Entrevista: Luís Rouxinol
Março 2013
Pegões
Afamado Cavaleiro parece ficar indiferente ao protagonismo, preferindo valorizar o rigor, e a dignidade da sua toreria. Conversámos com Luís “Rouxinol” e foi precisamente o que encontrámos, um homem de valores que se rende ao trabalho, respeita a sua equipa, estima a sua quadra, e que se empenha para agradar a um público que o persegue de praça em praça.
Luís “Rouxinol” é o nome artístico de Luís Armando Ferreira Vicente, será que é porque sabe cantar?
Não, Luís Rouxinol é apenas uma alcunha. Vem desde o nome do meu avô, esse sim, era apelidado de Rouxinol porque cantava, e segundo dizem cantava muito bem. O meu pai, que chegou a ser Cavaleiro amador, era anunciado como Alfredo Rouxinol por mera questão de descendência, em seguida eu quando me iniciei neste mundo também fui apresentado como Luís Rouxinol e hoje o meu filho também já é Rouxinol. Certamente assim irá continuar de geração em geração.
A ligação familiar ao gosto pelos cavalos foi propícia ao início deste caminho. Fale-nos um pouco deste começo?
Sim, desde miúdo estive habituado a conviver com os cavalos. O meu pai sempre teve cavalos, até mesmo antes de se iniciar como Cavaleiro amador – foi amador porque nunca quis levar a sério a profissão de toureiro, fazia algumas actuações mas apenas para se divertir, foi sempre um grande aficionado – e é assim que começa a minha ligação aos cavalos. Recordo-me que aos meus cinco ou seis anos de idade, o meu pai ofereceu-me uma garrana para eu começar a montar, e foi com essa idade que comecei a participar com ele em pequenos festejos, em que me era dada a possibilidade de participar nas cortesias.
Mais tarde, por volta dos oito anos de idade estreei-me em Paio Pires a tourear uma vaca, nesta fase já notava que cada vez mais se desenvolvia o meu gosto pelos cavalos. Em 1979, fui convidado para tourear uma garraiada, que naquela época eram uns espectáculos com muito interesse quando eram promovidos pelo Liceu Gil Vicente no Campo Pequeno. Tinha eu nove anos e tudo correu da melhor forma, de tal maneira bem que nem nós estávamos à espera. Lembro-me que participaram também o Rui Salvador e o Afonso Correia Lopes.
A partir daí, pouco a pouco fui desenvolvendo. Estive na Torrinha algum tempo para colher mais alguns ensinamentos, estive no picadeiro da Lezíria Grande com o Sr. Luís Valença, o que me levou a pensar tirar a prova de Cavaleiro praticante em 1986. Andei por Espanha, França, mais tarde em 1987 tirei a alternativa em Santarém e apesar de tudo ter corrido muito bem, fui inclusive triunfador e conquistei o troféu para a melhor lide a cavalo, as coisas não foram desde logo fáceis. Nos três ou quatro anos seguintes, foi uma luta de conquista, mesmo a mostrar valor e com os ventos a correr de feição não me eram dadas as oportunidades que eu julgo que merecia. Nessa altura foi difícil! Ainda assim, numa corrida em 1994 em Alcochete, uma corrida Murteira Grave, séria, tive oportunidade de tourear tomando a vez de um colega meu que não quis tourear os toiros Grave e o empresário convidou-me para tourear. As coisas correram bem, muito bem e a partir daí começaram a surgir outras oportunidades e eu fui conseguindo corresponder, julgo que até hoje.
Quando é que sentiu que queria ser Cavaleiro Tauromáquico?
Julgo que terei tido consciência disso na época em que fui para o Luís Valença. Teria talvez nessa altura treze ou catorze anos e pensei, quero ser Cavaleiro, tenho de tirar a alternativa. Lembro-me que o meu pai ficou muito contente, também dada a sua ligação e o gosto pelos cavalos e pela Festa, já a minha mãe não se terá manifestado tanto, mas sempre me apoiaram muito todos, o meu pai, a minha mãe e a minha irmã.
O Luís conta com mais de metade de uma vida dedicada à Tauromaquia. Quando recorda este seu percurso alterava alguma etapa, ou faria tudo exactamente como fez até hoje?
O meu percurso não foi fácil, tudo foi construído à base de muito trabalho, muita força de vontade, com muita humildade, tentando triunfar tanto em praças de maior ou menor importância, se bem que para mim todas elas são importantes.
