João Pedro Bolota , alcochetano, 49 anos.
Trabalhou nas salinas mas é nos Forcados Amadores de Alcochete que alcança a sua glória. Foram 33 anos vividos com a forcadagem.
Hoje é um reconhecido empresário no meio tauromáquico. A “Aplaudir” a empresa que gere é concessionária das praças de toiros de Santarém, Montijo, Beja, Nazaré e Azambuja.
Vai continuar a apoiar os Caetanos?
Exactamente, continuo a apoiar os Caetanos. Ou antes, como “apoderado” que é mais bem dito.
Pensa em apoderar mais algum toureiro na próxima temporada?
Não.
Além das praças de toiros que já tem, vai concorrer a mais algumas? Vila Franca de Xira, Évora, Reguengos…?
Irei concorrer a alguma com certeza mas…o nome do santo não vem agora à baila”
E a praça de toiros de Alcochete, que é a sua terra?
O Nené (António Manuel Cardoso) tem Alcochete por mais 3 anos, e penso que está bem entregue.
A praça de Santarém estava para ser demolida, mas você conseguiu dar a volta à situação, organizando corridas que tiveram a casa cheia. Alguma vez pensou no risco?
Não, não pensei. Tinha tudo calculado quando concorri à praça de Santarém e sabia que iria dar seguimento ao trabalho de um grande senhor, que foi o Dr. Moita Flores – o de ter aplicado na época bilhetes desde 5 euros. Eu só teria que dar seguimento a esse trabalho conforme fiz nas outras praças. O meu principal desafio como empresário é ter gente na praça. O espectáculo tem muito mais a ganhar.
Sabemos que a aficion em Portugal está em dificuldade e o facto de os bilhetes serem mais baratos permite aos pais levarem os filhos e assim criar mais aficionados. É este o meu lema: tentar sempre criar novos aficionados.
A Jornada Taurina que aconteceu nos passados dias 23 e 24 de Outubro em Santarém foi um sucesso.
Acha que este acontecimento poderá vir a tornar-se numa data de referência do calendário taurino?
Não. Essa jornada taurina que foi criada pelos peticionários e encabeçada pelo Dr. Moita Flores, aconteceu por causa da petição que foi feita para se tentar chegar às 100.000 assinaturas de apoiantes da Festa Brava.
Qual o toureiro que já quis contratar para uma corrida e que ainda não conseguiu?
O matador de toiros, o número um do mundo, José Tomás.
E qual foi o seu toureiro de eleição este ano?
Este ano, dos nossos, portugueses, foi o João Salgueiro.
E no toureio a pé?
Procuna
Como referência que é no meio dos forcados, gostava que o seu filho seguisse as suas passadas?
Se ele tiver jeito, coragem e vontade, com certeza que gostaria. Mas nunca iria pressioná-lo a isso.
A empresa Aplaudir organiza poucas corridas mistas. Não se revê neste formato de espectáculo ou é apenas por questões financeiras?
Não. Eu sou também amante do toureio a pé. Sou amante dos toiros toureados de toda a maneira e feitio mas não tenho praças para fazer o
toureio a pé. Há praças com mística para o toureio a pé, como é o caso da Moita, de Vila Franca, do Campo Pequeno, entre outras.
Nem o Montijo nem Santarém são praças com mística para o toureio a pé, embora este ano tivesse acontecido e até correu bem. Mas a verdade é que não são praças com mística para isso e o toureio a pé em Portugal não tem muitos aficionados porque há falta de verdade, há falta da morte do touro e os portugueses que gostam de toureio a pé preferem ir para Espanha do que ver as corridas aqui em Portugal.
Por exemplo, no caso do Campo Pequeno em grande parte das corridas desta época estiveram sempre cheias e com o toureio a pé estiveram a meia praça. Isso é um exemplo vivo.
Faz parte da APET. Como vê o papel desta associação empresarial na defesa e promoção da Festa Brava?
A APET é ainda uma criança e pouca coisa se fez em prol disso, mas penso que tem condições para ser um defensor e agir quando for preciso.
Que importância dá ao papel das novas tecnologias, nomeadamente a internet, na divulgação da Festa Brava?
Tem a sua importância. A internet é usada por centenas de milhares de pessoas e tem a sua importância. É uma mais valia na divulgação dos toiros em Portugal.
Acha que os toiros espanhóis marcam a sua diferença nas nossas festas?
Não. Acho que os espanhóis têm boas ganadarias tal como os portugueses têm. Por exemplo, este ano comprei alguns curros espanhóis no início da temporada, porque as praças que este ano estou a gerir, Santarém e Montijo são arenas grandes e têm que ter toiros grandes. No início da época, em Março e Abril ainda não havia curro nenhum em condições e tive que ir a Espanha buscar dois curros de primeira ordem.
Voltando aqui a Alcochete e às suas gentes, o povo espera que um dia você venha a esta praça. Acha que irá acontecer?
Não penso nisso. Como disse à pouco e mantenho, o actual empresário, o António Manuel Cardoso, não tem desiludido naquilo que tem feito. Tem 30 anos de experiência e é um dos grandes empresários em Portugal. Por isso penso que a praça está bem entregue.
Falando um pouco do seu pai. O que te transmitiu como homem, como forcado e como pai?
O meu pai viveu sempre numa aflição muito grande enquanto fui forcado e dizia-me sempre “tem cuidado…não ajudes de frente, ajuda de lado…tu consegues”. Ele adorava que eu fosse forcado e tinha orgulho em ver-me fardado dentro da praça, mas vivia sempre na aflição que me acontecesse alguma coisa…porque eu sei, não tenho dúvidas de que fui sempre um forcado sem limites, nunca conheci o meu limite como forcado. Mesmo que ele me dissesse para “não ajudar de frente, para ajudar de lado” eu tinha que fazer conforme pudesse, conforme
o toiro desse.
Sendo o seu pai um dos fundadores dos dois grupos de forcados de Alcochete, nunca chegou a ser homenageado pelo Barrete Verde. Nem ele, em outros que foram fundadores.
Qual é a sua visão sobre isto?
É evidente que é triste não terem sido homenageados. As casas mantêm-se, as pessoas passam e na altura quando a direcção do Barrete Verde começou com as homenagens aos forcados, não tiveram os princípios que deviam ter, e homenagear cada um no seu lugar. Lá foram homenageando quem bem entenderam e quando quiseram homenagear os outros forcados que tinham saído do Barrete Verde para os Amadores de Alcochete, eles já tinham sido passados por muitos outros que eram muito mais novos. Portanto, como não foram homenageados no lugar deles, acharam que já não era altura para o serem. E bem que o fizeram e bem que eu aceito que o tivessem feito. Quem esteve mal foi a direcção do Barrete Verde daquela altura pois excluíram forcados fundadores do Barrete Verde. Compreendo a reacção deles quando os convidaram e eles não quiseram.
Viu muitos amigos seus terem acidentes, alguns faleceram na praça, manteve sempre a sua linhagem. O que espera dos Amadores de Alcochete?
Que se mantenham e que continuem os passos que foram dados pelos forcados anteriores. Que mantenham o grupo ao nível que está e tenham entrega total dentro da praça. Que respeitem todos os outros que lá passaram e que estão nas bancadas com orgulho a ver a sua entrega e dedicação em defesa das ramagens de Alcochete.
por Augusto Silva
