Mais um Verão, mais umas férias e mais uma corrida do emigrante. Desta vez foi Salvaterra de Magos que quis dedicar mais uma corrida de toiros aos emigrantes que por esta altura regressam às origens para matar saudades da família, dos amigos e das tradições da terra. Esta noite de toiros foi rica em comemorações, desde o 93º aniversário da praça de toiros de Salvaterra, ao 30º aniversário de alternativa do cavaleiro António Telles, passando pelo 25º aniversário de alternativa do cavaleiro João Salgueiro, até ao 25º aniversário de toureio da cavaleira Ana Batista.
Mas esta Festa é feita por gente que acarinha a Festa, e não poderia ficar esquecido um homem que muito fez pela vila e pela Festa dos toiros em Salvaterra, Armando “Ginja” a quem foi feita uma homenagem póstuma. Uma figura que deixa saudade pelo bem que fez um pouco por cada casa, um pouco por cada rua, um tanto por toda a vila.
António Telles teve duas lides animadas, melhor a segunda onde soube dar a volta a um encastado, como de resto quase todos da corrida. O primeiro Palha saiu flavo, ojo perdiz ligeiramente bisco do pitón esquerdo a pesar 510 kg. O cavaleiro da Torrinha começa por cravar três ferros como que a medi-lo, com maior realce para o terceiro onde veloz calculou ao milímetro o momento da reunião e deixa um ferro à tira. Na classe dos curtos chega com nova montada para cravar o primeiro em sorte frontal trazendo o toiro bem alegrada à voz. António Teles chega com alguma facilidade ao público, com o seu toureio clássico e com a elegância que lhe é conhecida, perante um toiro de arrancadas intempestivas trabalha bem a brega e fixa-o para deixar mais dois ferros de boa nota em sorte à tira. Para deixar o último curto o cavaleiro procurou trazer o oponente aos médios com passagens em terrenos de dentro, venceu e conseguiu arrancar-lhe uma investida para cravar um ferro de valor.
A segunda lide, valeu a António Telles o prémio de melhor lide em disputa. O cavaleiro da casaca beringela e prata esteve bastante bem, abrindo o livro e mostrando como se toureia um toiro difícil, encastado e ainda assim se deixa ferragem de valor tem muito mérito. Procura nas bancadas o Ti Miguel, brinda e “volta” ao ruedo para receber um preto de 490kg. Ante um toiro que se arrancar para apanhar, o cavaleiro deixa três compridos com emoção. Entra na lide de bandarilhas, e a puxar dos seus galões o veterano mostra como um toureio natural e bem medido permite levar qualquer toiro toureado colocando-o em sorte com momentos de brega consequentes. Deixa dois ferros curtos em sorte frontal bem desenhada, pronunciando quarteios cingidos e a cravar ao estribo. Ao terceiro ferro de olhos postos e a trazer o toiro consigo, crava em terrenos de dentro. Fecha a sua actuação com um quarto curto a sacá-lo das tábuas, cravando nos médios de alto a baixo com o toiro a sair alto na montada.
João Salgueiro, esteve igualmente bem, embora num registo menos vistoso. Tocou-lhe um toiro com o nº 659, de 500kg preto e ligeiramente bragado meano, outro com a casta ao de cima. Entrou a apertar e provoca um ligeira colhida em tábuas o que obriga o cavaleiro a trocar de montada. Coloca dois compridos, um em sorte frontal outro à tira muito bem calculado a ficar no alto da cruz. Na série de curtos inicia uma boa brega a consentir ao estribo cravando o primeiro de alto de baixo e rodando na saída. Mantendo o toiro ligado à voz o cavaleiro de Valada deixa o segundo e terceiro curtos partindo recto e cravando justo. No quarto ferro, cita de praça a praça e crava com mérito en su sitio.
Para o segundo lote, João Salgueiro tinha reservado o maior da corrida, mais um preto de 540kg.
O cavaleiro esteve bem no combinar de dois ferros compridos de boa nota. Ao entrar na ferragem curta, e com o toiro a dar indícios de vir a menos, o cavaleiro deixa um ferro correcto bem rematado. De seguida, mostra o que o faz andar no mundo dos toiros há 25 anos e desenha uma sorte dos médios para as tábuas, a rodar o pitón e a deixar. Ao terceiro curto e com o adversário no centro do ruedo João Salgueiro crava um bom ferro em sorte frontal a sair bem apontado.
