Vai cada vez menos gente às praças, não temos figuras, os aficionados percebem cada vez menos, há cada vez menos emoção, em Espanha é que é bom, enfim, vai tudo de mal a pior! Pronto, já está!
Tinha que começar assim para não dar razão ao senhor da camisola às riscas pretas que estava sentado uma fila atrás de mim e que aclarou o melhor que pôde a garganta para dizer afirmar cheiinho de ironia ao companheiro de corrida “não faz mal Zé, que depois isto no jornal é tudo bom”. Não, não, senhor da camisola às riscas. Está muitíssimo enganado! Nós aqui, pelo menos neste “jornal”, também não somos sebastianistas e somos profundamente portugueses. Está tudo mal, mal, mal. Estamos esclarecidos?
Posto isto, já me sinto confortável a dizer que gostei da corrida do Pinhal Novo. Primeiro porque apesar do dia realmente cinzento a casa encheu cerca de três quartos e o ambiente foi animado e metido no espectáculo. Depois foram os toiros. Um belíssimo curro de toiros de Murteira Grave que cumpriu com muita qualidade. As boas lides e correspondentes boas pegas. O piso da arena; o ritmo do espectáculo (que pela meia-noite e pouco estava concluído) e até a boa disposição do director de corrida que deu música quase sempre ao primeiro curto e soar o aviso ao quarto.
Pois, p curro de Murteira Grave deu excelente jogo para a noite pinhalnovense.
O primeiro touro da noite era enganador. Repetia nos capotes com nobreza e com uma chispa de tal ordem que parecia matéria-prima perfeita. Se os ferros não transmitiam parecia que a culpa só podia ser do cavaleiro. Nada mais longe da verdade. A chama do Murteira Grave apagava-se quando se escondiam os capotes atrás dos burladeros e quedava parado a fitar a montada. Para lhe sacar as investidas Rui Salvador precisou de entrar-lhe nos terrenos e acometer, citando a curto em quase todos os ferros. Entendeu o novilho, que apesar de um pouco tardo, tinha excelente condição e esteve-lhe por cima. O caso da segunda parte foi completamente diferente. A galope e com codícia, o exemplar andou sempre com sentido na montada, a empregar-se e a acudir com prontidão aos cites, franco e nobre. Bons ferros, de frente e ao estribo em especial o segundo comprido (que apesar de ligeiramente traseiro teve uma reunião notável) e o terceiro curto.
Sónias Matias teve sorte igual. O primeiro oponente foi tal e qual o primeiro. Cheio de recorrido nos capotes e muito reservado e a esperar no cavalo. A cavaleira não começou bem: por mais que quase passasse na cara do exemplar, este parecia colado à arena nos médios e armava apenas um ligeiro derrote ao sentir a montada pisar-lhe a jurisdição. Foi pena que tivesse tardado a mudar-lhe os terrenos, porque com mais praça, o toiro era outra coisa e embora um tanto a contragosto lá se dispunha a acometer. A cavaleira não esmoreceu e o esforço e valeu-lhe a entrega do público! Na segunda parte, o hastado parecia mais sério mas resultou muito mais cómodo. Nobre, respondia franco aos cites, e de facto, foi “de escândalo”, como se costuma dizer! Menos bem nos compridos, Sónia esteve francamente bem nos curtos e a garra com que lidou transbordou às bancadas que reagiram com os dois violinos com que fechou a sua noite.
Pedro Salvador armou o lio no primeiro da noite. Com uma alegria contagiante, com cites de exuberantes elevadas e vários adornos, o cavaleiro trouxe as cores mais quentes da escala cromática à lide do Grave belíssimo que saiu muito insonso mas abriu e foi colaborante de início ao fim. Mas os adornos não serviram para tapar deficiências nas sortes. O cavaleiro andou exuberante mas também andou sério e as sortes bem desenhadas garantiram que todo o público reagisse positivamente a tanta alegria e vontade de arriscar. Na segunda parte o touro esperava e não acudia nas batidas ao piton contrário com que Pedro Salvador quis conformar a lide. Desta última lide, houve porém um momento que foi o tudo da noite – para o coração e a respiração de todos! Da única vez que o oponente investiu por sua iniciativa, o cavaleiro foi recuando nos médios quase até tábuas, no limite do possível. No último momento, faz o câmbio ao piton contrário e recebe o toiro debaixo do braço. O ferro não ficou e o momento diluiu-se mas o extraordinário coração do ginete sobrou num daqueles momentos notáveis.
Pegaram em solitário os Amadores de Alcochete e perante tanta nobreza Vasco Pinto aproveitou para rodar os mais jovens de fardamento. Joaquim Quintela abriu praça. Recuou bastante e fechou-se à barbela determinado a não sair de lá, por isso apesar de ter recebido pelos joelhos corrigiu e consumou ao primeiro intento. Luís Santos esteve sereno perante as muitas hesitações que o seu oponente teve em investir. Vendo-o sair de súbito ao aviso, o forcado recuou no tempo certo e esperou que humilhasse para se fechar à barbela com muitíssima decisão. O toiro sacudiu para o tirar e embora não tenha conseguido fechar-se de pernas, consumou a pega com a força de braços e boa ajuda das segundas. Emanuel Santos recebeu mal à primeira mas consumou à segunda, sem reunião perfeita mas decisão, braços e uma excelente primeira. Pedro Correia foi o rabejador das três primeiras pegas e fechou com brilho cada uma delas, entrou no tempo certo, saiu no tempo certo e para os médios, desplante na cara do toiro e muito brilho a rematar o trabalho do grupo, esteve francamente bem. Na segunda parte António José Cardoso, (filho de António Manuel Cardoso) esteve tecnicamente correcto e determinado na córnea do exemplar que se empregou um derrote por alto. Mais veterano, Pedro Belmonte fechou à córnea e aguentou os derrotes de cima para baixo. O grupo tardou ligeiramente, tal como o rabejador mas resolveu-se sem dificuldade. Por fim, para a pega mais rija foi para a cara Tomás Pedro do Vale. O toiro saiu a galope mas a procurar. O forcado esteve à altura, tanto como as ajudas e consumou-se uma bonita pega a fechar um noite bastante agradável e mais um bom ano, na ainda recente história das festas do Pinhal Novo.
* Não posso deixar de notar, em jeito de nota final, que foi a primeira vez que na corrida do Pinhal Novo não pegaram os Amadores do Pinhal Novo, que foi quem, na verdade, criou esta data que tanto êxito tem tido.
Sara Teles