A graciosa praça de toiros Carlos Relvas viu nesta nocturna pouco mais de um terço de casa preenchida, embora o vento fresco esse sim, se tenha ocupado de toda a praça. Um cartel apelativo ao nível de cavaleiros e forcados, mas um tanto expectante no que ao curro dizia respeito. A ganadaria Herdade de Camarate, cuja antiguidade remonta a 1859, trouxe de Samora Correia a Setúbal um curro que serviu, embora sem emoção. Esperava-se mais desta corrida do emigrante cuja direcção esteve ao cargo de Manuel Gama, a ditar no cornetim de Nuno Narciso.
António Ribeiro Telles empregou um ritmo acelerado à sua lide, o que se fez notar em contraste com o toureio ponderado a que nos habituou, mas não foi a velocidade que lhe tirou mérito e o mestre esteve por cima de um toiro preto, com pouca cara a pesar 500kg.
Nos três compridos e sempre com o toiro a entrar com velocidade, deixa o primeiro em sorte cesgada a ficar algo traseiro, o segundo bem calculado no alto da cruz e o terceiro a ficar igualmente bem, precedido de uma sorte muito bem desenhada.
Na série de curtos e ante um toiro nobre crava o primeiro em sorte frontal, bem rematado ao pitón contrário deste gacho, cornicerrado. No segundo e terceiro curtos o cavaleiro andou bem na brega e a cravar com a aptidão de quem sabe fazer bem. Para o quarto ferro, e tendo por diante um toiro a cumprir, António coloca-se em sorte e cita, manda e crava com valor.
Para o segundo lote o cavaleiro da Torrinha, tinha reservado um toiro preto de 490kg de peso, bonito de cara, mas desligado da montada. Sem dificuldade em entender o toiro, construiu uma lide animada iniciada pela cravagem de três compridos, dos quais merecem maior destaque o primeiro e segundo colocados em sortes bem calculadas e en su sitio. No conjunto das bandarilhas, e perante um toiro que se adianta na perseguição, o cavaleiro deixa a primeira vistosa ao pitón contrário, a segunda muito semelhante mas abrindo um pouco mais o quarteio, dado que o oponente não permitia que lhe pisassem os terrenos. Fecha a sua actuação com mais dois ferros curtos de boa nota, com o toiro a corresponder melhor e a entrar bem na sorte, o que permitiu também marcar os momentos de quarteio e reunião.
João Salgueiro é outro cavaleiro de mão cheia. A optar por estar menos presente, mas quando está não desilude. Chega, brinda à praça e dá inicio a uma lide entretida tendo pela frente um toiro preto anovilhado, com pouca cara e 480kg. Depois de se empregar bem na brega para o fixar deixa dois ferros compridos, sendo o primeiro em sorte cesgada e o segundo de cravagem exemplar. Troca a montada para dar inicio à série de curtos tendo por diante um oponente andarilho. O cavaleiro de Valada soube medir mais um gacho, cornicerrado deste curro e deixou dois ferros curtos com muito mérito em sortes frontais. Ao terceiro ferro o toiro rachou-se, ainda assim João colocou mais três ferros, dos quais devemos destacar o quarto em sorte frontal com um quarteio muito bem definido e um quinto com emoção que fez despertar as bancadas.
E se na primeira lide andou bem, na segunda João Salgueiro empregou-se e lidou mais um negro, ligeiramente bragado, meano, que saiu distraído como que a pedir o primeiro ferro para abrir.
O cavaleiro coloca os dois compridos da ordem à tira, em sortes muito bem calculadas e vistosas com maior evidência para o segundo. Nos curtos pautou pelas sortes frontais de poder a poder, e neste gacho de 530kg de peso deixou quatro ferros de rigor, em sortes bem desenhadas, quarteios bem definidos e cravagem regulares no alto da cruz. Esmerado na brega, com bonitos adornos que rapidamente chegaram ao público, colocou uma ferragem curta de boa execução, a mostrar que quem sabe não esquece.
