Entrevista: Duarte Pinto
Julho 2013
Quinta da Bela Vista
Cada vez mais a imprensa taurina aponta os holofotes a este jovem cavaleiro, de quem se fala. Duarte cresceu num mundo onde o gosto pelos cavalos era uma tradição familiar, conhece-se o interesse do seu pai por este sofisticado animal. A preocupação de bem-fazer, de consolidar e recriar o trabalho do ensinamento e da doma tem permitido a este herdeiro de Emídio Pinto, crescer em praça e ter parte activa na gestão da coudelaria com o mesmo nome.
O Duarte tem enraizada a tradição tauromáquico na família, mas há mais antes da tauromaquia, como foi chegar do stick às bandarilhas?
Infelizmente vou falar de alguém que não cheguei a conhecer, que é o meu avô, faleceu um ano antes do meu nascimento.
Pelo que ouço das histórias dos meus familiares foi o meu avô conhecido hoquista e campeão do mundo, que para além do hóquei revelou uma grande paixão por cavalos. O meu avô teve um filho, o meu pai, que por sua vez partilhava desse gosto, assim como também gostava muito de toiros. Tudo isto foi uma sequência natural, não houve qualquer tipo de influência. Perante este gosto do meu pai a única coisa que o meu avô pode fazer, foi possibilitar a entrada neste mundo dos cavalos através de alguns conhecimentos que tinha com mestres equitadores e é este envolvimento que acaba por levar o meu pai ao mundo dos toiros.
Ou seja, o meu avô era uma pessoa que em nada se relacionava com esta área, mas viu no filho este gosto e tentou encaminhá-lo para que o meu pai seguisse e avaliasse se era efectivamente o que queria para si.
Claro que ir parar a casa de mestres como o D. José de Ataíde, o Sr. Alfredo Conde e o Sr. Manuel Conde deu ao meu pai uma amplitude, um ensinamento e pelos vistos um gosto que durou para a vida e que entretanto foi passando para mim.
O meu avô apesar de perceber que não tinha nos filhos uma continuidade da sua carreira no hóquei, entendeu que havia um grande gosto pelos cavalos e foi uma ajuda preciosa para o meu pai nesse sentido.
Os sticks surgem como ferro porque o meu avô quando percebeu que o meu pai tinha tanto gosto pelos cavalos, era tão trabalhador e intenso naquilo que fazia, que quis ele próprio criar uma coudelaria, e terá iniciado com a compra de algumas éguas para montar a base. Foi nessa altura, que lhe pareceu engraçado colocar os sticks no ferro, o que para além de uma ideia gira faz uma ligação entre tudo o que o meu avô representou e a ajuda que deu com a criação da coudelaria.
Julgo que como qualquer outro pai tentou ajudar, não procurou contrariar a vontade do meu pai mas sim proporcionar que seguisse na vida o que tanto gostava e no meu entender penso que o desenvolvimento que as coisas foram tendo lhe terá dado muito orgulho, ao meu avô e à minha avó quando assistiam às corridas. Falava-se inclusive, que o meu avô era o único pai de um cavaleiro que nunca queria ir para a trincheira, porque ele não queria estar directamente envolvido, não era um assunto que entendesse. Sempre tentou ajudar, ao nível económico e de estruturas, mas acompanhar não, tinha a humildade de reconhecer que daquilo não sabia.
Emídio Pinto é um nome reconhecido por todos, e que na opinião de muitos tem vindo a fazer uma retirada discreta e precoce. Como é olhar para a carreira do seu pai?
Não tive oportunidade de o acompanhar nas alturas muito fortes da sua carreira. Pelos testemunhos que conheço entre 77/78 até 83/84, o meu pai esteve num patamar de referência que coincidiu quase com o meu nascimento. Tendo em conta que estas foram as épocas áureas, daí para cá já fui acompanhando e talvez sem manter aquele nível muito alto o meu pai teve uma postura que gostei muito de ver e retive para mim, ele deixou de toirear precocemente por uma questão de saúde. Ao segundo enfarte na casa dos cinquenta, há que rever prioridades e alguém que geneticamente tem predisposição para ter problemas cardíacos viu-se assim impedido de continuar.
