A catita freguesia de S. Cristóvão engalanou-se para comemorar as bodas de prata, que assinalam a realização da corrida de toiros anual, por ocasião das festas do seu Padroeiro. E assim foi, numa noite amena e empoeirada que na presença do impulsionador desta festa, o Sr. José António Branquinho Vacas, assistimos à XXV corrida de toiros na entusiasta freguesia de S. Cristóvão, sob direcção do Exmo. Sr. Agostinho Borges.
O cartel era apelativo e o público respondeu preenchendo ¾ da desmontável que acolheu, Luís Rouxinol, Ana Batista, Filipe Gonçalves e os GFA de Montemor que em solitário pegaram um curro Palha.
Luís Rouxinol iniciou a lidar um toiro preto, quatrenho, cornialto de 470kg que fez uma entrada vibrante, de resto como os seus irmão de camada. O cavaleiro esteve bem a receber e a aguentar a perseguição teimada do oponente, para depois o fixar nos médios e cravar um série de três compridos com saber. Num registo habitual, o cavaleiro da casaca bordeaux e ouro troca de montada para a ferragem curta e entra a colocar um primeiro ferro vistoso precedido de uma bonita brega. Os quatro ferros que completaram esta lide foram sem dúvida agradáveis instantes de toureio em que Luís Rouxinol procurou desenhar em sorte frontal momentos de reunião notáveis, para cravar com acerto três curtos e um palmo.
A lidar o segundo da noite esteve a cavaleira Ana Batista, que chama à praça todo o grupo de forcados e dedica a sua lide num dolente brinde aos briosos rapazes da jaqueta. Tocou-lhe mais um preto, a pesar 460kg bem rematado e com o nº nove na espádua, que se mostrou distraído mas tirava arrancadas com perseguições de aperto, o que a cavaleira de Salvaterra soube entender bem. Colocou dois bons ferros compridos, ainda que desde logo a manejar para puxar o toiro dos tércios. Inicia a ferragem curta com nova montada, e com um excelente ferro a aguentar a investida do segundo Palha. A sequência dos quatro ferros seguintes, é de mérito para a cavaleira de Salvaterra, Ana Batista trabalha na brega para colocar bem o toiro, citando de largo e perante um investida veloz abre o quarteio um tanto mais que a conta, mas o momento da reunião concretiza-se e culmina numa cravagem correcta.
Filipe Gonçalves, o algarvio está num momento de triunfo e promete continuar. Saiu-lhe em sorte outro preto, corniabierto, com 470kg que perseguiu… e perseguiu fixado na linha da garupa, mas Filipe suportou-lhe o galope acabando por fixá-lo. Montado no Dali, cravou dois compridos de valor. Passa a outra ferragem e a outra montada, é no Universo que cita de largo com a alma na voz e crava o primeiro curto sem falhas após um quiebro pronunciado. Segue uma lide alegre, com admiráveis ladeios e bregas esmeradas para colocar o toiro nos médios, ainda que ante uma investida irregular deixa dois curtos após obedientes quiebros do Universo. Troca de novo a montada, e trás calor às bancadas com o Xique, o cavalo em que aposta para alguns adornos, mas que não teme a cara ao toiro e proporcionou a colocação de dois curtos bem executados, sendo o último em sorte de violino. A fechar a sua primeira lide, Filipe tentou uma última sorte com o toiro a vir a menos e a descair para tábuas, o que terá causado alguma dificuldade em arrancar investida, ainda assim, em sorte frontal crava um ferro de boa nota.
Ao intervalo o Sr. José António Branquinho Vacas chama à praça os principais intervenientes no espectáculo e resolve agraciar todos eles com uma lembrança em comemoração das bodas de prata desta corrida promovida há 25 anos pela primeira vez, e pela sua pessoa.
