Tinha uma crónica a atirar para o fofinho, pronta a sair, mas não fui capaz. Aconteceram coisas graves demais para que conseguisse passar ao lado das mesmas.
E não querendo ser dramática, nem apologista de desgraças, coisa que não sou, e muito menos, mais uma a lamentar o sucedido, não consigo não falar destes assuntos.
Logo eu, que adoro um bom milagre…
Azeviche é uma gema orgânica, carvão compacto, que arde e produz um fumo intenso, e altamente associado ao luto. Penso que por estes últimos tempos, todos temos o coração de azeviche.
Começando pela tragédia recente de incêndios, que não consigo perceber como acontece em pleno séc. XXI, e que por certo terá mais que um culpado, e que sim, terão que ser punidos e não deixados impunes. Longe de mim crucificar alguém, não o faço nunca sem ter certezas absolutas do que aconteceu, muito menos neste assunto o qual não domino, mas é mesmo preciso identificar culpados. Parece óbvio e fácil, não é? Não, não é.
Ainda assim, os responsáveis por este cenário Dantesco, somos nós. Do abandono do rural à euforia pelo litoral e o deslumbre pela capital, um desinteresse crónico, uma preguiça endémica pela prevenção e pela fiscalização, o cuidar do bem comum. Somos muito bons e generosos, unimo-nos como ninguém na solidariedade pós- desgraça, na celebração de uma vitória qualquer, mas nunca nos preparamos para a eminência da catástrofe. E aqui entra o mesmo Modus Operandi que nos vai na alma, o do “empurrar os problemas com a barriga”, aplicado ao Mundo Taurino.
Fatidicamente, no mesmo dia, Ivan Fandiño é colhido mortalmente… Outra tragédia…
Todos lamentamos, mas o pior ainda estaria por vir. Como se não bastasse o luto comum a todos, eis que saltam á ribalta, mais uma vez, comentários a torto e a direito, ofensivos por parte de criaturas que não interessam nada. Mais uma vez, e não tinha bastado a novela deplorável que foi aquando do falecimento de Victor Barrio, esta repete-se outra vez..
E estas “coisas” que escrevem, e lá está, mais uma vez, o poder da escrita e opinião pública, ferramentas tão úteis para uns e tão perigosamente destrutíveis para energúmenos, terminam impunes! E cada vez mais ganham protagonismo. E infelizmente, como nos incêndios, nada vejo a ser feito.
A crescente falta de respeito é gritante, por tudo, seja pela Natureza, seja pelas pessoas!
Valham-nos as homenagens a estes Homens maiores que nós…
Veja-se o caso de Canales Rivera agredido há coisa de um mês, por uns anti-taurinos num restaurante. A sério? A sério…
Num mundo e em tempos que tanto se fala de igualdades, de direitos disto e daquilo, e alguns concordo plenamente, outros provocam-me azias intermináveis, onde ficou a educação e o respeito pelos outros? Sou eu que sou muito antiquada, e não sei onde ficou a tolerância?
Não sei o que se poderá fazer, mas por agora, parecemos quase como crianças, eternamente despreocupadas, ingénuas, constantemente a adiar lutas e preocupações.
Cada um de nós tem de começar por querer aprender, trabalhar, defender causas comuns, tradições e acima de tudo, respeitar os outros. E temos que ser sempre melhores, mas precisamos de o querer ser. Era tão bom se nos uníssemos mais, sem ser para falar de Futebol, do Festival do Canção ou do Facebook.
Mas não perdi a esperança por completo! Tive a sorte de poder estar nas Sanjoaninas na Terceira, onde as pessoas ainda se unem para um bem comum, organizam-se sublimemente para que todos possam desfrutar das suas festas, e que a tradição perdure. Haja fé ainda!
E se um ano de crescimento da Natureza pode desaparecer em 10 dias e a sua recuperação levar séculos, que se poderá dizer da Tauromaquia?
Nada mais apropriado que as Sevillanas dos Amigos de Gines, quando temos a alma de color azabache:
“Algo se muere en alma, quando un amigo se va…”