Há no entanto um factor positivo, é que exactamente no ano em que o meu pai deixa de tourear, no ano seguinte eu comecei a tourear. Penso que esta coincidência lhe deu uma ajuda, senão vamos ver, um cavaleiro que se vê privado de tourear, mais ainda quando o público o vê com condições de continuar e ele se vê forçado a não o fazer, ao ver um filho dar os primeiros passos nesta carreira penso que terá sido bom para ele e bom para mim.
O meu pai nunca quis fazer uma retirada e penso que nunca o fará, esteve presente em alguns festivais um pouco até por brincadeira e esteve presente na minha alternativa em 2009, onde toureou cumprindo muito bem para grande orgulho meu.
Entretanto posso revelar que o meu pai já deixou as arenas em 2002, estamos para lá de 10 anos, mas mantém o mesmo espírito de quem está no activo, continua a trabalhar inclusive monta a cavalo todos os dias. Fá-lo por gosto e isso mantém nele a mesma chama, a mesma intensidade de treino que sempre o caracterizou.
Porto Salvo e a sua comedida Festa do Cavalo, serão sem dúvida um marco. Como foi de lá até aqui?
Sim, sem dúvida em 2002 e 2004. É uma pergunta bastante interessante, porque foi em Porto Salvo que me estreei como amador em 2002, foi em Porto Salvo que tirei a minha prova de praticante em 2004 e realmente até hoje tem sido um percurso do qual muito me orgulho. Mas tem sido duro, difícil, porque o meio é difícil, porque as condições são difíceis, trazer um nome de trás “Emídio Pinto” tem algumas vantagens mas também tem as suas desvantagens, nomeadamente a pressão.
Muito por transmissão do meu pai, tenho procurado conquistar cada passo, há quem por vezes surja de rompante na Festa, mas eu sou humilde para reconhecer que não tive esse arranque louco e espontâneo, lentamente fui subindo os meus degraus. Lembro-me que tive dois anos como amador, cinco anos como praticante com grande preocupação em cimentar bem as condições antes de tirar a alternativa. O meu pai sempre me aconselhou nesse sentido, não ter pressas de tirar a alternativa só para dizer que o tinha feito, e referiu: “No dia em que lá chegares as pessoas vão cobrar, vão cair-te em cima e se não tiveres condições para te manter, acabas num instante!” Ele tinha razão, reconheço que se tivesse feito as coisas muito antes, provavelmente não teria tido capacidade para aguentar, lembro-me que os meus dois anos de amador e os cinco de praticante deram-me experiência, consistência e maturidade para poder chegar à alternativa, o que hoje me faz sentir mais toureiro.
Prestes a comemorar 30 anos, no próximo dia 20 de Setembro, como julga que é apreciado pela sua geração?
Eu penso que com os devidos defeitos e muitos que tenho, vejo pelas opiniões e principalmente pelas amizades que mantenho que as pessoas até nem desgostam de mim. Não sou propriamente uma pessoa de grandes conversas, mas penso que sou puro, sou natural e sou muito amigo do meu amigo. Portanto, vejo pelos testemunhos, de algumas pessoas do meio, mas principalmente de pessoas que me acompanham desde o tempo em que eu não era nada, até agora que sou qualquer coisinha, que em mim nada mudou. Se neles nada mudou, penso que eu em nada mudei e só isso é muito bom. De qualquer forma é uma resposta que só eles poderão dar.
Revele-nos algo que gostaria de ver concretizado em 2013?
Gostava do ponto de vista profissional conseguir melhorar, cimentar conceitos, atrair mais as pessoas, não estou a dizer que não o faça, mas sou exigente, nunca estou satisfeito e tenho a humildade de querer melhorar cada vez mais. Quero adquirir mais ensinamentos, o que não passa por ter mais ou menos cavalos, passa sim por chegar às praças e o público sentir firmeza e identidade. O meu pai sempre me disse: “Duarte, aprende com todos mas tem a tua identidade!”
Quero muito que as pessoas reconheçam uma identidade própria, marcante de uma aprendizagem actual. Quero mesmo muito isso, melhorar, melhorar para chegar até aí.
Do ponto de vista pessoal, sou alguém que caminha para os trinta anos e que procura ter uma vida estável sem pensar muito nos dias que hão-de vir, mas a pensar no dia actual. Tentar viver uma vida que não está fácil, cimentando, ganhando estabilidade, lutando para isso todos os dias.
