Foi uma noite com um curro de Oliveira Irmãos que deixou um rasto de dificuldades diversas a cavaleiros e forcados. No entanto, muitas vezes são as reses difíceis e mansas, que não investem ou que se adiantam como as desta noite das festas em honra de Nossa Senhora da Oliveira e de Nossa Senhora de Guadalupe, que trazem ao de cima o melhor dos agentes da Festa Brava, e foi isso que ontem aconteceu em Samora.
A vontade de triunfar e de estar por cima do touro, levou tanto cavaleiros como forcados a esmerarem-se, e se realmente houve impossibilidade de concretizar uma lide ou uma pega simplesmente de uma ponta à outra limpa e com momentos da arte que a aficion ama, houve pelo menos grandes momentos de bravura para cumprir com um bom toureio.
Dito isto, tenho mais ou menos descrita toda a nocturna de Samora, mas vamos aos ordenares: Rui Salvador deparou-se com o primeiro touro da noite, bem apresentado como todos, e nos compridos nem houve uma má performance, foram colocados com brio e à tira. Mas houve sempre alguma maldade no touro, que se adiantava e gerava imenso risco para a cravagem, resultando numa bela lide, porém muito dura.
A pega esteve a cargo de João Machacais, dos forcados do Ribatejo, tendo o touro saído com violência, mantendo a sua muita pata da lide na pega, e o forcado saiu da cara logo após o impacto. Ficou consolidada a pega à segunda, após muito derrote no percurso até às tábuas, quando as ajudas pararam o touro.
O segundo touro da noite, para Sónia Matias, foi certamente o pior do curro, era manso e centrado na trincheira, obrigou a cavaleira a estar em cima dele e os ferros foram os possíveis. Recusou-se sempre ao cavalo e a cada ferro reagia sem bravura. Sónia, muito bem, recusou a volta que o público lhe pedia por verem que fez o possível e o impossível para tirar uma lide do seu oponente.
A pega de Alcochete ficou a cargo de Tomás Vale, que no primeiro intento tropeçou ao recuar e a sorte foi a mansidão do touro ou tê-lo-ia apanhado. Na segunda saiu da cara ao primeiro derrote de um touro forte e que nem cansado estava. Na terceira tentativa aconteceu mais ou menos o mesmo. Já na quarta, com o aviso dado caíram todos sobre o touro e mesmo assim, todos foram sacudidos e a pega não se concretizou. À quinta, de sesgo, lá conseguiram pegar. Era um touro impossível.
Marcelo Mendes entrou para o seu primeiro touro e deparou-se com um oponente bonito mas desinteressado, contudo, depois do anterior parecia excelente! Compridos cravados com imenso brio e crivo clássico. Curtos de grande nível com brega esmerada. Foi uma lide agradável com um touro que não se mantinha facilmente no cavalo, mas que colaborou o suficiente após o toureiro lhe pisar os terrenos, mas manteve a investida muito curta. Os tendidos pediram mais um ferro depois de um desplante do cavalo e Marcelo fechou a lide com um ferro de palmo de praça a praça.
Esta pega do grupo do Ribatejo ficou a cargo de Joaquim Consolado. À pRimeira foram atropelados e o forcado não tocou na cara. Na segunda tentativa tiveram de desmanchar que o touro não investiu. E ao terceiro intento, não se agarrou ninguém ao touro tal foi a velocidade. Pegaram à quarta, também de sesgo.
Rui Salvador voltou à praça para se deparar com outro manso, bonito, sem dúvida, mas desinteressado e a adiantar-se ao cavalo. O cavaleiro de Tomar deu tudo por tudo e levou um toque feio na barriga do cavalo para conseguir cravar o primeiro curto. Nem os seus ‘ferros impossíveis’ podiam resolver a falta de touro. Mas conseguiu arrancar dois curtos de bom nível, ao estribo.
Este touro foi pegado com muito brilho por João Gonçalves, de Alcochete, numa pega em que avançou fantástica para touro ao mesmo tempo que ele e se fechou, a custo e com muitas ajudas. Bela pega à primeira, que o levou a dar a volta à arena, embora sozinho.
Sónia voltou à arena para ter outro manso perdido, mas desta feita a cavaleira investiu rapidamente com força para não perder ímpeto e o primeiro comprido saiu bem. Mas não teve mais touro… Nos curtos esteve sempre em cima dele, para poder cravar. Entendeu melhor o touro e conseguiu cravar três bons curtos. O touro não foi de mais a menos porque numa esteve no nível de ser mais, portanto foi indo de menos a menos. Mas a cavaleira ficou por cima do touro. Pediram mais um ferro e fechou a lide com o seu cavalos de adornos a cravar um violino.
E está foi outra pega à primeira, o grupo do Ribatejo, com João Guerreiro à cara, apanhou o touro muito solto e concretizou uma boa pega sem as ajudas poderem chegar ao forcado da cara antes de estarem quase em tábuas.
A noite terminou com Marcelo Mendes a ter um dos melhores touros da noite, e a tirar proveito disso apesar de ter levantado à mesma imensas dificuldades. Era pouco cooperante, mas com alguma investida. Para os curtos Marcelo foi buscar o seu cavalo Único dando um bom momento de adornos e brega, mesmo com o touro a negar-se à bravura. Meteu-se por duas vezes entre tábuas, entrando pelo touro dentro, noutro puxou o touro dos médios para as tábuas para lhe sacar em redondo a investida e cravar à tira perfeito. Seguiram-se agradáveis momentos de toureio, com o cavalo a dar a garupa como capote, sem toques desnecessários. Fechou com um bom par de bandarilhas.
A pega, de Alcochete, ficou para Pedro Belmonte e foi uma pega limpa, à primeira, das melhores da noite, que foi dura para todos os artistas, que não permitiram defraudar os aficionados.
Sílvia Del Quema