A mesma sorte não teve no último ferro, com o oponente a reservar-se em que o cavaleiro optou por fazer algumas passagens em falso e a cravagem a não surtir o efeito desejado.
Ana Batista, estava em casa mas esta harmoniosa cavaleira emprega o seu esforço pela arte de tourear de igual forma em todas as suas actuações. Tocou-lhe mais um preto, este listão, bonito de cara com 480kg. A cavaleira entrou com raça e na tentativa de equilibrar todos os momentos da sorte deixou os dois compridos, para lhe avaliar as condições. Nos curtos pautou pela ponderação com que construiu as suas sortes, e crava um primeiro saleroso, um segundo a consentir um toque mas a ficar e um terceiro em quarteio amplo a sair distanciado. Ana tinha por diante um toiro que vinha para comer, saía da sorte em busca da colhida ainda assim e após uma esmerada brega a cavaleira crava o último desta série acertado ás cilhas.
A encerrar esta nocturna a cavaleira da casaca verde d’agua e ouro, lidou aquele que foi considerado pelos toureiros de bancada o melhor da noite, o que mais humilhou, perseguiu e investiu indo pelo seu caminho. Era um preto listão, com 520kg. Ana esteve determinada no cite e a mandar, embora no momento da reunião estive-se de largo não permitindo ao cavalo acoplar-se bem à investida do toiro, mas a ferragem comprida a ficar. Opta por não ajustar a montada ao jogo da curtos e trazendo o toiro ligado à garupa na tentativa de tirar partido desta perseguição a cavaleira fixa-o para depois se colocar em sorte e citar de praça a praça cravando três bons ferros no momento da investida, com especial destaque para o terceiro que chegou às bancadas. Encerra a sua actuação com uma brega suportada em lances cesgados para sacar o toiro de tábuas, mas sem grande sucesso perante um toiro que se rachava, a cavaleira cita dos médios para os tércios incitando a investida e crava consentindo um toque.
Os valorosos rapazes da jaqueta, estavam representados pelos GFA de Vila Franca de Xira e GFA de Salvaterra de Magos, liderados pelos cabos Ricardo Castelo e Nelson Soares respectivamente.
Vila Franca abriu praça e foi para a cara do primeiro Rui Godinho, pegou um toiro que vinha a ensarilhar e com ideias de tirar o forcado da cara. Mas Rui soube ler-lhe o comportamento e à segunda encurtou-lhe as distâncias e pegou-o à córnea sem falhas. Mérito também para o rabejador Carlos Silva que esteve à altura da sua função.
Salvaterra a pegar em casa, mandou para a cara do seu primeiro Carlos Travessa, que viu igualmente um toiro ensarilhão a fugir à reunião criando dificuldades e o forcado a não se conseguir fechar. Pegou ao quarto intento com as ajudas bastante carregadas. O brio de um forcado, é sinónimo da sua presença e como tal esta noite Carlos não deu a volta de agradecimento.
Bruno Casquinha, vinha com tudo, a seriedade, o sangue frio e o salero de um forcado. Citou bonito, mandou e recuou para reunir e se firmar sem mais o perder. O toiro entrou com a cara rija, mas o forcado fechou-se à córnea determinado e cerrado de pernas viajou-lhe na cara com o grupo a não facilitar. Bem merecido o prémio da melhor lide em disputa esta noite.
Na segunda metade iniciaram a pegar os de Salvaterra por João Paulo Damásio, que não suportou um violento derrote à primeira tentativa, reuniu mal à segunda mas à terceira consumou. Mostrando-se ao adversário e alegrando-o à voz mandou e recebeu com as primeiras carregas.
Para o quinto da noite foi o irmão do cabo, Pedro Castelo. Esteve bem o forcado a mandar, a recuar e a receber fechando-se à córnea, o toiro rompeu pelo grupo até que chegassem as terceiras ajudas e se concluisse a última para os de Vila Franca.
Para a última pega da noite foi Pedro Lapa. Alegrou-o, o toiro estava com ele, mandou e no momento que antecede a reunião recebeu-o fechando-se à barbela, e à segunda tentativa executou bem com o grupo a concluir.
Ana Paula Delgadinho