Tento todos os anos no Inverno preparar cavalos novos para apresentar na temporada seguinte e não mostrar sempre os mesmos cavalos. Graças a Deus, e apesar de já ter tido alguns acidentes com cavalos, tenho conseguido sempre manter o nível da quadra.
Assim à primeira vista, penso que não alterava nada neste percurso, teria que trabalhar com a mesma força e com a mesma ambição com as quais ainda hoje trabalho.
Quando se fala em momentos altos, qual é a primeira imagem que lhe surge?
Sem dúvida o dia da minha alternativa. Tirei a alternativa em Santarém, numa praça com aquela dimensão completamente esgotada, ao lado de três das nossas maiores figuras que eram o João Moura, o Bastinhas e o Salvador, para mim era sonhado. Ainda assim, consegui abster-me de tudo que estava meu redor e mesmo com um nervosismo inconsciente, enchi-me de confiança e tudo correu bem, melhor até do que eu estava à espera. Numa tarde como esta, e eu a sair como triunfador da corrida, pois com certeza foi o dia mais importante da minha carreira, sem dúvida.
É conhecida a sua determinação e espírito de compromisso para com esta arte. Mas teve certamente alicerces que o apoiaram neste caminho, quem?
A minha família, todos eles, os meus pais, a minha esposa e o meu filho agora mais próximo da profissão. Eles têm sido ao longo destes anos a base da minha carreira, sem o apoio deles não seria a mesma coisa. Estão sempre comigo naquilo que é bom e menos bom.
Tive também comigo uma pessoa muito importante, que foi o meu apoderado Mário Freire, que se iniciou como meu apoderado numa fase em que nem tudo corria de feição, mas conseguimos dar a volta, e as corridas apareceram. Recordo-me quando me dizia: “Luís, não há facilidades, as oportunidades não são muitas, tens de aproveitar as oportunidades que aparecem e conseguir agarrá-las! ”… e Graças a Deus consegui, este homem cumpriu a parte dele e eu cumpri a minha. Foi um grande homem que esteve sempre ao lado da minha carreira cerca de vinte dois anos.
O mérito que lhe é reconhecido em inúmeras actuações, tem-lhe valido alguns troféus. Há algum com um sabor especial?
Troféus tenho vários, lembro-me por exemplo de troféus que ganhei em corridas da televisão, que são sem dúvida das corridas mais importantes do nosso panorama taurino. Tenho vários também das corridas da rádio Renascença, que infelizmente foi uma corrida que se extingui mas que era igualmente importante. Depois tenho alguns troféus relativos às temporadas, como os três troféus conquistados nos Galardões de Lisboa, que é a praça mais importante, de maior responsabilidade, onde passam as maiores figuras, tenho que reconhecer que é de facto muito importante para mim esta conquista numa praça como o Campo Pequeno. Principalmente este último, conquistado na corrida de comemoração dos meus 25 anos de alternativa, marca-me sem dúvida.
Quando o cartel tem Luís “Rouxinol”, a alegria e a expectativa de um bom espectáculo levam à praça um público fiel. Se falasse à afición, o que lhe diria?
Como disse anteriormente, enquanto for Cavaleiro quero dar o meu melhor e não distingo a minha actuação seja ela realizada numa desmontável ou no Campo Pequeno, independentemente das praças espero ter o público sempre do meu lado e o que lhes digo é que tentarei sempre que tudo corra bem para os agradar. Por vezes, nem sempre tudo corre como desejamos, mas podem contar com a minha garra, com a minha força para triunfar e com o meu empenho para sair o melhor possível.
Ao longo dos anos, tenho verificado que o meu esforço é reconhecido, sinto muito o público do meu lado e isso vê-se pelo crescimento do nº de corridas de ano para ano. Prova disso é que os empresários me contratam e o público responde, penso que é porque gostam de ver o Luís “Rouxinol”.
No entanto, há momentos que se tornam de certa forma ingratos, por vezes há actuações com toiros complicados em que damos o tudo por tudo para que as coisas corram bem, e por vezes o público não compreende. Acontece algumas situações difíceis em que a nossa entrega é total e o público não interpreta bem, não consegue avaliar e não reage da melhor forma, este tipo de situações acontece com mais frequência quando o toiro não é colaborante.
Dos bonitos exemplares da sua quadra, são estrelas a Viajante, o Ulisses, o Dollar, entre outros. Quais são as novidades para a nova temporada?
