Sabendo da vaidade do rei, um alfaiate decidiu enriquecer, enganando-o com um tecido invisível que disse ser o mais precioso de mundo. Os ministros e o rei, não querendo parecer ignorantes de tais qualidades foram no logro e fizeram-no desfilar nu pelas ruas, aos olhos incrédulos do povo que assistia a tão impróprio desfile.
Estou quase certa que o pasmo com que assisti ao espectáculo de Tito Semedo e do seu staff acompanhou todos os demais espectadores, ali na praça ou pela televisão.
Tito Semedo recusou lidar o toiro que lhe coube em sorte, que não era malvisto nem cego (assim o assegurou o veterinário João Infante) mas um manso, certamente difícil – que não daria lugar ao espectáculo de confettis que estava mais do que preparado. Antevendo a frustração dos seus intentos, nem tentou cravar o primeiro ferro, fazendo aproximações ao toiro em silêncio e em círculos para tentar demonstrar uma invalidez que o toiro não tinha.
Desobedeceu e ameaçou a direcção da corrida e passou uma imagem tão pouco dignificante, que dificilmente se apagará…
Face à postura irredutível do cavaleiro, a direcção de corrida teve de mandar recolher o exemplar aos curros. Seguindo a ordem de lide conforme anunciada, ficou nas mãos de Ricardo Pereira (acompanhado da estagiária Raquel Dias) construir uma barreira de força ou usar da sensatez para não fazer o que realmente era merecido …
Ora, frente ao sobrero já o cavaleiro andou a gosto. É verdade que andou correcto e alegre e que foi até uma lide com alguns bons apontamentos, mas não foi com certeza a melhor. O troféu entregue sob uma chuvada de assobios, ter-lhe-á sabido bem? Ter-se-á, suponho, sentido como vaidoso rei ao ouvir os apupos do povo: “O rei vai nu! O rei vai nu!”…!
Antes de Tito Semedo, tinha Rouxinol lidado um toiro que não sendo extraordinário, colaborou. Uma lide redonda e correcta, a entusiasmar o público e que terminou com um par de bandarilhas que causou ruído na bancada, mas que acabou por quase se diluir com as peripécias seguintes.
Se o toiro em que Tito Semedo “fez a fita” era distraído, o de Sónia Matias era exactamente igual. Grande lição deu a cavaleira, que nem ponderou não estar por cima das dificuldades! Cravou o primeiro ferro e o toiro abriu para permitir uma lide que acima de tudo primou pela dignidade – comprovou mais uma vez esta noite o grande momento da sua carreia e a posição segura em que se encontra no escalafon.
Ana Baptista lidou outro manso da ganadaria de Fernando Santos. Embora não tão complicado como o anterior, era reservado e a cavaleira não permitiu que a cavaleira efectivamente rompesse. Terminou com nota baixa depois de cinco passagens em falso num último ferro já depois do primeiro aviso, que podia ter evitado.
Moura Caetano apresentou uma lide singular, breve e de grande donaire. Dois compridos e três curtos, aliados a uma brega de apontamento – saiu com o conclave expectante pelo mais que podia vir daquele toureio absorvente e singular.
Mateus Prieto andou bem nesta noite. Não que os seus ferros tivessem primado pela ortodoxia, pelo classicismo ou puro toureio. Não foi isso que aconteceu mas a lide de Prieto teve o condão de levar a bancada entretida e de estar por cima do que era difícil com uma leveza cuja falta se estava a fazer sentir esta noite. Encontrou dificuldades no exemplar e resolveu com algum adorno, deixou o público com ele e saiu com grande ambiente de Albufeira.
Dos forcados em praça e das pegas que se concretizaram, foi vencedor Joel Zambujeira dos Amadores de Cascais, que na última da noite, consuma uma grande pega à córnea, mandando no toiro e aguentando a viagem com decisão.Este grupo pegou também o quarto da noite por Ventura Doroteia que consumou uma pega muito complicada com o toiro muito reservado a derrotar quase parado, bem ajudado pelo grupo.
Pelos Amadores do Ribatejo, mais antigos em praça pegou Sérgio Carmo ao primeiro intento, depois de um cite bonito, recuando correctamente com o grupo a fechar no tempo certo. A segunda pega deste grupo foi consumada à terceira tentativa por Mário Gonçalves que, frente a um exemplar que humilhava muito recebeu com os joelhos nos dois primeiros intentos para se corrigir e pegar correctamente à terceira.
Pelos Amadores de Arronches pegou Filipe Redondo à primeira tentativa, com as ajudas longe, o toiro entra com pata mas franco, consumando bem à córnea com o grupo a corresponder. Ricardo Martins não conseguiu concretizar a pega nas três tentativas em que foi cara e foi substituído por Manuel Cardoso, que consumou a pega apesar do derrote alto.
Sara Teles
