O coliseu figueirense compôs-se a mais de metade. Mais de meia casa, no seu ambiente peculiar, para uma corrida que se prometia interessante.
O público “esteve” toda a tarde com os artistas e era notória a vontade de encontrar motivos… Mas se é verdade que o público “queria”, verdade é também que “não podia”. Para o ambiente que estava, foi uma pena que tenham sido tão raros os momentos a justificar os vibrantes aplausos que o público estava disposto a oferecer.
Excepção feita aos forcados e a quase todas as pegas, a corrida foi nula de emoção.
A culpa da noite cabe exclusivamente aos toiros. Os de Romão Tenório representaram em pleno todos os males do encaste Murube. Mansos perdidos – absolutamente mansos; quase todos encaravam o cavalo com a mesma naturalidade com que convivem com os carraceiros a campo.
Daí que os dois que tocaram em sorteio a João Maria Branco, somados à entrega com que os lidou, o tenham feito absoluto triunfador da tarde. Especialmente com o seu primeiro – um Murube com todas as boas as características preconizadas pelo encaste. O oponente tinha mobilidade, empregava-se a gosto, era pronto, suave e nobre. Por seu turno, o ginete entendeu-o bem e aproveitou-lhe as virtudes para chegar às bancadas. Lidou com acerto, de frente e a dar vantagem chegando às bancadas com o efeito absolutamente vibrante. Na segunda volta não teve igual matéria-prima. Embora o mais pesado da corrida tenha sido o segundo melhor da tarde, era também demasiado distraído para garantir uma lide redonda. Ainda assim a entrega do ginete e a alegria com que o lidou fê-lo selar uma excelente passagem pela Figueira da Foz.
E por “entrega” há que sublinhar João Moura Jr., que deu nesta tarde uma lição de profissionalismo difícil de esquecer. O primeiro que lidou era complicado. O toiro tinha mobilidade mas faltava-lhe compromisso. Andou quase sempre solto e distraído da montada – quando o ginete o levava ladeando, puxava-se pelas mãos, parco de forças. A lide veio de menos a mais. Se nos primeiros ferros aproveitou as investidas soltas para resolver. Do terceiro ao quinto e último, deu vantagem e recebeu ao estribo, logrando efeito de “mola” no público, que se levantou em aplauso. No entanto, foi no seu último – de lide impossível, que se impôs na tal lição de “profissionalismo”. O toiro, absolutamente “cego” ao cavalo, não deu nem a mínima possibilidade ou jogo. Ao invés do encolher dos ombros, fez de tudo para resolver. E assim fez. Usou da cátedra e da tarimba do rejoneio para, nos cânones ou fora deles, cravar e lidar com um íntegro respeito pelo público. Olé!
António Telles não foi bafejado pela sorte no sorteio. O primeiro da tarde foi de embaraçoso comportamento. Andarilho, manso, completamente desencastado, passou o tempo à procura da saída nas tábuas e a ameaçar saltar. O maestro da Torrinha tardou a entender-se e só nos últimos ferros ao sesgo comunicou com a bancada. O quarto foi outro complicado. A trote e a passo, distraído a mirar os tendidos, “deixou-se” mas nunca esteve realmente metido na lide. Ainda assim, o ginete esteve completamente diferente nesta segunda parte: ao sesgo como tinha que ser, ofereceu os seus ímpares modos de maestro e compôs a lide com o seu selo próprio.
Nas pegas a história foi outra. Se os toiros não “viam” os cavalos, aos forcados pareciam ver ampliados. Os de Romão Tenório, com fama de suavidade, foram duros e difíceis!
Pelos Amadores de Santarém foi primeiro António Taurino. O toiro saiu pronto mas a trote e esteve bem o da cara a alegrá-lo para se fechar à córnea aguentando a viagem até tábuas com o grupo fechado. Salvador Ribeiro não mandou no toiro que saiu solto, ficou algo descomposto e acabou por sair. À segunda voltou a não estar perfeito na reunião mas as ajudas não condescenderam e fecharam com eficácia. O último toiro dos escalabitanos estava inteiro. Mandá-lo para a volta era inevitável mas mesmo aqui se esperavam dificuldades. Foram para a cernelha José Miguel Carrilho e Miguel Moura Tavares e a estes não pode negar-se que ao longo do tempo que lhes foi permitido tentar a pega, se esforçaram para a lograr. Por duas vezes quase conseguiram impor-se e concretizar, mas acabaram por não o lograr. Foi Rúben Giovety a consumar à segunda tentativa de caras, aguentando ainda derrotes altos do oponente.
Aos Amadores de Lisboa couberam o mais fácil e os dois mais duros da corrida. Martim Lopes consumou ao primeiro intento um exemplar que não complicou, veio pelo seu caminho fazendo a viagem por baixo. Mandou, recuou e fechou com eficácia à barbela com boa ajuda coesa. Pedro Gil levou a efeito três impressionantes tentativas. À primeira, como um comboio, o toiro entrava para o forcado “para o comer” e na reunião “saltava” para o forcado com a cara a meia altura, atropelando-o sem hipótese. À segunda o toiro desviou caminho passando ao lado do forcado e à terceira esteve ainda dura tentativa de sesgo – mas o toiro tirou o grupo carregado e despejou o forcado que se bateu para lá ficar. O cabo mandou trocar para cernelha e ali, João Mota Ferreira impressionou e levantou as bancadas em ovação com a arrojada e determinada abordagem para concretizar a emotiva cernelha, completada por Miguel Viegas. Por fim, concretizou Manuel Guerreiro. À primeira tentativa o forcado aguentou entrada dura mas faltou ajuda. À segunda, o toiro entrou com um piton no ombro do da cara, sem hipótese. À terceira voltou a não conseguir a melhor reunião e só à quarta de sesgo, conseguir concretizar a dura e difícil.
Sara Teles