Pois esta temporada tenho três ou quatro cavalos novos para sair. Tenho um cavalo irmão do Ulisses, que é o Zacarias. Conto no início da temporada perto do mês de Junho estrear um cavalo que adquiri durante este Inverno, que é o Douro, penso que vai ser um cavalo extraordinário de saída. Tenho o Amoroso, um cavalo que já saiu no final da temporada passada numa corrida ou duas, mas julgo que estará mais preparado para esta temporada. Tinha mais um ou outro cavalo que não têm tido a evolução que eu gostaria, dado que temos toureado poucas vacas derivado ao mau tempo, mas se agora o tempo melhorar com certeza que os vou adiantar para sair com eles ainda esta temporada. À parte disso, terei mais uma novidade ou duas, certamente…
Sendo o Luís um Cavaleiro de topo na corrida à portuguesa, como está a agenda para 2013?
Em conversa com o meu apoderado, estivemos a validar e temos cerca de trinta corridas firmadas, que inclui os Açores onde actuarei na Ilha Terceira, na feira da Graciosa e talvez em Outubro, no final da temporada vá também à Califórnia. Nestas corridas fora, como a dos Açores a parte mais complicada é o transporte dos cavalos, que vão de barco. Este processo pode ser um tanto problemático, já tive azar duas vezes com dois cavalos, um cavalo bastante importante da minha quadra na altura, mas nos últimos anos as coisas têm corrido bem e os animais já vão mais bem instalados, o que não acontecia há uns anos atrás. É que antigamente viajavam numa espécie de jaulas pequenas, actualmente vão num contentor com boas condições e viajam mais confortáveis.
A temporada atinge o seu ponto alto em Agosto, quando o Luís toureia com mais frequência e por vezes mais que uma vez ao dia. Quem é a equipa que lhe dá suporte e a garantia de que está tudo em condições para a próxima corrida?
Agosto é de facto um mês de grande agitação, o ano passado fiz cerca de 20 corridas durante esse mês, com situações a tourear mais que uma vez por dia. A minha equipa é sem dúvida um grande suporte, praticamente tem-se mantido inalterada nos últimos anos. Tenho o Sr. Jaime, que anda comigo nos cavalos há vinte e muitos anos, é uma pessoa em quem tenho muita confiança, basta dizer-lhe os cavalos que vão para esta ou aquela corrida e estou descansado. Nos meses de maior aperto, por vezes é preciso dividir os cavalos eu dou as indicações e tudo aparece bem preparado no momento em que faz falta. Os bandarilheiros também são os mesmos desde há alguns anos. Também conto com o apoio do meu apoderado. Até aqui não tenho sido pessoa de mexer muito na equipa, gosto de manter a estrutura, dado que funciona bem! Temos funcionado bem como equipa, todos se esforçam na mesma direcção, como tal não há razão para alterações.
Luís “Rouxinol” Jr. o que sente quando vê este nome num cartel?
Confesso que sempre me agradou a ideia de um dia mais tarde ter um filho que seguisse a minha profissão, uma actividade ligada aos cavalos. Mas o Luís André nunca mostrou grande interesse pelos cavalos. Surpreendeu-me e subitamente começou a mostrar alguma motivação, dedicou-se e estreou-se há dois anos num festival em Serpa. Um ano antes, foi quando começou a montar e cresceu-lhe o entusiamo, o que me admirou bastante, teve uma evolução bastante positiva e tem levado a coisa muito a sério, tudo lhe ter corrido bem. Trabalha muito, sabe ouvir os meus conselhos, toma muita atenção ao treinos e as coisas estão a sair-lhe bem, vamos ver até onde consegue chegar. Com a experiência que tenho, já lhe tenho dito que não é fácil, embora ele já vá sabendo que as coisas não são fácies, já vai vendo e vai-se apercebendo. Seja como for terá sempre todo o meu apoio.
O engraçado, é que ele sempre me acompanhou mas nunca se terá apercebido que gostava e de repente, sem eu lhe ter dito nada e para grande surpresa minha, de livre e espontânea vontade dele iniciou e pelos vistos iniciou bem. Vai ter sem dúvida, uma vida muito mais facilitada do que eu tive na altura, a começar pelos cavalos. Todos os cavalos da minha quadra aos quais ele se adapte, pode utilizá-los. Tem que trabalhar muito e com uma pontinha de sorte, as coisas funcionam.
Quando vê o “pequeno Luís” em Praça, receia o perigo ou anseia pelo sucesso?