Como se compõem a quadra que tem preparada para esta temporada? Quais são as estrelas dessa quadra?
A minha quadra de cavalos para esta temporada, felizmente é muito boa, nunca tive uma quadra de cavalos tão boa. Já lá vão dez ou onze anos, pois vão, mas a vontade de melhorar passou exactamente por aí e talvez por isso nunca tenha tido uma quadra de cavalos tão boa como tenho agora. Olho para a minha quadra e vejo que tenho dois cavalos mais veteranos, como é o caso da égua Princesa e o meu outro cavalo de saída o Dilário, são cavalos que se mantêm quase desde altura de amador/praticante. Depois tenho uma nova vanguarda de cavalos que são os cavalos principais, o Visconde ferro Ortigão Costa que é um exemplar que marca a diferença, o Baltazar de seis anos também da coudelaria Ortigão Costa que é um cavalo que este ano está bastante firme nos curtos, tenho o Vigo da casa da quinta da Lagoalva um cavalo guerreiro com muito boas qualidades, e tenho ainda outro cavalo com seis anos potente que vou conseguir pôr nas bandarilhas, tem muita identidade e personalidade. Todos estes são cavalos com qualidade que me permitem abordar os toiros todos e dos quais gosto imenso, mas a referência é o Visconde, um cavalo que muito me tem ensinado e muito me tem dado.
Tenho ainda mais dois ou três cavalos novos para lançar, que estou a planear lançá-los ainda este ano entre as 15 ou 20 corridas que faltam. Tenho muita esperança neles, principalmente num com o ferro da sociedade das Silveiras, no qual vejo a possibilidade de marca a diferença, que julgo ser o que faz falta.
Que cuidados especiais tem com os seus cavalos?
Os cuidados que tenho no dia-a-dia, aprendi com o meu empregado que está cá em casa há 40 anos, “Animais são animais, mas devem ser tratados como pessoas.”
Aqui em casa não há luxo, mas trato-os a eles como a mim. Há que dar condições aos cavalos ao nível da comodidade, alimentação, espaço, locais de treino, tudo o que eles necessitam, são atletas de alta competição.
À parte disso, uma preocupação que eu tenho e que já vem do meu pai é a doma e o ensino, que são fundamentais. No toureio ainda mais fundamental se tornam, não chega que o cavalo tenha habilidade, o cavalo tem é que estar bem ensinado e bem-posto a tourear. Eu sempre tive essa preocupação com todos os cavalos, aliás como me foi transmitido pelo meu pai e outros toureiros da sua geração, que me diziam:” Duarte, a base é o ensino e a doma do cavalo, e no dia em que conseguires mesmo em cavalos diferentes aplicar o ensino e a doma, vais ver que os cavalos dão para todos os toiros.” Eles tinham razão! Eu noto isso, cavalos com uma extrema habilidade se não estão no sítio, não servem para nada e cavalos bem ensinados e com uma boa doma fazem tudo nos toiros. Mais uma vez os antigos tinham razão.
É classificado pela crítica como um cavaleiro em franca ascensão, isso reflecte-se no nº de corridas previstas para 2013?
Sim, penso que sim. Apesar de, e como nós sabemos, nem sempre o número de corridas ser sinónimo da qualidade das corridas, e muitas vezes neste meio com as características próprias que tem, também nem sempre são as pessoas que melhor toureiam que mais se destacam.
No entanto, tenho sentido esse crescendo e o mais importante é que por parte das empresas nota-se um interesse natural pela nossa prestação. Melhor ainda, é sentir depois em praça que o público nos identifica, nos acarinha, e que também tem características que desgosta, que são severos e rigorosos.
Sentir tudo isso é bom, sentir que as empresas estão a responder e o público também.
Já tivemos oportunidade de o ver este ano na mãe das praças de toiros, o Campo Pequeno. Toureou à altura das figuras e na volta de agradecimentos perguntava às bancadas: “Foi bom?” É uma prova reveladora da preocupação de bem-fazer. Depois da corrida leva trabalho para casa?
