A família taurina tem todos os valores das pessoas de bem, um deles a solidariedade. Foi o que mais triunfou na nocturna de homenagem a João Moura, no Campo Pequeno. No entanto, o cartel mais importante esteve no exterior da praça. Cerca de mil defensores dos animais manifestaram-se efusivamente contra a homenagem a um homem que deixou os cães a morrer à fome. Foram várias as entidades que apelaram à participação massiva neste protesto, mas sem dúvida que a orquestrar o evento esteve o grupo Intervenção e Resgate Animal (IRA). É normal ter uma vintena de manifestantes à porta de cada corrida de touros do Campo Pequeno. Os manifestantes insultam as pessoas e dizem impropérios de gente inculta. Desta vez, além desse coro habitual, havia palavras de ordem contra um homem que se crê ter maltratado os seus cães. E eu digo “que se crê” porque num Estado de Direito é-se presumível inocente até que o tribunal diga o contrário, e, a bem da verdade, o grande problema, que origina esta polémica, é que o cavaleiro – como figura pública que é – nunca apresentou qualquer tipo de comentário (a retratar-se ou a justificar-se ou a esclarecer) o que de facto aconteceu para ter os seus cães no estado lamenta em que foram encontrados. A falta de cuidado de relações públicas desta figura pública prejudicam não só o seu bom nome como a Tauromaquia. Do alto de uma carreira de mais de 40 anos com alternativa, em que marcou a história tauromáquica nacional e internacional, João Moura deixa uma mácula. Independentemente do resultado do julgamento, até porque a opinião pública já o condenou. A mácula do ponto de vista tauromáquico existe apenas e só porque, numa fase tão difícil que se atravessa com a força anti-taurina do Presente, se homenageia uma pessoa que não esclareceu notoriamente a razão que o levou a ter cães tão magros. Contudo, mesmo com a ferida que se abriu, as gentes da Festa Brava estiveram em peso no Campo Pequeno- já tínhamos saudades de ver uma praça cheia. E além da tal forte moldura humana, aplaudiram solidariamente o homenageado, e sei bem que mais do que a maioria dos presentes criticam a situação dos cães e dói-lhes tanto como àqueles que estão lá fora a gritar insultos e impropérios. Mas sabem o valor taurino de Moura e ao sabermos isso homenageamos isso, passando por cima das suas falhas humanas. Que aguardamos sejam explicadas um dia destes, pois mais vale tarde do que nunca. Mas as consequências de uma manifestação do calibre desta estão ainda por conhecer, sobretudo a um mês das eleições autárquicas e com todos os aproveitamentos políticos que se podem fazer. Só que dentro da arena lisboeta, como em todas as arenas, o que está em jogo é a luta artística que se representa entre o civilizado e o selvagem. O reflexo desta dialéctica é que os civilizados sabem esperar para perceber, enquanto reconhecem o valor numa área específica. Os selvagens querem aproveitar o erro da falta de comentários e a rebeldia de fazer a homenagem. Homenagem essa que se traduziu numa bela noite de touros… o cartel foi composto pelo próprio João Moura e os seus dois filhos cavaleiros, João e Miguel. As pegas estiveram a cargo dos grupos de Santarém e Montemor, com um curro de Veiga Teixeira que se prestou às lides, excepção feita ao penúltimo que era o chamado ‘coirão’. Moura pai deu três voltas à arena e saiu pela porta grande em ombros e as voltas foram verdadeiramente voltas, sugeridas e autorizadas pela direção de corrida. João Moura filho esteve bem, mas guardou as suas mourinas para o último que lidou e que foi o pior touro da noite. Enquanto o seu irmão Miguel aproveitou ao máximo os seus dois colaborastes oponentes. Todos deixaram a marca de uma dinastia que mantém viva a tradição marialva ao seu mais belo e alto nível. Património cultural vivo e imaterial de extrema importância para o legado histórico português e que os três cavaleiros captaram e demonstram nesta nocturna do Campo Pequeno. As pegas também foram das melhores que já passaram na arena lisboeta esta temporada: Santarém levou à cara António Taurino (primeiro intento), Salvador Ribeiro de Almeida (primeira tentativa), Francisco Graciosa (terceira tentativa). Por Montemor foram à cara João da Câmara (primeiro intento), Francisco Borge (primeira tentativa), Francisco Bissaya Barreto (segundo intento). E a questão que fica por responder era se a arte se apaga ou destrói se o seu autor cometer alguma imoralidade? Ou pior ainda, se for suspeito de a ter cometido. Para mim não. A arte não pertence ao autor, por isso é arte. É a sua dádiva a quem dela pode desfrutar e todas as praças de touros são museus desta arte e neste caso o autor é Moura.
Silvia Del Quema Vinhas
