A noite estava amena, tudo decorria com normalidade, os toiros repousavam nos currais, os artistas estavam prontos para começar, a banda formou e afinou, a entrada de público estava aprazível, mas…sentia-se uma tristeza do ar, este clã que é o da tauromaquia estava ferido.
Trocas de olhares, cabeças baixas, conversas de poucas palavras e rijos apertos de mão que quase sempre culminavam num abraço, deixavam transparecer os nós na garganta, os olhos rasos de água e o vazio, o vazio que nos deixou o Zé Maria. Por ser um dos nossos, por ser um miúdo, por ser como foi e por já cá não estar.
Só vejo uma forma de contornar esta mágoa, é olhar para todos os que estão connosco e com a intrepidez que nos move, amar cada vez mais os nossos forcados, os nossos cavaleiros, os toureiros e os bandarilheiros, amar o toiro e o cavalo, saudar a banda e afluir à Festa.
Nesta nocturna, a 3ª da Adega de Pegões, abriu praça Luís Rouxinol que de tricórnio apontado aos céus, brindou.
Envergando a sua bonita casaca bordeux e ouro, recebeu o dos Herdeiros Paulino Cunha e Silva, com 500kg.
Este toiro preto, bragado meano proporcionou ao cavaleiro a melhor lide desta corrida, embora assim não tenha entendido o júri que avaliou para o troféu em jogo.
Luís Rouxinol esteve a gosto, com um toiro a perseguir, de cara por baixo e a procurar investida.
A ferragem comprida, a ficar bem colocada precedida de bons cites e bonitas bregas. A série de curtos esteve igualmente alegre, com o toiro a durar Luís abriu o livro e cravou sem reprimendas o primeiro com cite de largo a aguentar, o segundo a trazer o toiro bem toureado para o fixar nos médios e o terceiro numa bonita sorte frontal com um quiebro bem pronunciado. Troca a montada para de forma animada, entrar na segunda parte dos curtos, e deixa um ferro de valor com vistosos remates, depois o clássico par de bandarilhas com o toiro no centro da arena de onde parte em investida para uma reunião equilibrada.
A fechar a primeira actuação o cavaleiro arranca-lhe uma última investida e crava um ferro de palmo com valor.
Na segunda lide esteve João Maria Branco, que lidou um toiro de 485kg da ganadaria João Branco Núncio.
Recebe à porta gaiola um preto cornicerrado, que pouco acusou a cravagem dos ferros, no sentido que não arrancava em perseguição, no entanto a não permitir que lhe pisassem os terrenos.
O cavaleiro de Monforte partiu para a uma série de cinco curtos com nova montada, dos quais se destacam o terceiro e quarto ferros em que soube entender o toiro, sendo que no terceiro mantendo-o ligado cravou em reunião bem pronunciada e no quarto sai ponderado numa velocidade aprazível e num ligeiro quiebro crava com subtileza. O quinto ferro não…não foi João Maria que pediu, não…foi o público! Obrigado a mudar os terrenos ao toiro, crava o último curto algo descaído.
Miguel Moura, o terceiro do cartel vem ao Montijo para mostrar que o toureio a cavalo tem continuidade.
Lidou um toiro de José Lupi com 505 kg, que recebe sem bandarilheiros numa brega cuidada para o fixar e crava no alto do murrilho sem falhas o primeiro comprido. O segundo comprido já mais precipitado, a ficar de largo numa sorte à tira. Depois de trocar de montada para entrar nos curtos Miguel, deixa quatro ferros cuja sorte foi transversal a todos, colocou bem o toiro, citou de largo e após um quiebro deixou a ferragem da ordem. A terminar esta actuação, tempo ainda para um palmo, a ficar.
No segundo lote ao cavaleiro cabeça de cartaz, coube-lhe um Cunhal Patrício de 525kg de peso.
Luís Rouxinol recebe sem ajuda um toiro que animado perseguia, mas facilmente se distraía. Ainda que, perante uma investida desajustada, os dois ferros compridos ficaram num registo regular, sem que o cavaleiro tivesse oportunidade de continuar o brilhantismo da primeira lide.
Com o toiro a mansear e mais ligado à capa do David, Luís troca de montada e entra nos curtos sem oponente.
Pisa-lhe os terrenos e arrasta-o das tábuas em manobras de arte para o fixar nos médios, onde crava dando-lhe a primazia da investida.
Numa brega batalhada cravou ao estrito o segundo. Os terceiro e quarto ferros, foram animados com nuances de equitação na tentativa de avivar a lide e o público. Deixou ainda um quinto ferro que em sorte de violino por dentro, mas já sem toiro.
Numa atitude digna de quem não conseguiu oferecer o espectáculo a que nos acostumou, independentemente de ter sido ou não da sua resposabilidade, o cavaleiro não deu a volta de agradecimento à praça.
João Maria Branco regressa para a sua segunda lide, e toca-lhe em sorte um toiro da ganadaria Rio Frio com 525kg.
