Olivenza não é a nossa, mas a sua feira taurina é. Na praça ouve-se mais Português do que Espanhol; com forte pendor para o sotaque alentejano, mas não só. Olivenza tem casas quase esgotadas todas as corridas por causa dos portugueses. É aqui que os verdadeiros aficionados ao toureio a pé se apresentam para ver os grandes nomes. Não é só aqui, em Olivenza, mas é sobretudo em Olivenza, pois das praças raianas é sempre nesta que se juntam para apreciar a arte taurina apeada, e este ano ninguém pode ter saído completamente descontente.
Juli é poderosíssimo, mas Morante não é para todos, e Roca Rey tem atitude com postura. Diego não precisa ser o único cavaleiro para triunfar. Foi o que eu senti nesta feira de Olivenza, em que os curros podiam ter sido mais bravos e prestáveis, mas no fundo são o fruto daquilo que hoje em dia se pede para haver grandes cartéis…
Nas duas principais corridas deste certame, também se sentiu bem o empenho de Gines Marín, a quem falta apenas a chispa, o carisma, ou que lhe queiram chamar, para ser um triunfador nato. Entregou-se nos seus dois touros, mas num cartel com o poder de Morante e de Roca não havia muita margem para o seu toureio. Não me prendo com as saídas em ombros, porque realmente as orelhas têm muito que se lhe diga em praças de primeira, portanto o que poderemos dizer das praças de segunda.
Morante deu capotazos profundos que valeram o preço do bilhete da sua tarde, e cortou uma orelha nesse Daniel Ruiz desluzido, mas melhor do que o seu segundo. No capote esteve a mostrar-nos que não tinha matéria para ser artista. Na véspera, Juli, também não teve grande matéria, desta feita com Garcigrande, mas teve muita vontade de usar o seu saber para sacar algo ao touro, sobretudo depois de Ponce ter feito o mesmo tipo de esforço com o seu primeiro hastado.
Ponce tem uma estratégia, e é esse facto de ser um estratega entre doblóns e pés fincados, que me esfria face à sua expressão desta arte. Juli transpira poder. Ele pode e ele faz. Foi quem teve duas lides mais fabulosas do que me foi dado a ver, contudo, depois de Ponce ter cortado duas orelhas ele deveria ter cortado rabo e, contudo, isso não aconteceu. Ventura arrancou bem a sua temporada europeia, estando forte fortíssimo em ambas lides, mas arrebatando mais no segundo oponente, por ter saído com o Dólar para o momento de cravagem dos pares de bandarilhas sem cabeçada.
Morante foi toureiro desde que pisou o ruedo, como lhe é usual, tem uma presença impressionante e não duvido que quem foi à praça e escolheu esta corrida de entre os cartéis, foi por causa dele, no entanto, é possível escutar em todos os tendidos críticas à sua personalidade. Entendo que Morante não é para todos, é para aqueles que sabem que a arte não é feita por encomenda, tem de ser sentida e isso ou acontece ou não acontece. Neste caso arte num binómio ainda mais difícil e requer mais paciência. Mas que houve apuntes houve!
Roca Rey não é um toureiro dos detalhes, mas do risco e isso enche mais facilmente o coração da afición do que a arte per si. Não houve ninguém não tivesse sibilado um ai nas suas faenas, tendo havido mesmo uma voltareta, para permitir um sibilo mais claro aos mais envergonhados. É um toureiro da emoção, que tem uma postura em praça incrível e que tem a tal atitude (leia-se “huevos”) que puxa afición.
Se houvesse cognomes para os toureiros, como reis das arenas, eu diria os seguintes: Juli, o Poderoso; Morante, o Artista; Roca Rey, o Sem Medo; Ponce, o Irrepreensível.
Sílvia Del Quema
