Não sabem ao certo qual terá sido a sua primeira corrida mas sabem que o grupo nasceu em 1964. Os Amadores do Montijo nasceram há cinquenta anos. Este fim-de-semana foi o da sua comemoração. Na sexta-feira inauguraram uma belíssima exposição onde contam uma história de glória, de tragédia e de amizade que vale a pena conhecer. No sábado, eram sessenta e seis forcados fardados, em praça, actuais e antigas glórias do grupo que ouviu tocar os parabéns na Monumental Celestino Graça em Montijo.
O grupo é sui generis. Não pode dizer-se que seja um grupo de primeira linha. No entanto, mesmo sem ocupar esse lugar, têm a virtude de se manter coesos e de por ali estarem e passarem grandes homens e grandes forcados, cujos nomes são conhecidos de toda a afición. Não estranha por isso, ver tantas jaquetas distintas entre a encarnada montijense. Ricardo Almeida, viu o toiro sair com ganas e fechou com tal determinação que os derrotes, que pareciam impossíveis de aguentar, não o impediram de consumar a pega. Ricardo Parracho ficou com um piton entre as pernas mas a garra para lá ficar e a boa primeira deram boa pega. Manuel Carlos pegou o Passanha à segunda tentativa, já que à primeira o novilho tirou a cara. João Damásio concretizou uma pega vistosa já que o toiro armou derrote alto, fazendo-o passar da barbela à córnea. Ricardo Figueiredo recuou muito e consumou em técnica perfeita – foi-lhe atribuído o troféu de melhor pega. Isidoro Cirne, não esteve perfeito na reunião mas a determinação e “os braços” fizeram com que fechasse a noite com a última das seis pegas dos Rio Frio ao primeiríssimo intento.
Além dos forcados, também o ganadero teve uma noite feliz. Saiu um curro de Rio Frio bem apresentado e cheio de interesse. Com variadas pintas e trapio, os toiros, homogéneos de peso, foram díspares em comportamento. E, das diferenças, veio o consenso nas bancadas. É que o curro difícil agradou ao “aficionado aficionado” e aos aficionados mais populares.
Mas se o curro agradou ao público, estamos certos que não terá agradado assim tanto aos cavaleiros. Para estes toiros era preciso ir sempre fazendo contas de cabeça e ter jogo forte para lhes dar a volta.
Luís Rouxinol abriu a corrida com uma boa e bem construída lide. Com um toiro que veio crescendo e que levava a cara “às nuvens” empregando-se no momento do ferro, o cavaleiro recriou-se na brega e cravou bons ferros de tércio a tércio.
Na segunda parte tocou-lhe um exemplar muito difícil. Um toiro que se empregava a espaços e que metia a cara alta na reunião mas muito reservado e a tapar-se para os ferros. Falhou dois curtos e o público assobiou-o mas puxou dos galões para resolver e fechar em bom plano.
Depois era Gilberto Filipe. Toureiro de grande cartel na praça do Montijo, teve o público com ele desde o primeiro momento. A primeira, foi uma grande lide frente a um toiro que andou sempre a medir. Parado, sempre a esperar, o oponente precisava de terrenos de verdade. Optou pelas sortes ao piton contrário e esteve bastante por cima. O seu segundo toiro desembolou-se pouco antes de sair e trocou a ordem, acabando por sair em sexto. O oponente, entrou na arena como bala e causou impacto nas bancadas. De início arrancava-se de largo e com génio. Talvez devido à embolação pouco antes de sair ao ruedo, o encastado quebrou a meio da lide e o ginete teve o mérito de se adaptar muito bem aos distintos comportamentos do toiro. Se de início lhe deu vantagens, para o fim pisou terrenos e impôs-se. Fechou com noite redonda.
Manuel Lupi foi esperar o terceiro da noite à porta dos curros. O toiro saiu com pata a perseguir a montada e o ginete esteve brilhante a conduzi-lo. “Apontou mas não disparou” e veio a menos, ao contrário da lide que veio sempre em plano ascendente. Na segunda metade, o cavaleiro exibiu temple e segurança, desenhando as reuniões com um compasso soberbo. O toiro era reservado e faltava na reunião mas os ferros bem medidos sobraram em qualidade.
Mara Pimenta toureou a meio da corrida. Lidou um Passanha nobre e com mobilidade que a deixou recriar-se e exibir o seu sítio e o da sua quadra. Fez tudo muito bem feito, ferros en su sitio executados com ortodoxia e muita comunicação com o público – o que lhe valeu sair da monumental do Montijo com grande cartel.
Sara Teles