Também este ojo perdiz, traria desaire ao jovem cavaleiro. À saída do curro, este desteñido não dava mostras de um toiro que veio a menos, abre um rasgo recto à montada que sem a presença de bandarilheiros valeu a destreza do cavaleiro em sair-lhe do caminho.
Nos ferros compridos João Maria, esteve algo precipitado no primeiro, mas corrigiu no segundo a fixar o toiro nos médios e a citar de tábuas, deixando um ferro correcto.
À entrada nos curtos, tudo se complica quando o toiro se desliga. O cavaleiro empenhou-se na brega, foi esforçado no desenho das sortes mas sem toiro para corresponder. Muda-lhe os terrenos e sua para tirar investida, numa série de quatro ferros dos quais se destacam o terceiro cravado ao estribo e o quarto com as bancadas a pedir música, em que o cavaleiro hipoteca a garupa do cavalo numa brega ousada e ainda assim não teve alternativa senão cravar em tábuas.
Uma vez mais, assistimos à dignidade e reconhecimento de um artista que sentiu não estar à altura de proporcionar um momento animado ao seu público, independentemente de estar ou não ao seu alcance. Também João Maria não deu a volta de agradecimento à praça.
A encerrar esta noctura do Montijo, a 3ª da Adega de Pegões e corrida de atribuição de quatro troféus (melhor lide, melhor pega, bravura e apresentação) esteve Miguel Moura. E a polémica está instalada! O pequeno Miguel, pode ter muitas ganas, pode, pode ter muita vontade de se impor perante um cartel de valor, pode, pode até estar no bom caminho, pode…..mas daí a ganhar o prémio de melhor lide?! Que crédito poderá ter a atribuição destes troféus? Então, o profissionalismo, a experiência, a sabedoria, a habilidade e a empatia dos outros cavaleiros?!
Até saber contornar um mau toiro, pode ser uma boa lide!
Mas bem, a derradeira lide desta corrida, foi normal. O Miguel recebeu sem ajuda um da ganadaria Francisco Romão Tenório, com 660kg. Deixou sem grande emoção os compridos perante um meano andarilho.
A partir daqui foi ver cravar, o primeiro a cilhas passadas, o segundo sem emoção perante um pastueño e o terceiro a ficar com o toiro a parar-se no momento da reunião.
Faz a segunda troca de montada na série de curtos e com a energia própria da idade prepara a sorte para cravar bem, mas remata com a pouco brilhante opção de levar o cavalo a morder o toiro.
Aqueceu as bancadas é um facto, mas…e o respeito pelo toiro onde fica?!
Deixou ainda ferros de palmo, onde uma vez mais a essência não estava em desenhar uma sorte de tourear a cavalo, mas sim rematar deixando o cavalo morder….!
A ilustre presença da forcadagem foi marcada pelos, Forcados Amadores do Ribatejo, Tertúlia Tauromáquica do Montijo e GFA’s do Montijo, capitaneados respectivamente por João Machacaz, Márcio Chapa e Ricardo Figueiredo.
À cara do primeiro da noite foi o cabo. Os do Ribatejo quiseram prestar uma homenagem e em particular o João Machacaz ao seu colega desaparecido.
Assim, quando nada fazia prever, brinda ao céu, manda recuar o grupo e pega à segunda tentativa em solitário, recebendo ajuda apenas quando consegue travar o toiro. Um forcado é um Homem de Alma.
A segunda pega fica a cargo da Tertúlia Tauromáquica do Montijo, foi concretizada por Rodrigo Carrilho. Igualmente brindada ao céu e às estrelas, o forcado pegou à terceira tentativa laçado à barbela de um toiro que entrou duro e pedia que o forcado recuasse e dobrasse mais.
A fechar a primeira parte, pegaram os GFA’s do Montijo, por Ricardo Parracho que desde logo se fez notar ao toiro, animou-o mas só à segunda conseguiu executar uma pega rija à córnea com o grupo a ver-se obrigado a reposicionar num repente.
Mário Gonçalves foi pelos amadores do Ribatejo à cara do quarto toiro que se acobardou. Ainda assim, num cite de largo e a animá-lo com vibração, mandou determinado e recebeu à primeira.
Pelos da Tertúlia foi ao quinto da noite Luís Carrilho, citou com toureria, chamou e alapou-se para executar à primeira com o grupo a fechar-se bem.
A concluir, pelos GFA’s do Montijo foi à cara Hélio Lopes, que convencido a ficar citou, templou, carregou e aguentou viajando sozinho até que os sete companheiros ajustassem a formação para concluir.
Justa ou injustamente os Troféus da Adega de Pegões em disputa consagraram:
Troféu de apresentação – Ganadaria Francisco Romão Tenório
Troféu de bravura – Ganadaria Herdeiros Paulino Cunha e Silva
Troféu melhor lide – Cavaleiro Miguel Moura (2ª lide)
Troféu melhor pega – Forcado João Machacaz (cabo) pelos Forcados Amadores do Ribatejo
Ana Paula Delgadinho
