«Núncio, como Gallito, Belmonte e Manolete, são os pilares em que assenta o toureio de hoje».
As palavras do ilustre comandante José Henriques escutaram-se ao intervalo, quando, na Arena d’Évora, se prestou homenagem ao Maestro João Branco Núncio, neste ano que assinala os cem anos do seu nascimento.
A corrida foi giríssima! Juntou-se a bonita voz de Francisco Sobral à «festa» da recolha de cada toiro pelos campinos a cavalo. Não têm faltado iniciativas entre os empresários para juntar a música e outras expressões artísticas à festa dos toiros. Raras vezes porém, as coisas resultam como resultaram em Évora, que viveu a noite de sexta-feira com um bom ritmo e ao bom sabor português!
Foi uma pena o contraste da beleza do espectáculo com a escassez de toureio. A homenagem ao maior de todos os tempos, Califa de Alcácer, foi vincada pelo desacerto de quase todos.
“Quase todos” – leia-se, porque Francisco Núncio (pai) esteve realmente soberbo! Nos compridos, as sortes à tira resultaram algo aliviadas, talvez tenha pecado também na medida dos terrenos a abrir quarteio no quarto e último curto. No entretanto, lidou com uma classe e sítio difíceis de encontrar sem verdadeira intuição. De frente e ao estribo, cravou os ferros todos «en su sítio» e deu cartas na brega e nos terrenos que escolheu. O toiro da ganadaria João Branco Núncio (como os demais que se lidaram esta noite), sério e nobre, tinha bom tranco e emprestou o brilho necessário às reuniões. «A Núncio, o que é de Núncio» – esta foi, de facto a sua noite!
Da restante corrida pouca inspiração e arte se viu.
Começou a noite com o mais velho dos jovens amadores de apelido Núncio.
Francisco Núncio (filho) lidou um novilho com muita qualidade, que se arrancava com facilidade a corresponder aos cites. Apresentou-se a abrir a noite em boa maneira. Lidou com ortodoxia e executou as sortes de frente e com acerto de mão, numa prestação muito regular.
Seguiu-se o mais jovem, também amador António Núncio que, sem sorte, não conseguiu selar uma prestação coerente. É certo que o novilho que lhe tocou não se prestava a facilidades. Reservado e a tapar-se, o oponente exigia muita escola e muito compromisso na escolha dos terrenos. Tentou e esforçou-se bastante mas não chegou para sair por cima.
O regresso de João Moura depois da queda fez-me pensar na sorte que temos (nesta geração) de ainda poder ver outro dos pilares fundacionais do toureio. Moura, teve por diante um exemplar cooperante, que repetia no capote com classe e se impunha nobre nas reuniões dos ferros. Na brega, levando o toiro pelo estribo, concretizou os melhores apontamentos da sua passagem. Os ferros, com a batida ao piton contrário, foram bem executados entre algumas passagens em falso. Não foi, porém, uma lide redonda.
Depois, António Telles. Com a corrida de Vila Franca e os enlevados elogios ainda muito patentes, o ginete da Torrinha tinha nesta noite uma responsabilidade acrescida. Não é que a “responsabilidade”, com tantas e tantas corridas de monta já lidadas, possa, na verdade, mudar a predisposição do cavaleiro mas certo é que esta noite não lhe correu de feição. Começou em excelente plano, com dois dos três compridos a estalar à vista. Dali, andou desacertado, alguns ferros falhados e passagens em falso. Não escutou música nem deu a volta. Foi uma noite “não”, como há muito não lhe víamos!
Depois de Francisco Núncio, foi Manuel Lupi a lidar o sexto e último da noite. Também andou sem sorte esta noite. Andou desentendido com a montada de saída, chegando mesmo a ser colhido com perigo (felizmente sem consequências). De resto não conseguiu dar a volta ao oponente e acabou por abreviar.
Nas pegas, a noite foi bonita e emotiva.
Abriram praça os anfitriões e mais antigos da jaqueta eborense.
À cara do primeiro novilho foi Gonçalo Rovisco que pegou ao segundo intento. O segundo toiro dos Amadores de Évora, foi por opção do grupo pegado de cernelha por Cláudio Carujo e João Madeira, o que mereceu forte aplauso da bancada. O toiro acabou por não emprestar grande brilho ou emoção à pega e os forcados tiveram que entrar com o toiro atento ao capote mas valeu pela escolha.
A Ricardo Sousa faltou recuar para levar toureado um exemplar que se impunha com uma mangada forte e derrote por alto. À terceira tentativa, com ajuda enorme de Miguel Saturnino, consumou pega vistosa.
Pelos Amadores de Moura Xavier Cortegano, consumou à primeira, tal como Cláudio Pereira (com volta para o primeiro ajuda José Marques). Valter Rico fechou à segunda.
Sara Teles
