A Moita abriu a sua feira com chave de ouro. Todo a atmosfera que Morante de la Puebla cria em torno de si já fomenta, em Portugal, um excelente ambiente taurino.
E se os seus dois Calejo Pires não eram touros que orgulhassem um ganadero, Morante transformou o seu segundo oponente num touro com investida e recorrido, que não tinha.
Era mansote, enquanto o primeiro era manso, com arreões feios e nunca baixou a cara.
Mas no primeiro, o Maestro da Puebla achou que poderia ter mais sorte a seguir, lidou o que havia para lidar, e que era pouco e sempre com aspereza no hastado.
Só quando vimos sair um segundo da mesma estirpe, vimos Morante decidir que não defraudaria o público da Moita.
Decidir nem sempre chega, não é apenas saber o que se deve fazer, mas sim poder fazer aquilo que se deve.
A lide de capote parecia tão impossível como a anterior, apesar de ambas terem permitido aquelas chicuelinas que envolvem o corpo com o capote, naquele rodopio de perigo em que o touro roça com o calor do seu corpo a frieza da entrega presente no corpo do toureiro.
Quando pegou na flanela rubra, o Maestro andaluz ensinou ao touro o que era investir, obrigou-o a quase humilhar e manteve-o, pelo píton direito, numa série redonda, pela esquerda voltou a luta. Até que Morante venceu e tivemos uma lide elegante e completa que valeu o preço do bilhete de barreira do Sector 2 e mais que fosse. Calejo Pires, de repente, não tinha em praça um touro embaraçoso, tinha um touro digno de Morante.
Como todos os touros parecem ser, uma vez que ele está numa demanda para demonstrar (a si próprio? ou será a todos nós?) que todos os touros têm uma lide. Este teve.
E não, não foi uma encerrona do José António Morante. Mas podia ter sido. A nocturna decorreu a dois tempos, como se estivéssemos em zapping durante os intervalos de um grande filme, e nesse percorrer de outros cavalos tivemos um João Moura ou um João Ribeiro Telles e umas pegas do grupo de amadores da Moita, ante uns touros de Ribeiro Telles.
Moura encontrou-se melhor com o seu primeiro touro e Ginja esteve mais com o seu segundo touro, que deu volta à praça por motivos que me ultrapassam…
Talvez estivesse em excesso de zapping.
A primeiras pega da noite foi emocionante, não que tenha tido uma execução brilhante, ou que o touro tenha demonstrado algo extraordinário na pega.
O que se passou foi aquela emoção pura, que além da pega, só Morante nos trouxe nas lides desta noite, na cara do touro estava David Solo que se fechou na cara do touro, solto e a derrotar, com a força inverosímil de um herói mítico.
Quando o touro saiu da trajectória (duas vezes) e os ajudas não puderam chegar ao companheiro, David, solto de pernas, foi sacudido como um pano do pó numa janela. E ficou na cara do touro. Magnifica pega de emoção.
Contudo, magnifico e magnitizante foi Morante. E a corrida foi ele.
Sílvia Del Quema Vinhas
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