Quem não recorda a primeira vez que atravessou a ponte sobre o Tejo e a surpresa ao ver os carrinhos e casinhas muito pequenos lá em baixo, como se fossem de brincar? Dei por mim a pensar nisto entre o nada que se foi passando durante a corrida de Santarém. Atendeu-me a ideia enquanto olhava para o pouco público tolhido de frio, que manchava as bancadas dos sectores à minha frente.
A praça de Santarém tem isto. É difícil proporcionar sem erro o êxito ou fracasso da bilheteira. A casa estava fraca e o ambiente igual mas proporcionalmente o número de bilhetes vendidos não soaria tão mal em tantos outros tauródromos menos monumentais. Se calhar foi mesmo o frio e os espaços vazios das bancadas que fizeram parecer maior a arena e menor o trapío dos toiros. Não lhes faltava peso, nem nenhum exemplar apresentado foi caso para indignação, mas foi um concurso nivelado por baixo. Esperava-se mais: pelo menos mais trapio; Mais imponência. Um toiro imponente pode ter maior ou menor bravura, mas um toiro bravo que não tem trapío, tem prejudicada a sua maior virtude.
Foi um concurso oco dessa invulgaridade que faz dos concursos um festival para os olhos!
Filipe Gonçalves por sorte e mérito, sagrou-se triunfador da corrida de 10 de Junho e confirmou o êxito. Abriu praça frente a um dos melhores toiros da noite. Com 500kg, o Paulino da Cunha e Silva ficava-se sempre naturalmente pelos médios, donde saía voluntarioso para humilhar nas reuniões. Só lhe faltou um pedacinho de casta para que os adornos do ginete chegassem à bancada com mais entusiasmo. O cinqueño cumpriu e foi sem dúvida um dos mais interessantes da noite. Em quarto pela ordem de antiguidade saiu o Infante da Câmara que havia de ver premiada a bravura. Bonito, fino, de morrilho farto e em tipo de investir, foi o toiro que mais transmitiu e que melhor matéria-prima constituiu para a lide a cavalo. O cavaleiro optou as sortes ao piton contrário, ora acometendo ora recebendo em quiebro e o toiro, franco, a todas acudiu, emprestando emoção; galhardo também nos remates. A boa escolha dos terrenos e a nobreza e transmissão do toiro aliaram-se e funcionou num bom conjunto.
Nem uma nem outra divisa do lote de João Moura Caetano permitiam ao ginete trazer o seu invulgar e impressivo toureio à capital ribatejana. O primeiro da Casa Prudêncio saiu com pata mas já antes do primeiro ferro procurava uma saída nas tábuas. O primeiro comprido, foi, de facto, soberbo, mas dali, pouco ou nada havia a fazer do exemplar, que só não se fechou por completo em tábuas porque o ginete o impediu de se desligar. Na segunda metade da corrida o quadro foi ainda pior. O bonito Manuel Veiga, vencedor do prémio apresentação, basto e reunido de carnes, saiu tímido e foi abrindo enraçado mas os defeitos de visão impediram ao toiro e ao cavaleiro de se ligarem. De longe, foi o de pior comportamento e permitiu apenas a cravagem da ordem.
Para Marcos Bastinhas saiu primeiro o reservado Branco Núncio. Algo “probón” o toiro só investia quando lhe pisavam a jurisdição e sempre que o ginete lhe dava mais praça acabava por frenar na reunião. Em alguns momentos teve graça ao rematar as sortes e, de facto, o cavaleiro fez dele o que pôde, numa lide correcta a resolver e até a aproveitar os arreões de manso que a espaços surgiam, conseguindo assim chegar ao conclave. Fechou a corrida por fim, frente ao Vasconcellos e Souza de Andrade. Evidente nos compridos que cravou de poder-a-poder, continuou em boa senda, com ferros a dois tempos, dos quais o terceiro e quinto resultaram bem. Com codícia a perseguir as montadas acabava por não acometer até ao fim. Cumpriu e permitiu ao cavaleiro adornar-se e completar uma lide redonda.
Normalmente, mesmo quando pouco se passa nas lides, vêm os forcados trazer emoção. Nesta corrida nem as dificuldades das pegas trouxeram grande emoção. Os Amadores de Santarém pegaram em solitário. Abriu praça João Góis que tinha o toiro com ele quando lhe carregou a sorte, vendo-o ensarilhar a investida esteve bem a mandar e obrigar o toiro a humilhar na reunião. Fechou-se bem à córnea e corresponderam as terceiras com boa ajuda, numa das melhores pegas da noite. Henrique Ferreira provou os vícios que o manso apreendeu da lide. À primeira por melhor que o da cara se tivesse dobrado para receber, saiu com o impacto da reunião à meia altura. À segunda o toiro meteu o piton direito por diante e não houve reunião, o que se repetiu na terceira tentativa já com a ajuda carregada. À quarta não deixou de ser uma pega rija, consumaram de comboio com o toiro a empenhar-se por fugir ao grupo. Também ao quarto intento pegou António Imaginário que teve dificuldade em contornar a aspereza da entrada do toiro que não humilhava para armar derrote. Boa pega consumou João Vaz Freire que mandou e recuou muito na cara do toiro que lhe imprimiu um derrote por alto. Bem fechado à córnea, consumou uma pega vistosa a que as segundas corresponderam com eficácia. João Brito não conseguiu pegar à primeira que, quase de estaca, recebeu o toiro com o piton direito por diante.
À segunda foi uma pega rija e muita alma do forcado para aguentar o momento em que o toiro frenou o galope e ensarilhou. Fechou à córnea e o grupo correspondeu a amparar coeso a viagem por alto e muita pata do exemplar. Hugo Santana não carregou a sorte e embora tenha consentido quando o toiro se arrancou não vinha com o forcado. À segunda citou com a mesma serenidade e fechou de pernas e braços “como uma lapa” aguentando o derrote alto e violento bem reunido à córnea.
Sara Teles
