Anunciada como corrida da ano realizou-se ontem no Montijo, com uma forte entrada de público, mais uma corrida de toiros. Rui Fernandes, Diego Ventura e Francisco Palha, segundo o cartaz “Melhor do mundo e os dois portugueses que mais triunfam em Espanha”, perante isto diria: “Rui Fernandes, olé toureiro! Diego Ventura, mais toureio era bom de ver! Francisco Palha, o caminho é sério há que rumar pela verdade desta arte.”
Assistimos a uma corrida que valeu pelo clima de festa, pelas notas de toureio que vimos aqui e ali, e pelas pegas da forcadagem, distribuidas entre os GFA’s do Montijo e de Alcochete.
A ganadaria! Pois, como é que se pode dizer…. o curro dos Herdeiros Conde Cabral apartado para esta nocturna, tinha uma média de 474kg de peso, mas era parco de remate e de apresentação curta. À saída de cada toiro, ouvia-se das bancadas;” Hoje temos garraiada!”, “Estes deviam ficar para o ano!”, “Há novilhos com mais cara e mais trapio!”
Rui Fernandes entrou alegre, de espírito aberto e com vontade de bem-fazer, como se lhe conhece. Tem uma toreria em transparência, tudo nele se nota e ontem estava contente, porque esteve bem. Recebeu um preto de 480Kg, ligeiramente bisco com dois compridos à tira em sortes muito bem calculadas e a chegarem com facilidade ao público. Prossegue com a vulgar troca de montada para dar inicio à série de curtos, e crava os dois primeiros em sorte frontal depois de momentos de brega em que assistimos a bons lances de toureio a cavalo com a meta de fixar o toiro, pena que o público pouco se manifestou.
Ao terceiro ferro pede-se música e as bancadas aplaudem a compasso para brilhantismo da sorte.
Ao quarto curto o cavaleiro da Caparica abre-lhe a casada para o sacar de tábuas, e crava um ferro de muito boa nota com o toiro a vir com a cara por cima. Deixa ainda um quinto nesta lide, a pedido e não pedido, numa sorte frontal e a ficar bem.
O segundo do lote, sai-lhe igualmente preto, de cara aberta e pesava 500kg, era o mais pesado da noite. Rui deixa sem reprimendas dois ferros compridos. Entra nos curtos com nova montada e crava o primeiro em sorte cambiada mas a consentir um toque. Recebe música ao segundo que ficou muito bem numa sorte franca com quiebro bem pronunciado. O “menino loiro” que desde cedo revelou a sua paixão pelos cavalos e pelos toiros, mostrou a sua cumplicidade com as montadas e com elegantes adornos equestres como piafers e piruetas na cara do toiro, desenhou duas sortes bem executas…. sem dentadas!
Os muitos pares de olhos atentos à lide, reconheceram que mais uma sorte, mais um ferro só traria bom resultado, o cavaleiro não desiludiu, e optou por cravar um ferro curto com valor.
Bom… é o público quem manda na Festa e é bem verdade, a lide durou, mas estava animada pedia-se outro ferro e Rui Fernandes fechou com um par bandarilhas de encher as hostes.
Diego Ventura, diga-se a bem da verdade que foi este o nome que encheu a praça, este e o Morante. O homem toureia, tem uma excelente quadra, é bom na brega, chega bem às bancadas, mas havia necessidade de humilhar o toiro?!?! Hoje põe os cavalos a morder, quando este número vulgarizar, vai fazer o quê ?!?
Recebe o seu primeiro com o “Buena Vibra”, um toiro desteñido de 470kg a sair andarilho mas lá está, o cavaleiro a receber bem com recortes vistosos. Com alguma insistência consegue fixá-lo e crava dois ferros compridos com o primeiro a ficar um pouco traseiro.
Trás “Oro” para os curtos e trabalha na brega com passagens por terrenos de dentro para deixar o primeiro. No segundo inicia a sorte com um vibrante cite de praça a praça, mas no momento da reunião o ferro acaba por sair descaído. Ao terceiro consente um forte toque na montada, numa sorte pouco brilhante. Crava o quarto num cite de largo mas o quiebro a não surtir o efeito desejado.
Ajusta novamente a montada e com o “Remate” coloca um par de bandarilhas. Finaliza a primeira actuação com dois ferros de palmo em sorte de violino, que incendiaram as bancadas.
Para a segunda lide o rejoneador, tinha reservado um toiro feio de cara, ligeiramente bisco de corniabierto de 470kg. Deixa dois compridos, como que a “medi-lo”, com destaque para o segundo em sorte à tira.
Inicia a série de curtos com o “Chalana” e perante um toiro a encrençar junto ao curro Diego entra bem na brega com ladeios e a esforço coloca-o nos médios, para depois de algumas passagens em falso acabar por cravar em sorte frontal um ferro acertado no alto da cruz. No segundo da ferragem curta cita de praça a praça e entra em sorte para cravar após um quiebro sem reprimendas.
Ajusta novamente a montada e volta à praça com o “Milagro”, com vista a cravar um terceiro e quarto ferros que ficaram sem grande emoção perante um toiro já sem investida.
