Os Amadores de Évora comemoram o seu 50º aniversário. Tinham escolhido a corrida de São Pedro da sua Arena d’Évora como ponto alto das celebrações. Mas a ocasião não podia ser mais triste. A corrida decorreu enquanto era velado o corpo de José Maria Cortes em câmara ardente na igreja de São João de Deus. Mas era ali em Évora que o cabo dos eternos rivais do grupo eborense estaria se não lhe tivesse sido roubada a vida – foi isso que quis dizer António Alfacinha, com lágrimas caindo no rosto, quando entrou para as cortesias, trazendo consigo a jaqueta encarnada de José Maria Cortes. E foi assim que a prematura, inesperada e tão lastimada morte de José Maria Cortes esteve tão presente no pensamento de todos que se pôde sentir como coisa palpável na praça, em cada aplauso demorado e em cada brinde apontando ao céu.
Lidava esta noite um curro de Pinto Barreiros. Embora todos muito em tipo da ganadaria, o curro teve um peso médio de 482kg, invulgarmente abaixo do que nos habituámos nas corridas de hoje. Em geral o curro cumpriu, com quatro toiros de muita qualidade e os demais a dar algum trabalho mas a servir muito bem.
Abriu praça Rui Fernandes que teve por oponente um colorau ojinegro que de toda a parte do redondel saía pronto e pelo seu caminho. O cavaleiro entendeu-o bem e toureou-o de largo reunindo nos médios em sortes ao piton contrário, que, à medida que se foram afinando os terrenos, foram cada vez melhores e mais sonantes, cuidando de dar sempre ao toiro os seus terrenos. Esteve muito bem. Na segunda parte andou menos afinado. Depois de deixar o primeiro comprido descaído surgiram assobios de um sector específico da praça. Talvez mercê do assobio e por ganas de “reparar o erro”, as abordagens seguintes também não foram felizes. Mas ao segundo e terceiro curtos já o ginete tinha organizado os papéis e posto de parte o tal assobio. Deu a volta ao manso encastado listão, que lhe intuía as saídas, se revoltava com temperamento a rematar as sortes, sério e a pedir contas. Certo é que se o toiro humilhava, também impunha uma mangada alta e o cavaleiro extraiu destas condições uma lide de menos a mais que acabou por transmitir, aliada a adornos vários no cite e remate de cada ferro.
Vítor Ribeiro recebeu com bonita brega o colorau albardado que se situou entre os melhores da noite. Embora menos pronto que o bravo exemplar que abriu praça, este segundo cumpriu sem querenças e sem se negar à colocação nos médios onde foi lidado. Humilhava mas também levantava as mãos numa mangada alta no momento da reunião, o que por um lado fazia luzir da sorte e por outro a dificultava. Teve uma lide correcta e a dar vantagens – de frente e ao estribo. Na segunda metade da corrida, a matéria-prima a lidar não era fácil. Reservado e sem grande chama, o toiro só emprestou brilho aos compridos de praça a praça. Dali, os ferros resultaram ortodoxos, cingidos e a dois tempos mas algo menos vibrantes.
A lide do terceiro da noite foi um recital de toureio. João Telles Jr. recebeu o negro listão, com dois compridos de antologia e partiu para os curtos com a tranquilidade de já ter entendido o oponente. O nobre e suave Pinto Barreiros, acudiu a todas as chamadas do ginete e permitiu uma lide que veio sempre a mais tal e qual como o toiro. Emocionou na brega e nas reuniões ao estribo e colheu de Évora mais um triunfo. A fechar a corrida, o cada vez mais promissor ginete da Torrinha, recebeu um daqueles toiros que destapam os toureiros. O exemplar tinha muita qualidade mas era absolutamente necessário entendê-lo. É que saía franco para a montada mas era preciso dar-lhe tempo e aguentar já que arrancava com pata embora depois não desse muito no remate da sorte. Entendeu-o e levou a lide em sentido ascendente, adequada nos suaves quarteios e escalada às características do oponente.
Ao meio da corrida, também Jacobo Botero sagrou triunfo da arena eborense e foi autor do melhor ferro da noite. O castanho ojo de perdiz tinha codícia e talvez demasiada suavidade, mas respondia aos cites com prontidão e preferiu sempre os terrenos de fora, foi sobejamente aproveitado pelo jovem praticante. Uma lide exuberante, muito ligada, marcada por sortes ao piton contrário e muito sítio. Desmontou à porta de quadrilhas e saiu sob grande aplauso da bancada eborense.
As pegas tinham todos os motivos para ser o capítulo mais emotivo da noite e os toiros tinham tudo para lhes dar expressão.
O retirado Pedro Barradas abriu praça com uma pega limpa à córnea consumada à primeira tentativa. Francisco Garcia viu o toiro arrancar-se ainda não tinha chegado aos médios, aguentou, carregou e recuou nos tempos certos para se fechar à córnea e aguentar a mangada alta que quase o descompôs mas que a pronta ajuda garantiu pega à primeira. Manuel Rovisco foi tecnicamente perfeito, à primeira tentativa recuou falando muito ao toiro e fechou à barbela correspondendo a ajuda. Também Gonçalo Pires foi autor de uma peça perfeita. Colocado em sorte e antes de ver o forcado, o toiro desviou o caminho e saiu depois das tábuas com pata para o forcado que em boa hora não desfez a sorte e cumpriu todos os tempos para mandar no toiro e cumprir a pega à primeira. Inesquecível Armando Raimundo, puxou dos galardões para uma grande pega. Encheu a cara ao toiro que saiu com pata e a pedir contas, e, embora tenha reunido cara abaixo teve uma pega dura, a que também valeu uma excelente primeira. Dos actuais pegou Ricardo Casasnovas, único que recusou a volta. Depois de duas recepções deficientes consumou ao terceiro intento, aguentando a viagem por baixo. António Alfacinha fechou a noite com um emotivo brinde aos céus. Deixou o toiro vir de largo e foi mais uma pega de técnica perfeita, aguentando depois a braços os fortes derrotes que o toiro imprimiu quando o sentiu na cara.
Entre antigos e actuais elementos, mais de meia centena de homens envergaram nesta noite a jaqueta eborense e encheram a arena de história(s) de penas e glórias. Terminou a corrida, todos na arena de barrete verde erguido agradecendo um prolongado e emotivo aplauso de reconhecimento.
Sara Teles
