Jesus é acusado pelos sacerdotes em Jerusalém.
A multidão assiste ao julgamento e pede a cruxificação.
Pôncio Pilatos quis poupar-lhe a vida: mandou trazer um ladrão e assassino condenado à morte e concedeu ao povo o direito de escolher qual dos dois acusados deveria ser solto.
O povo, incitado pelos chefes dos sacerdotes e líderes religiosos, gritou: «soltem Barrabás!»
Ontem, depois de uma série de benevolências do director de corrida, o público de Salvaterra rebelou-se contra si e tratou-o como a um déspota – foi até preciso escoltar a saída de Lourenço Luzio.
Miguel Tavares toureava o último toiro da tarde.
Os ventos não estavam de feição e o jovem não estava a conseguir colocar o toiro nem a cravar os ferros (embora o esforço que fazia fosse notório).
Em nada estranhava a decisão do director de não o brindar com música. É verdade que Miguel Tavares é ainda muito jovem e o reservado oponente de D. Luís Pereda não lhe permitiu dar a volta ao texto – mas o público tinha estado frio desde o início da corrida, com aplausos de mediano entusiasmo.
De repente, um pequno grupo, sentados nos últimos lugares de sol, animados pelo convívio e pelas cervejas, decidiram começar a bater palmas em uníssono, a ver se incitavam aquele ritual conjunto de pedir música.
O público começou a reagir… E não é que mesmo perante a inoperância do jovem ginete, a multidão se rebelou contra o director?
Curiosamente, toda a gente se importou com a ausência de música e foi preciso escolta para que Lourenço Luzio saísse da praça de Salvaterra.
Digo honestamente, que me assustei… Onde está o público de soberana decisão?
Mas não estamos nós em Salvaterra de Magos? Não estamos no mais puro Ribatejo, onde a afición nasce e se renova? Andamos sempre a ouvir do público da capital mas afinal… o que os distingue?
A decisão de não dar música não mereceu qualquer reparo. Porém, outras houve a merecer maior censura.
O novo regulamento está em pleno vigor e não pode haver tão grande benevolência. Quaisquer homenagens devem realizar-se antes da corrida e não ao intervalo. Nas pegas, deve soar um aviso aos cinco minutos e não devem exceder-se os dez… Os bandarilheiros devem respeitar a distância de cinco metros entre a porta dos curros e o local onde efectua o primeiro aviso!
Foi uma corrida de tropelias.
Às vezes acontece assim…
Começou com os toiros anunciados da ganadaria de D. Luis Terrón. Não puderam lidar-se por problemas de sanidade alheios à empresa. Foram substituídos pela divisa de D. Luís Pereda. Porém, três dos seis viriam a ser recusados e também estes substituídos por três exemplares da ganadaria de João Ramalho.
Ao fim, acabou por ser uma corrida interessante do ponto de vista ganadero. Saíram superiores os de João Ramalho, mais voluntariosos e com mais transmissão mas também não defraudaram os D. Luis Pereda.
Sónia Matias esteve correcta, deixou os ferros com ortodoxia e selou uma passagem em bons modos.
Manuel Telles Bastos lidou um exemplar da divisa de João Ramalho, bonito e bem rematado. O toiro reagiu com codícia aos primeiros ferros e rematou-os encastado. Infelizmente os primeiros castigos racharam o oponente e a lide acabou morna.
Tomás Pinto esteve muito bem frente ao oponente de D. Luís Pereda que lhe tocou em sorte. Executou a ordem com inspiração e a arriscar, recebendo o toiro debaixo do braço e em terrenos cingidos. Uma das melhores lides da tarde!
Também Miguel Moura teve momentos de muito interesse. O oponente de João Ramalho andou com pata na brega e acedeu voluntarioso nos primeiros ferros mas veio a menos, tanto como a lide.
António de Almeida repetiu o triunfo que tinha já alcançado em Salvaterra. Frente a um oponente de Luís Pereda um pouco tardo, optou por arriscar. Atacou o toiro em terrenos de dentro e ao piton contrário em cambiadas cingidas quase sem saída. E o público, correspondeu com o primeiro aplauso verdadeiro da tarde.
A Miguel Tavares coube o último de D. Luís Pereda. Saiu enraçado mas pouco voluntarioso e reservado nos cites de frente. O ginete andou esforçado mas a tarde, de facto, não lhe correu de feição.
O capítulo das pegas contou com duas boas prestações dos Amadores do Ribatejo. Joaquim Consolado, pegou à primeira com o grupo coeso. Também à primeira António Saramago consumou com boa execução nos cinco tempos e bem o grupo a corresponder.
Pelos de Salvaterra de Magos, Nelson Romano consumou à segunda tentativa. Nelson Carrilho, consumou ao quarto intento.
Para os Amadores de Arruda a tarde não correu bem. O forcado da cara esteve mal em todas as quatro tentativas e o grupo não conseguiu mantê-lo na cara. Com a benevolência do director deu volta. Depois de quatro tentativas de caras, acabaram por não conseguir concretizar de cernelha (apesar disso o director acabou por dar pega como consumada).
Sara Teles