Prossegue o desfile de montadas e claro, desse por onde desse o “Morante” tinha que aparecer, mérito para este animal que é valente, não teme a cara ao toiro, mas… talvez não seja bem a sua missão, não sei!
Já sem toiro Diego insiste na acometida para que se abram os terrenos e “Morante” possa cumprir o seu propósito.
A fechar ambas as partes desta nocturna, esteve Francisco Palha, que inicia a sua primeira actuação chamando à praça os cabos dos GFA’s presentes, brindando-lhes a sua lide. Ao jovem cavaleiro tocou-lhe um preto de cara fechada com 460kg, que saiu veloz e rabo levantado.
Francisco esteve bem nos dois compridos, no primeiro a citar de largo e no segundo com o toiro fixado nos médios cravou como é pedido.
Nos curtos, o cavaleiro da jaqueta verde e ouro mostra o bom que pode ser um “Disparate” e emprega-se numa brega esforçada para arrancar o toiro das tábuas, conseguindo levar o oponente até aos médios onde cravou dois ferros em sortes frontais bem desenhadas. O terceiro ferro chegou com calor às bancadas com o cavaleiro a cravar com preceito. No quarto da ordem, já galvanizado o cavaleiro, a precisar dos bandarilheiros para tirar o manso das tábuas, crava de novo bem em sorte de câmbio. Ajusta novamente a montada e com o “Scalibur” coloca os dois ferros finais, sendo o último de palmo que mereceu fortes aplausos.
No último da noite, o cavaleiro de V. F. Xira esteve em menor destaque. Recebeu um toiro com 465kg, de capa preta e cara aberta, feio para uma praça com tanta afición.
Francisco esteve bem nos compridos a deixar dois en su sítio com maior destaque para o segundo colocado a tira.
Sai pela porta dos cavaleiros para regressar com o “Litri”, consente alguns toques na montada que desde logo chegaram à assistência, antes de cravar o primeiro. No segundo ferro esteve melhor com o toiro a entrar bem na sorte e a cravagem a resultar bem. No terceiro e quarto ferros o cavaleiro esteve à altura e deixa sem falhas com maior mérito no terceiro cravado ao pitón contrário.
Troca de montada e com o “Colorau” coloca numa sorte três curtos em tábuas e nos terrenos do toiro, que mais uma vez incendiaram a bancada.
A garra e o sangue na guelra não lhe permitiram fechar com chave de ouro, arriscou mais uma sorte e saiu-lhe a fava. Precisou de três tentativas para deixar um par de bandarilhas, e ainda se lançou numa derradeira sorte com um ferro de palmo sem emoção.
A típica corrida ideal para um confronto saudável de rivais, que são estes rapazes unidos pela arte de pegar toiros.
A forcadagem fez-se representar pelos GFA’s do Montijo e Alcochete, capitaneados por Ricardo Figueiredo e Vasco Pinto, respectivamente.
Abriram praça os do Montijo, dado que a fundação ascende a 1964. Hélio Lopes foi efusivo no cite e soube esperar por um toiro que custou a arrancar-se, mas quando chegou ao forcado sacudiu-o com fortes derrotes. Ainda assim, à segunda tentativa o forcado aguentou, fechando-se bem e consumou-se a pega também com mérito do primeiro ajuda.
Alcochete mandou à cara do seu primeiro, Ruben Duarte. E desde logo, como que a mostrar ao toiro que estava pronto para o receber, Ruben foi-lhe falando e ajeitando a faixa, falando e ajeitando a jaqueta, falando e ajeitando o barrete….citou ligeiro e destemido encurtou as distâncias e mandou para receber à segunda um toiro com pata e com a cara por baixo.
A fechar a primeira metade foi Ricardo Almeida, que citou de meia praça numa pega mal iniciada dado que o toiro estava colocado em terrenos de crença e custou-se a arrancar, mas o grupo a optar por manter a formação que vinha sendo ajustada conforme a movimentação do forcado da cara. A pega acabou por se consumar mas com o forcado a viajar completamente desgarrado do grupo, e o toiro a levá-lo contra as tábuas, valeu a preciosa primeira ajuda do bandarilheiro até que os companheiros concretizassem. Pega valente.
A abrir a segunda parte, pegou o cabo, Vasco Pinto. Não tem nada que enganar, até parece fácil, citou, deixou vir para pegar à séria, firme e determinado com o grupo a concretizar com eficácia. Alguém dizia na bancada:” Será que já estava bem para fazer esta pega?…..é o bichinho!”
Ricardo Figueiredo, foi para a cara do quinto o outro cabo. Fechou-se à córnea, numa pega séria e rija com o toiro a vir atrás da sorte e entrar bem pelo grupo. Boas pegas vimos esta noite.
A fechar praça, o aniversariante, Nuno Santana. Fixou-o, alegrou-o à voz e quando mandou, recuou, aguentou bem o embate e os primeiro derrotes, e logo chegou o primeiro ajuda a fixar o forcado até que o restante grupo concluísse. Grande pega, grande grupo!
Ana Paula Delgadinho
