A divisa de Victorino Martin, no seu peculiar encaste Saltillo-Albaserrada e a divisa de Vale do Sorraia, na ímpar casta portuguesa tiveram o papel principal na corrida desta sexta-feira em Coruche. Com todos os holofotes apontados para si, as duas divisas “puseram e dispuseram” ao longo de uma noite cheia de interesse.
Na primeira parte lidaram-se os espanhóis. Toiros salgados de capa, de escassa presença por morfologia mas de olhar vivo. Que maravilha foi apreciá-los a repetir com chama e fiereza nos capotes. Que pena foi vê-los a ignorar as montadas e a negar-se a dar o jogo encastado que prometiam com as saídas enraçadas dos curros.
Joaquim Bastinhas formou um conjunto francamente mau com o de Victorino Martin. Se o toiro, de patas “coladas” no solo se recusava a investir para as montadas, as mais do que excessivas passagens em falso e os ferros caídos no chão não lhe ficaram por cima.
O segundo da noite também não se adequou muito à lide a cavalo. António Telles fez o possível. Abriu rapidamente a função e andou sempre ligado, aproveitou o que o oponente tinha para oferecer. Este segundo, embora reservado, não consentia que o cavaleiro lhe invadisse os terrenos e daí que tenha extraído alguma emoção.
Luís Rouxinol lidou o mais reservado de saída e o que, dentro de um comportamento feio mas peculiar, mais colaborante se mostrou. Foi uma boa actuação, interpretando o oponente da melhor forma.
A casta portuguesa que a divisa de Vale do Sorraia ofereceu na segunda parte da corrida, teve muito melhor nota para o que ao toureio equestre interessa. De bonito tipo, salgados de capa, rematados e bonita cara. Aplaudidos de saída e aplaudidos na recolha, pelo seu comportamento – casta e bravura, tão raras e tão recompensadoras para o bom aficionado.
Joaquim Bastinhas abriu a segunda parte com aquele que, a nosso ver, foi o toiro da noite. O bravo arrancava-se de largo, voluntarioso, franco e sério. Impunha-se nas reuniões emotivas. Foi de estalo o primeiro comprido, porque não pareceu haver saída possível. A lide foi sempre em bom tom, pese embora os ferros que caíram. O toiro trouxe verdade – uma refrescante verdade! Olé!
Rogério Jóia, que dirigia a corrida, há-de ter tido ele próprio um semelhante sentimento. Quando o segundo de Vale do Sorraia foi recolhido, não exibiu o lenço azul – antes o agitou a bom ver, para que o ganadero fosse à volta. Assim foi. António Telles garantiu uma lide redonda frente a um bravo com que formou um harmonioso e emotivo conjunto. Numa lide redonda, foi belíssimo o quarto curto, cite bem medido, quarteio desenhado e aquela reunião de mão de alto abaixo com o toiro a rematar armando um derrote alto.
Nesta segunda parte Luís Rouxinol teve menos sorte. O exemplar, mais fechado de cara, transmitia menos, não só por isso, como também por se tapar no momento do ferro embora investisse encastado. Também mais distraído, este de Vale do Sorraia deu lugar a bons apontamentos mas desgarrados, como foram o quarto da ordem dos curtos e um último par, que levantou a praça.
Nas pegas nem os de Victorino Martin nem os de Vale do Sorraia apontaram dificuldades de maior. Os dois grupos ribatejanos corresponderam ao compromisso.
Os «implacáveis» de Vila Franca de Xira selaram as três pegas ao primeiro intento. António Faria contornou com eficácia a complicada reunião humilhada e viagem por baixo. O toiro foi pelo seu caminho e a ajuda foi determinante. Pedro Castelo com uma notável primeira ajuda consumou em boa técnica, frente a um oponente que entrou com pata mas sem complicar. Ricardo Castelo escolheu para si o mais complicado. O toiro saiu intempestivo mas sempre cara alta e a medir. O forcado foi exemplar nos cinco tempos e consumou uma pega sobrada de técnica.
Dos Amadores de Coruche foi primeiro Paulo Oliveira. Único da formação ribatejana a consumar ao segundo intento. À primeira, não foi perfeito na reunião, ficando com um piton entre as pernas e saiu no derrote de cima abaixo. Não concedeu à segunda, bem fechado à córnea com eficaz ajuda. José Marques consumou bonita pega, recebeu o toiro quase de estaca para se fechar, acoplado de braços e pernas com eficácia. Miguel Raposo fechou a noite com uma pega mais eficaz do que bonita com o toiro a frenar na reunião, metendo a cara no chão.
Sara Teles
