vaz. É isso que me é possível fazer.
O toiro Vaz Monteiro de hoje em dia não pode ser o mesmo toiro de há quarenta ou cinquenta anos, porque nessa altura não havia um trabalho que eu tenho estado a desenvolver há vinte anos quase, e a própria genética em si também altera.
Participar num concurso de ganadarias, ou dividir um cartel com outra ganadaria, o que prefere?
Prefiro levar um toiro a concurso de ganadarias. Sinto vontade de mostrar.
O que é importante para mim, à parte de manter o património genético, é que pelo menos as pessoas tenham oportunidade de ver o que é o toiro Vaz Monteiro de hoje em dia.
Qual é para si o conceito de bravura?
O conceito de bravura que eu procuro que o Vaz tenha, é ser um toiro com capacidade de humilhar, ser alegre, transmitir, sair sempre com raça, investir sempre com raça, sem maldade e repetir nas investidas que faz.
Por vezes existem acidentes que arruínam um exemplar pronto para sair à praça. Tem algum episódio deste género que nos queira contar?
Infelizmente tenho alguns. Mas aquele que mais me marcou foi, um novilho cardeno muito bonito que tinha aí, muito bem feito, com uma córnea que saía um pouco fora do tipo dos outros (o que é normal, deve ter ido buscar uma linha uns quantos anos atrás.), e precisamente por ser um tanto diferente, os outros não lhe acharam piada. A lógica da hierarquia e da selecção dentro da mesma família, levou a que outros o matassem, caíram em cima dele uns quatro ou cinco e mataram-no. Chocou-me bastante, até porque ainda assisti a parte do seu final!
Revele-nos algo que gostaria muito ver concretizado este ano.
Espero sempre que os meus toiros saiam bem. Espero ser recompensada no carinho e no investimento que tenho para com os meus toiros.
Tenho aí um toiro muito bonito, um cornalão se esse saísse bem era a minha maior alegria.
Quando falamos em Tauromaquia, qual é a primeira palavra que lhe surge.
Toiro. Tauromaquia para mim é toiro.
Quem é Rita Vaz Monteiro Leão Cabreira?
Não serei a melhor pessoa para o dizer.
Eu sou uma pessoa que tem muita fé, isso é capaz de ser a maior característica que tenho, a minha avó dizia-me sempre: ”Querer é poder!” e é provavelmente o que me traduz melhor.
Enquanto eu acreditar, enquanto eu gostar, enquanto eu confiar terei esse motor que é o que me faz andar. É do toiro que eu gosto, é das vacas que eu gosto e é neles que tento projectar os meus sonhos na esperança que a ganadaria seja cada vez melhor e que corresponda àquilo que o público quer, mas principalmente àquilo que eu quero que a ganadaria seja, sem perder as suas características próprias, sem perder tudo o que a distingue das outras.
Ana Paula Delgadinho