Talvez ou pouco dos dois. Penso que como em tudo na vida, o que quer que façamos terá o seu perigo. Esta é uma profissão que terá perigo como qualquer outra, agora, ele tem de estar preparado para saber resolver os problemas dentro da arena. Penso acima de tudo no sucesso, mas já o adverti para o facto de lhe poderem exigir mais a ele do que a outros que não tenham um pai Toureiro, ainda assim tem que andar e trabalhar para tudo lhe corra pelo melhor.
Ele assiste a algumas conversas de aficionados e fala-se de pais e filhos que andam nesta actividade, o que por vezes gera comentários como “…ainda não houve nenhum filho como o pai…” ou “…os filhos nunca são tão bons como os pais…” por isso não sei, vamos ter que esperar para ver! Já lhe tenho dito que certamente lhe irão cobrar mais a ele, do que a muitos outros que andam por aí, mas ele tem que andar e vamos vendo como as coisas correm mais para a frente.
Pai e filho praticam o mesmo estilo de toureio?
Bom, isso é quase inevitável. Os cavalos estão metidos no meu tipo de toureio, ele também aprendeu a ver-me tourear, cresceu a ver-me treinar, como tal é muito natural que siga a minha linha de toureio. Existirão com certeza alguns pormenores, alguns apontamentos dele mas a linha de toureio em geral será certamente a mesma. Se formos ver em alguns dos meus colegas, que têm filhos a tourear, a linha é basicamente a mesma, e é natural que assim seja.
Naturalmente que ele quer fazer alguma coisa diferente, quer dar o seu cunho pessoal, por vezes nos treinos noto que há vontade de avançar para manobras mais arrojadas, para as quais eu aconselho calma e alguma ponderação. É normal, tudo é muito recente e há muito sangue na guelra.
Como divide as suas atenções entre as duas carreiras tauromáquicas e a vida familiar?
Por vezes é bastante complicado, nomeadamente quando a tempodara começa a dar os primeiros passos, é dificil dar a atenção que a familia merece. Há um conjunto de sacrificios que temos que fazer, o meu filho está agora a começar, por isso não absorve assim tanto tempo. Esta temporada prevemos que o Luís André faça cerca de 10 a 12 espectáculos, queremos que tudo se desenrole com calma, até chegar à prova de praticante e com ponderação chegamos a todo lado, até porque ele é novo tem ainda muito tempo.
“Há que tourear com verdade, sem festivais de adornos.” Comente, por favor.
Sim, acima de tudo é preciso tourear com verdade, agora o adorno tem mais que se lhe diga. O adorno numa boa lide, pode ser um complemento importante, agora há que ter noção e não entrar num excesso de adornos. Na medida certa, o adorno também faz parte da tauromaquia. Numa boa lide, o adorno não só tem razão de exitir como faz falta, sem nunca entrar em festivais.
Como classifica a qualidade das ganadarias portuguesas?
Temos ganadarias boas, outras menos boas. Mas na minha opinião, julgo que as ganadarias portuguesas estão a atravessar um bom momento. Há um conjunto de ganadarias que à partida dão garantias para realização de boas lides e consequente sucesso.
Sou da opinião que temos vindo a evoluir em termos de qualidade ao nivel das ganadarias, há ganadeiros empenhados em apurar os seus toiros ao máximo para que as coisa corram bem. Há alguns anos atrás aqui em Portugal, viam-se muitos ganadeiros a tentar para o toureio a pé, enquanto nós não temos toureio a pé, o que pode parecer um pouco desajustado, mas eu acredito que o que é bom para toureio apeado é bom para cavalo, e o contrário já não acontece.
Devemos sentir-nos ameaçados com a entrada de toiros espanhóis em Portugal?
Há cerca de dois ou três anos isso aconteceu muito. Tivemos curros de toiros espanhóis a entrar, mas a qualidade das ganadarias é que nem sempre era a melhor, o que acontecia por vezes é que esses curros eram rejeitados em Espanha e eram enviados para lidar pelos Portugueses. O que tira qualidade e seriedade à nossa Festa.
Qual o tipo de toiro que melhor se ajusta à sua lide?
Gosto de um toiro que ande, um toiro com raça, que transmita, que ande pelo seu próprio caminho mas que dê luta em praça. Um toiro que persiga o cavalo, que faça chegar a emoção às bancadas. Quando estou na qualidade de espectador também gosto de ver emoção dentro da arena.
Quem é Luís “Rouxinol”?
Considero-me uma pessoa normal. Sou como qualquer outra pessoa, sou humilde, simples, trabalhador, sou amigo do meu amigo. Sinto-me bem a trabalhar, nos meus tempos livres caço, gosto muito de caçar e gosto de futebol.
Ana Paula Delgadinho