O segundo lote de Luís Rouxinol, deu mostras da sua adversidade desde inicio. Saiu à praça um preto de 450kg a surpreender os bandarilheiros e a rumar pela esquerda, perdido, distraído e desinteressado. Desde logo o cavaleiro de Pegões, suou para sacar investida, ainda assim a experiência fala mais alto e Luís crava uma série de três compridos tendo o oponente reagido apenas ao terceiro ferro. No compasso de espera em que o cavaleiro troca de montada, foi perceptível a intenção do toiro a galopar à capa do Josué. Luís Rouxinol entendeu-o e mostrou como se tira toiro de um manso, falou-lhe com determinação e mostrou a maestria das suas montadas conseguindo dar algum encanto a uma lide que estaria condenada à partida. Crava três curtos com maior destaque para o terceiro e troca de novo a montada, entra para cravar o quarto com o toiro fixado nos médios executando um quarteio bem desenhado. A fechar, atendeu aos pedidos para colocar o par que surtiu o efeito desejado.
Pior sorte teve Ana Batista, com um quinto que era suposto não ser mau. Ante um preto, corniabierto, a pesar 465kg a cavaleira deixou dois compridos regulares precedidos de perseguição bem galopada. Ana passa à ferragem curta sem trocar de montada e diante de um toiro com investiga áspera e com a cara por alto, deixa o primeiro curto algo descaído. Acaba por ajustar a montada, mas a sorte não chegou, daí por diante assistimos a um conjunto de curtos mal cravados ou a não ficar, o que revelou alguma precipitação e hesitação da cavaleira, que insistiu em deixar um sexto ferro sem grande acolhimento do público. Com a dignidade que a caracteriza, Ana Batista optou por não sair ao ruedo na volta de agracedecimento.
A fechar esta nocturna, esteve de novo o vigor de Filipe Gonçalves que brinda a sua lide ao rapazes do forcado. Recebe montado no Dali um toiro preto de murrilho pronunciado, corniabierto, de 460kg e deixa três cumpridos sendo o segundo e terceiro em sortes à tira bem calculadas pelo cavaleiro da jaqueta preta e prata (“Escolhida para este dia em homenagem à grande figura do toureio que foi Gustavo Zenkl e em comemoração do aniversário do seu filho e meu amigo Francisco Zenkl”, segundo referiu o cavaleiro). Filipe, entra nos curtos com a Chanel e começa da melhor forma com o primeiro em su sítio, recebe música ao segundo curto que iniciado numa sorte frontal ficou igualmente bem, aliás como o terceiro. Ao quarto ferro o cavaleiro oferece ao toiro a primazia da investida e crava com rigor, rematando com airosas piruetas. Termina a sua actuação com mais duas ferragens, das quais realçamos a derradeira a citar de largo e a deixar um palmo.
A forcadagem, os de Montemor, apetece abraçá-los… a estes e a todos os que se propõem a esta tão grande arte.
A pegar o primeiro esteve João da Câmara, que brindou aos céus para de seguida citar cuidadoso recebendo um toiro lançado na investida, que entrou pelo grupo mas valente de braços o forcado aguentou até o grupo se recompor e concluir.
Para o segundo foi João Mª Braga, determinado com um cite sonante, recuou bem e aguentou na reunião o embate da “locomotiva”. Viajou na cara até ao grupo e consumou-se a segunda pega, concluída com o brilhantismo do rabejador Francisco Godinho.
A fechar a primeira parte, pegou Tiago Carvalho, conseguiu fixá-lo à voz, o mais dificil foi arrancar a investida a um toiro recolhido a raspar em tábuas. Eis, que num repente o toiro arranca-se colhe o forcado que se fecha bem à cara, e embora veloz não derrotou levando o Tiago ao encontro do grupo.
Para o quarto da noite foi Francisco Bissaia Barreto, à segunda tentativa pegou mais um toiro que vinha com pata, mas que o forcado soube receber no momento da reunião permitindo em conjunto com os companheiros consumar.
Noel Cardoso foi para a cara do quinto da noite, esteve correcto, citou bem, templou, mandou, recuou e sem lhe perder a cara reuniu fechando-se à barbela e aguentando alguns derrotes até o grupo se fechar.
A fava calhou a António Calça e Pina. Em plena arrancada de um bonito temple, esta sorte de pegar foi lamentavelmente interrompida pela estridente música do recinto da feira, deixando de surtir qualquer efeito, citar, templar ou mandar….mas é que temos! Ainda assim, e com mérito o forcado consuma à terceira tentativa, fechado à córnea uma pega bem ajudada.
(Fotografias de Arquivo)
Ana Paula Delgadinho