É como digo, independentemente de estar num bom momento ou não eu quero melhorar, e a minha prestação de serviço é para o público que está na praça, como tal duma forma meio a brincar (mas que para mim não é) gosto de saber se ficaram satisfeitos, se gostaram, se há coisas a melhorar…. porque é o público que manda na Festa. Por vezes já numa fase mais relaxada, é bom perceber o que é que foi bom, o que há para melhorar, gosto de perceber se a identidade que eu defendo chega às pessoas que me estão a ver.
O toiro é sem dúvida o enigma que se revela em cada lide. Qual o tipo de toiro que mais lhe apraz lidar?
Penso que tanto eu como a maioria dos colegas gosta de lidar o toiro que tem qualidade, que tem bravura. Um toiro com estas características é um toiro que desde o início ao fim da lide, mostra sempre vontade de investir e que investe bem. Não adianta ter um toiro a investir que nem um louco, quando a investida é toda má.
Agora o que a mim me atrai, não só a assistir como a tourear, é que a par da qualidade e da investida, a lide transmita perigo e emoção, não gosto de olhar para a bancada e ver as pessoas sem qualquer sentimento de perigo e emoção. O toiro com raça, com investida, a vir pelo seu caminho e a transmitir emoção é que dá chama à Festa. Pode ter a certeza, e como dizem os ganaderos antigos, no dia em que a Festa perder o perigo e a emoção, a tauromaquia vai passar a ser um espectáculo só para passar o tempo.
Concorda que as ganadarias portuguesas estão a reagir bem à difícil conjuntura económico-social que vivemos actualmente?
No caso das ganadarias, os custos que um toiro tem desde que nasce até aos quatro anos e depois o valor que dão por ele em praça, para o ganadero é muito complicado. Também é preciso ver que há tantas ganadarias, talvez uma filtragem permitisse dar mais oportunidades aos que ficavam e quem sabe dar mais qualidade à Festa, mas não é fácil. Manter muitas ganadarias e dar um grande número de corridas, não me parece a solução porque as pessoas não vão a todas as corridas.
Eu próprio sinto isso, e vejo pelas minhas despesas apesar de ter uma grande ajuda do meu pai para que tudo isto se mantenha. Tenho custos fixos, altos, e actualmente as receitas são elevadas e variadas, portanto a estabilidade é pouca para ganaderos, para toureiros, para empresários, para todos.
As famílias não vão aos toiros, ou se calhar gostavam de ir a vinte corridas e vão a cinco, isso na componente empresarial reflecte-se directamente.
Ficar parados de braço cruzados não resolve, mas mais uma vez é o público quem manda, porque os ganaderos vão movimentar-se de uma maneira diferente, os toureiros de outra e os empresários de outra se o público responder.
Existe alguma ganadaria que lhe mereça maior destaque, à qual daria uma nota especial?
Há várias, há várias ganadarias de qualidade em Portugal. Ter uma ganadaria é difícil, não é fácil criar é preciso muita selecção, muito conhecimento e sorte também. Mas digo-lhe que há ganadarias portuguesas com muita qualidade e diferentes entre si, a Pinto Barreiros, a Murteira Grave, a Passanha, e outras. Dr. Joaquim Grave e Passanha são duas ganadarias distintas de comportamento mas ambas boas. A Passanha talvez mais cómoda, adequada a outro tipo de toureio, mas boa porque é regular e vêm-se toiros que normalmente têm uma identidade, têm personalidade. A do Dr. Joaquim Grave é igualmente boa. Se me perguntar qual prefiro, digo-lhe que para uma corrida de perigo e emoção preferia a Grave, noutro contexto talvez preferisse a Passanha. Já vi corridas do Dr. Joaquim Grave excepcionais, com perigo e a pôr a “carne no assador”, com muita qualidade. A Pinto Barreiros também é belíssima, os toiros Vinhas e outros que de momento não me ocorrem. Outra ganadaria que considero de qualidade é a do Paulo Caetano, enquanto cavaleiro ele próprio selecciona para o toureio a cavalo, tem toiros muito regulares.
Se lhe pedir que recorde a lide que lhe causou maior emoção, qual seria?
