Recomendado a corações sensíveis, mas não lamechas:
Há algum tempo que não gostava tanto de ler o que anda por aí, novo, “repescado” do passado, escrito por amigos, figuras públicas, etc..
E não é porque falta à maioria piada, opiniões, profundidade ou mistério, que falta, mas porque são raras as pessoas que pensam maior, isto é, em todos nós, e neste mundo maravilhoso que é o dos touros, e que destruímos a cada dia como se não fosse nosso, como se fosse apenas responsabilidade alheia se algum destes dias, tiver um fim trágico!
Andamos há uns valentes anos a bater no mesmo, mas pelos últimos acontecimentos, parece que anda tudo mais “espevitado”, e seria bom que não se perdesse este balanço, não é só escrever, não servem só conversas de bastidores.
Estive no Campo Pequeno no passado dia 5, mas não cheguei a perceber o que aconteceu. Ainda que não pertencendo a uma família numerosa, nem com amigos incluídos chego lá, sei que quase um salário mínimo foi lá deixado em prol da festa que não existiu. Dei porque pude, senti-me defraudada? Senti! Mais, com muito medo, medo pelas pessoas que abandonaram a praça desiludidas com a Festa em si, e medo por estarmos a dar de mão beijada, exactamente o que os “outros” querem, que isto “imploda” por si só.
Tantas foram as versões que ouvi, para justificar a noite, e nenhuma me convenceu, mas o que sei é que em nada dignifica este mundo, e que às vezes é preciso grandeza para ver o detalhe, distância para ter perspetiva – e generosidade e humildade, sempre!
Mas sei o que aconteceu na Assembleia! Á pergunta: “mas que raio foste lá fazer?”. Simples, ok não sou profissional do ramo, mas sou um número, e um número muito interessado em que tudo isto não termine por meia dúzia de filhos de laranjeiras mal enxertadas, e os números nestas coisas contam! Não chega só achar que não vale a pena, que outros farão alguma coisa, não chega mesmo… Calar e ignorar, claramente já não é o melhor remédio.
Estive lá e garanto que foi tudo limpinho e sem glúten!
A esperteza a sobrepor-se à inteligência e à justeza…
E que grande a Lea Vicens, de Nimes zona amante das tradições, que esteve enorme a 14 de Julho, em San Fernando, Cádiz! Afirma sem medos que as minorias, neste caso, os anti, ainda que em número reduzido, têm sempre mais voz? Ridículo acontecer isto? Não, não é… Calamo-nos muito e deixamos meia dúzia gritar, como aconteceu na Póvoa de Varzim. E ainda dizem que não há juventude, que está em declínio, viu-se… E que belo corridão que foi! Os astros alinharam-se todos a nosso favor!
Bem vistas as coisas, os que não se aguentam são os que não percebem o humor, a subtileza, a ironia, pior, o perigo de tudo o que se está a passar, e que afirmam disparates, ou que se recusam a entrar em determinadas praças e por aí fora… Pensar na tauromaquia e tudo o que a rodeia, não apenas como um recreio de massas, lugares para se ser visto e ignorar as cunhas (o nosso país adora borlas, parece que fomos demasiado pobres demasiado tempo).
Ora se todos pensássemos igual, que seria? E não é ser falso bonzinho, defender todos, mas nunca fazer nada por eles. É melhor ser controverso do que não ser nada. Apesar dos que não são nada se safarem melhor neste mundo – principalmente no mundo do trabalho. Não só adoro gente que diz o que pensa como tenho aprendido tanto com as opiniões dos outros, principalmente com as que fulminam as minhas, mas das boas, tóxicas e pouco construtivas, quanto mais longe melhor. E já ganhei imensos amigos pelo caminho, dos bons entenda-se.
Se todos pensarmos apenas numa direcção, a da festa em si, num todo, conseguimos perceber o belo que é o sentido de comunhão, o sol e o vento no rosto, as faenas inesperadas, pessoas, estados de espírito.
Não podemos deixar cair mais nada, nem do Espectáculo Tauromáquico em si, nem praças, nem formas de Tauromaquia Popular (qualquer dia também levamos com uma proposta de insufláveis para substituir os encerros como em San Fermin).
Que seria se não existissem as Largadas ou Esperas de Toiros em Vila Franca de Xira, na Azambuja ou mesmo na Chamusca? Provavelmente as festas continuaram a existir, mas não tinham piada nenhuma, sem a sua essência? Por favor…
E a Capeia Arraiana da região do Sabugal, perdia-se a tradição para sempre? Não haveriam mais homens a construir o forcão? E sem Tourada à Corda, na Ilha Terceira, as festas seriam as mesmas? Nunca, deixem-se de ideias tristes!
Ou a Corrida de Touros de Morte em Barrancos? Perdia-se tudo o que tanto custou a ganhar e o que nos torna diferentes? Mais juízo nalgumas cabeças, bastaria para parar tanto disparate…
Percorrer todo este Património tão nosso, faz-me acreditar que apesar deste mundo por vezes ter muito mofo, gente com teias de aranha na cabeça, ainda há brisas que passam e deixam aromas de esperança e de primavera.
São metáforas da vida, e se os hambúrgueres vegetarianos esgotam, as corridas de touros também! Agora pensem…

