Pessoalmente, não acreditava se me dissessem que celebrar o décimo ano da reabertura do Campo Pequeno não levaria os aficionados à primeira praça do País. O facto é que não foram e devia estar pouco mais de meia casa.
Creio que há uma certa amnésia sobre a travessia do deserto que foi a ausência de espectáculo de touros em Lisboa. Foi um período que levou – entre algumas outras coisas, mas mesmo assim como principal contribuinte – para a manifestação que está sempre à porta do Campo Pequeno.
Foi a deseducação pela falta do hábito de sentir a tradição no centro da cidade. Quando nos habituamos a uma presença deixamos de dar por ela e isso é meio caminho andado para a aceitarmos, porque passa a ser “normal”. Os aficionados, ao faltarem a uma corrida com este cartel, num dia em que o único rival do touros era Bruce Springsteen no Rock in Rio, numa altura em que a crise já não tem as costas tão largas, é porque também eles se habituaram e consideram as corridas de touros em Lisboa um dado adquirido, e eu temo que assim não seja…
Os touros de Vinhas triunfaram numa nocturna de bom nível de toureio, mas dura para os Cabos dos forcados, quer de Santarém quer de Lisboa, respectivamente Diogo Sepúlveda e Pedro Maria Gomes, que pegaram os dois primeiros da noite, ambos apenas à quarta tentativa.
As restantes pegas foram à primeira e couberam a Lourenço Fibeiro, por Santarém, Manuel gouveia, por Lisboa, João Brito, do grupo ribatejano, e Pedro Gil, pelos forcados da capital.
Há uns anos, os cavaleiros desta nocturna despoletavam acesos debates, de fãs divididos entre os gostos de diferentes linhas da arte Tauromáquica. João Moura, António Ribeiro Telles, representam duas grandes linhas da arte Marialva e Rui Fernandes enquadra-se naquilo que encaro como uma linha mista. Isto torna um cartel muito completo. E as lides do décimo Aniversário da reabertura do Campo Pequeno traduziram-se precisamente em bons retratos da maestria de cada um deles, sendo eu suspeita, senti mais o toureio da Torrinha, mas encantada com a habilidade de Monforte, sobretudo no segundo toiro, o melhor do bom lote de Vinhas.
Rui Fernandes ganhou a praça no último touro da noite.
No entanto, a noite de touros ficou marcada pelas cadeiras vazias, na nota negativa, e na nota positiva pelo curro de Vinhas, que deram volta ao ganadero!
Sílvia Del Quema