Por vezes não é a qualidade da lide que cria um marco, mas os dias em que sucedem e o dia da minha alternativa foi sem dúvida especial e marcante em tudo. Até escrevi uma coisa gira no meu site sobre minha alternativa pelo facto de ter sido um dia de emoções. Foi uma lide que me marcou muito, talvez não tenha sido a melhor, mas marcou pela conjuntura. Se me falar em duas lides que tive o ano passado em Santarém e uns dias depois no Campo Pequeno, que tiveram um impacto brutal na afición, reconheço que foram marcantes, mas há outras que têm pormenores e caprichos engraçados.
Partilhe connosco algumas datas inesquecíveis da sua carreira e os troféus mais marcantes.
O dia da minha alternativa foi inesquecível, a primeira corrida que fiz no Campo Pequeno desde a reabertura na qual ganhei o troféu, também não deixou de ser marcante. Outros troféus que tenho ganho em praças importantes como Santarém, Azambuja, e várias outras naturalmente que também marcam.
O ano passado na feira da agricultura de Santarém participei numa corrida em competição com duas grandes figuras do toureio, o que foi também importante para mim. Também o ano passado no Campo Pequeno em duas corridas, a primeira em que vinha de Santarém e dei continuidade a uma boa lida, e a segunda uma corrida de gala em que entre dificuldades que tive com cavalos que se magoaram, acabou por correr bem e também foi marcante por isso.
Tenho outras boas lides e outras boas recordações como o ano passado em que fui tourear à feira da Idanha, numa localidade muito típica, com uma população e uma praça muito típicas fora da conjuntura deste meio, tive (com a devida modéstia) duas grandes actuações que tecnicamente se tivessem ocorrido noutras praças teriam uma repercussão que não tiveram na Idanha, mas no meu cunho pessoal tiveram tanta importância como em qualquer outra praça.
Tem ambição de tourear além fronteiras?
Eu gosto muito de fazer uma época relativamente completa, preenchida e nada me dá mais gosto no defeso que montar os meus cavalos, investir no seu ensinamento, e na sua doma. Apesar de no Inverno as condições não serem por vezes agradáveis, o frio e a chuva, nada me dá mais prazer que montar e ensinar cavalos novos. Mas em vez disso, podia apostar em sair…quem é que não gostava de fazer uma campanha no México, como faz um rejoneador como Pablo por exemplo. Agora, isso exige uma estrutura de dimensão e de complexidade muito grande e que só está ao nível de um profissional como o Pablo se tem mostrado.
Se me perguntar, se gostava de tourear em Espanha, quem é que não gostava de tourear numa feira de Sevilha, ou de Madrid? Eu identifico-me muito mais com o toureio à Portuguesa, mas quem é que não gostava de ir tourear a Espanha?
O que eu vejo, pelos últimos anos de conjuntura, é que para fazer uma campanha espanhola, para além de poder prejudicar a portuguesa, não tem qualquer compensação económica.
Portanto, o pouco dinheiro que vou ganhando aqui (desculpe, a sinceridade) vou despende-lo a tourear nuns pueblos em Espanha para conseguir chegar a uma feira importante de Espanha?!… Isso a mim pessoalmente não me atrai.
Como é que um Toureiro a cavalo avalia o Toureio a pé? Há uma rivalidade ou não se tocam?
Na minha opinião, parece-me que se rivalizam, mas rivalizam no bom sentido. Tocar, tocam-se, têm uma base comum que é o toiro e tanto o toureio a cavalo como o toureio a pé têm N semelhanças e identificam-se.
Gosto de ver toureio a pé, sejam toureiros portugueses ou espanhóis e tenho muita pena que em Portugal o toureio a pé não tenha chama, mas a verdade é que não tem. Em Espanha tem outra dimensão, outra afición e eu sou um aficionado desse toureio a pé.
Como disse vejo semelhanças, no tipo de toques, no mandar no toiro…agora o toureio a pé tem é outra dimensão em Espanha, outro carisma que em Portugal, temos que ser sinceros, não se sente.
Trabalha como Técnico na área de Economia de Produção, e como cavaleiro tauromáquico. Como gere o seu tempo entre estas duas carreiras?
Com muito custo e muito suor, mas tudo se consegue na vida. Aprendi isto dos cavalos quando tinha dez anos e desde logo os meus pais me disseram: “ Se gostas disto dos cavalos e dos toiros, tens que organizar muito bem a tua vida porque isto não é fácil.”
