Não há, a meu ver, suficientes palavras no dicionário para descrever a beleza, a subtileza, a emoção e a pedagogia ética das corridas de toiros. E por falar em pedagogia, digo eu que não percebo nada disso, parece-me pouco ético existir um filme para crianças onde estas são condicionadas.
Não gosto de pessoas fechadas na “caixa” e obcecadas por uma causa qualquer. E formatadas ao desejo de uma ideologia, moda ou tendência. Tome-se o exemplo do filme “Ferdinand”, ainda por estrear este ano, baseado na obra mais conhecida de Munro Leaf. Publicada em 1936, e convertida num clássico da literatura infantil nos E.U.A., conta a história de um toiro espanhol que não gosta de investir, prefere cheirar cravos! O filme passa-se pelas ruas de Ronda, sempre a evitar qualquer tipo de confrontação. Acaba na praça de toiros de Las Ventas. Todo um toiro anti-taurino, definitivamente!
A tentar formatar as crianças para uma total falta de noção de realidade! Desde quando se pode passar esta ideia? Seria a mesma coisa que os futebolistas passassem a jogar e a rematar apenas com sopros, pois chutos são muito violentos e podem magoar, traumatizar e ferir susceptibilidades. Alguma credibilidade?
Mais, a vergonha que é impedirem pais de entrar com os seus filhos numa praça, como já aconteceu, porque saiu um Decreto-Lei que classifica os espectáculos taurinos como não sendo adequados para menores. Porquê?
Por favor… Desde que me conheço que vou aos toiros, e que saiba, para além dos desequilíbrios normais comuns a todos nós, o meu único excesso é então continuar a ir aos toiros.
Ridículo pregar a paz no mundo, os refugiados, o terrorismo, mas esquecer de pacificar a nossa própria casa, os nossos.
Normalmente têm discursos inflamados sobre causas que não vivem, sobre coisas que desconhecem, mas são incapazes de reconhecer valor, esforço, dedicação, tudo o que não lhes convenha. Aborrecem-me pela previsibilidade.
Toda uma insensibilidade social desta minoria egoísta fixada no seu irrelevante umbigo (e tantos que se acham superiores, coitados). Mas uma coisa que eles não sabem é sobre o poder redentor e incrível da amizade e de nos sabermos rodear bem, e é o que temos de melhor que eles. Porque é o melhor de tudo.
Estes últimos são os mesmos que são anti-taurinos, e depois vão de férias para um turismo rural qualquer no campo, de preferência com animais por perto, pelo pitoresco da coisa… Não há pachorra! Ah, e os mesmos deslumbrados que adoram Sevilhanas e Flamenco, mas são contra corridas de toiros? Há aqui qualquer coisa que me escapa, a mim ou ao bom senso comum! Já para não falar da falta de respeito crescente e agonizante de atentados a património taurino, criaturas capazes de fazer este tipo de vandalismos, a meu ver, pouco valem…
Bom, valham-nos as pessoas com “tudo no sítio”, sejam monárquicas, de direita ou esquerda, ou mesmo apartidárias.
O senhor Macron, que tem qualquer coisa de “homem novo”, tem uma mulher com mais não sei quantos anos do que ele, ainda por cima parece interessante, não tem partido nem filiação delimitada e, no entanto, ganhou. E tornou-se Presidente de França, um dos países pioneiros das Ideias – quase tudo o que fazemos agora, já foi pensado em França antes, nem que seja na Academia de Filosofia. Até ele se opõe à proibição da tradição taurina nos territórios franceses. Se é bom ou não, não interessa, palmas para este Senhor!
E não, nada tem a ver com as minhas próprias convicções, que as tenho, e bem vincadas, mas que não interessam nada para esta crónica, e que faltam a muito boa gente. Um fio condutor de convicções e espinha dorsal para se saber o que se quer ou não, e não ir apenas com a corrente.
E que dizer do “enorme” Antonio Banderas? Em pleno desfile benéfico “Fashion for Relief”, que coincide com o Festival de Cinema de Cannes, converte-se no protagonista do evento! Usa o casaco com que desfilava como capote, mete-se no papel e porta-se com tal maestria e destreza como se tivesse toureado toda a vida!
Na plateia assistiam nomes importantes, como Rania da Jordania, Sarah Ferguson entre outros. E nada o constrange ou impede de dar uns capotazos e fazer uma grande faena, e bem feita por sinal! Assim, sem complexos.
Há pessoas maiores que outras… Precisamos de mais Banderas!!! Ole Maestro…
Volto ao mesmo, áquilo que só nós sabemos, que em todos os lugares taurinos se sente o mesmo.
As corridas deixam-nos sempre com sabor a muito, mas também a pouco. Muito pela arte, a entrega, o esforço e a dedicação dos intervenientes, a magia, por vezes também o vento e a poeira, o Sol e o frio, os lugares desconfortáveis, as surpresas e inevitabilidades. Pouco porque terminam muito rapidamente quando correm bem. Seja qual for o desfecho, terão sempre o seu encanto. Tudo é importante, fundamental e essencial, da música aos rituais de encontrar o lugar. Tudo!
O importante que é não ter vergonha de assumir o ser aficionado, numa época em que parece ser discriminatório gostar.
Obviamente, tudo isto é apenas e só a minha humilde opinião. E falar de toiros é uma coisa muito séria e de muita responsabilidade! E para se ter opiniões, é preciso saber umas coisas e ter a inteligência, e a modéstia, para reconhecer que se tem mesmo coisas para dizer e que não tenham já sido ditas – e abalizá-las, não banalizá-las.
Apenas e só, um movimento da alma, uma adição emocional, uma maneira de viver, a que chamamos afición, palavra que vem do affectum latino, cujo significado apenas se louva e não requer tradução.
Em nenhum outro círculo se ouve esta frase tão mágica quanto bondosa:
E que Deus reparta sorte!