O terceiro cavaleiro era Rui Fernandes, outra geração, outra postura e outra vivacidade. Tocou-lhe um corniabierto, preto, o de resto foi requisito comum a todo o curro, que pesava 485kg e entrou a passar na capa do Belmonte. O cavaleiro recebe-o a instigar a perseguição para depois concluir com alguns recortes. Dá inicio à ferragem comprida bem colocada, bem rematada mas sem resposta do oponente.
Entra nos curtos com ânimo, e na tentativa de tirar toiro onde não há crava um primeiro sem investida.
Ainda que tendo por diante um toiro sem sentido de lide, o cavaleiro da Caparica suou na brega e de forma esforçada cravou dois curtos vibrantes no murrillo que desde logo chegaram à afición. Termina esta actuação com um ferro muito vistoso a aguentar em tábuas, rematado com notáveis ladeios.
A encerrar esta nocturna o cavaleiro da casaca azul e prata, brinda a sua lide ao empresário João Pedro Bolota e fecha praça recebendo aquele que foi o toiro com mais tipo, preto, bonito de cara e a pesar 515kg.
Nos compridos esteve bem, deixou dois à tira com maior notoriedade para o primeiro.
Inicia os curtos com uma bonita brega a trazer o toiro ligado na garupa ladeando em tábuas, fixa-o e crava em sorte frontal. Ao segundo ferro o cavaleiro consegue sacar alguma emoção e aquecer as bancadas, numa corrida que vinha morna, bem sabemos que a arte de bem montar também conta e Rui adornou, fechou-se em tábuas com o toiro colocado nos médios e dando-lhe a primazia, citou, aguentou e no momento da investida cravou um ferro admirável.
A fechar praça, deixa ainda mais dois ferros após ajustar a montada, sendo o primeiro mais um de boa nota em terrenos do oponente, e o segundo já com este a vir a menos, foi cravado precedido de um cite vibrante e com o toiro a trazer a cara por cima entrando-lhe pela casada.
A elite desta classe que são os forcados fazia-se representar pelos GFA de Coruche e GFA do Aposento da Moita, capitaneados por Amorim Ribeiro Lopes e José Pedro Pires da Costa, respectivamente.
Abriu praça Coruche, por José Sousa que citou bem, de largo, soube mandar, recuou e no momento da reunião o toiro mete o pitón e quase tira o forcado da cara, mas esteve bem o rapaz que se fechou à barbela e aguentou até que o grupo concluísse.
O Aposento da Moita abriu as hostilidades com Martim Afonso Carvalho, que foi obrigado a mostrar-se perante um opositor mais interessado na trincheira. Mas o forcado fez-se notar e perante um toiro que barbeava as tábuas, citou vibrante e quando o tinha consigo manteve-o ligado e viu-o arrancar ensarilhando, recuou e reuniu no momento certo fechando-se à barbela.
Para a terceira pega da noite foi Miguel Raposo, que dedicou aos bombeiros presentes em praça mas em jeito de quem queria homenagear a classe dos soldados da paz. Esteve bem o forcado a citar determinado, a mandar e a pegar à segunda tentativa alapado à barbela e a aguentar os primeiros derrotes até o grupo concluir.
À cara do quarto toiro da noite foi Leonardo Matias, para fazer uma grande pega. O forcado mediu-o bem no cite, soube ler-lhe o comportamento e encurtando as distâncias pegou-o à barbela sem falhas e a aguentar fortes derrotes até à chegada dos companheiros.
Coruche pegou o quinto, foi à cara José Marques, esteve bem o forcado a citar de largo, bonito, sonante mas no momento da reunião nem tudo correu pelo melhor, ainda assim com as primeiras em carregas pegou com mérito à terceira tentativa, com o grupo a não facilitar.
Fechou praça João Rodrigues, a mostrar-se alegrou-o, mandou, recuou bem e fechou-se, mas o toiro baixou-se e tirou o forcado da cara. À segunda tentativa, João cerra-se de braços para não mais o largar e consuma com galhardia.