Eu tirei o meu curso, sou um profissional digno e dou 200% porque desde sempre senti a necessidade de ter a minha vida organizada do outro lado, que não o do profissional de toureio.
Tive a oportunidade de tirar um curso de que gosto, trabalhar na área de que gosto e ter a possibilidade de trabalhar numa casa fantástica que como a Agrogeste onde me deram condições de ser a 200% profissional do toureio.
Eu consegui conciliar tudo isso, saio de casa às 07.00h da manhã e chego por volta das 09.00h da noite, é duro mas só assim consigo trabalhar na empresa e nos cavalos. Se são duas coisas que gosto tanto de fazer, o que há melhor na vida?
Não sou só eu, não sou especial, qualquer pessoa o consegue fazer assim haja força de vontade.
Qual a sua ligação à Coudelaria Herdeiros de Emídio Pinto?
É uma ligação que sempre foi muito chegada por adorar os cavalos e por ter uma éguada, onde vejo os cavalos nascerem e serem criados, e perspectivo algumas ilusões que nem sempre se concretizam, bom… mas isto cativa-me. A únicas intervenções minhas vão no sentido de sugerir ao meu pai, que escolha um cavalo ou outro para umas ou outras éguas, monto os filhos e vou ajudando assim.
Foi uma paixão que apanhei muito do meu pai, e ainda fui ensinando alguns cavalos com o nosso ferro, toureei alguns e vi o meu pai tourear alguns também.
Mais uma vez constato que com o nosso trabalho e a paixão pela coudelaria as coisas vão funcionando, não há maior orgulho que ter a recompensa de ver cavalos que nasceram cá chegarem à praça para tourear, ou ainda ter outros ficam aqui de velhos a cobrir as éguadas.
É difícil explicar, é uma grande satisfação própria e da organização e gestão de toda a coudelaria.
Actualmente a coudelaria está mais reduzida, porque reduzimos o efectivo de éguas, mas quer o meu pai quer os irmãos têm a sua intervenção, mais o meu pai com a minha ajuda e de outros mais novos, porque até nisso o meu avô foi muito peculiar e não formou a coudelaria em seu nome mas sim em nome de Herdeiros de Emídio Pinto, portanto a coudelaria é do meu pai, da minha tia e do meu tio.
Um toureiro é um homem de superstições e de crenças. Tem algum ritual antes de iniciar as suas lides?
Eu sou sincero, não consigo identificar uma superstição nem na tauromaquia, nem na minha vida.
Não tenho assim uma crença, não tenho por hábito rezar, não uso amarelo mas por uma questão de gosto, embora saiba que há costumes que já vêm dos mais velhos como não deixar o chapéu em cima da cama, o que por acaso até uma coisa que tenho o cuidado de não fazer mas talvez mais por respeito a quem me ensinou isso mesmo, o meu pai era peremptório nisso, o chapéu nunca podia estar em cima da cama.
Sinto algum nervosismo é evidentemente, mas gosto de ser muito natural e nunca senti a necessidade de criar esse suporte psicológico para me sentir melhor, ou protegido.
Noto mais nas pessoas que estão à minha volta a suas próprias superstições, como uma Senhora lá de casa que está com a nossa família há muitos anos, que não deixa de pôr a sua oração no bolso da casaca, o que acaba por me acompanhar e que eu respeito, mas não é uma superstição minha.
Quem é Duarte Soares Rebelo Paes Pinto?
Sou uma pessoa do mais natural e mais puro que há em tudo o que isso implica. Embora esta postura nem sempre seja boa, pode trazer alguns dissabores, mas na minha opinião há que ser natural e puro em tudo na vida, ser frontal e directo na vertente pessoal, na vertente profissional.
Outra característica minha é a determinação, desde miúdo sempre fui assim, aquilo a que me dedico é a 200%, sejam relações familiares, pessoais ou profissionais, de entrega, de amizade, ou de colaboração, é ser-se tudo para quem tudo nos dá.
Grande parte do que sou, aprendi com os mais velhos, ser puro, natural e honesto.
Sou uma pessoa que gosta da vida, gosta do que faz e gosta de sofrer por aquilo que faz, para depois obter a satisfação pessoal e profissional.
Ana Paula Delgadinho
