Imagine-se a ver um jogo de futebol a meio da época.
As duas equipas estão empatadas a zero. Usam uma tática defensiva, sem cometer erros, trocam a bola com segurança. Aos sessenta minutos ainda não há golos mas bancadas dos adeptos de uma e outra estão satisfeitos com a exibição das suas equipas mas aos sessenta minutos já não se ouvem os cânticos ao compasso do marcador a zeros. De repente, um médio agarra a bola no meio campo, finta um, dois, três adversários, perto da baliza de um golpe, remata à trivela e faz um golo espectacular. Os adeptos saltam como uma mola, cachecóis no ar, estalam os cânticos a toda a força.
Foi mais ou menos isto a corrida de Setúbal do passado sábado. Com praça cheia e um público expectante, a noite foi em traços gerais banal, até que Moura Caetano, verteu a inspiração na arena com duas excelentes actuações.
Os toiros de Cunhal Patrício foram essencialmente sensaborões. Rematados e de apresentação condigna, cumpriram sem graça. Faltou-lhes casta e acometividade, e, simplesmente, não transmitiram nada, embora se deixassem e tivessem mobilidade.
Daí que não se possa dizer que Joaquim Bastinhas, Sónia Matias e Mara Pimenta estiveram mal, porque não foi o caso. Ficou-nos apenas a imagem de cumprir a papeleta sem argumentos para mais.
Joaquim Bastinhas começou a noite com uma passagem algo irregular, com uns toques num ferro, uma sorte aliviada noutro, uma tira menos ortodoxa e um ferro pelo corredor. O toiro cumpriu – lá está, mas sem transmitir, não deixava ver ao público as dificuldades de um gazapón, a que era preciso colocar nos melhores terrenos. Na segunda metade, viu-se mais toureiro e menos toiro. O de Cunhal Patrício reagiu a doer-se muito ao primeiro ferro e depois deu um ar da sua graça, encastando-se a perseguir a montada. Foi sol de pouca dura, já que de logo desistiu da luta. A lide ao reservado, não passou da regularidade, embora de menos a mais, não houve muito para ver.
Com Sónia Matias chegou uma chuva miudinha persistente, que incomodou as bancadas, irredutíveis em não arredar pé. A cavaleira teve também um exemplar colaborante nos limites mínimos, que por vezes se tapava mas que não se impôs. Esteve solvente – digamos assim… Entre alguns mais ou menos ortodoxos terminou com um violino que caiu. Na segunda metade, lidou um manso completamente obscuro, que não deu qualquer jogo. A cavaleira, resolveu mas com dificuldade, numa actuação de mais a menos. Terminada, ainda assim com um violino.
A amadora Mara Pimenta lidou apenas um exemplar de Cunhal Patrício. A jovem tem ainda uma larga escala de progressão e poderá vir a posicionar-se em bom lugar. Por agora, apresentou uma actuação correcta, especialmente se medirmos a distância entre as dificuldades do manso encastado (ainda que desengraçado) e a ainda prematura carreira da jovem. Além de um toque à garupa e das ajudas dos bandarilheiros para colocar o toiro, bem pode dizer-se que foi uma actuação pautada pela ortodoxia. Tem a completa simpatia do público, que lhe reage com efusivas manifestações. Já o disse, e, volto a dizer. A mim choca-me a incongruência da sua imagem. Entre a figura fina e aprumada da cavaleira e os modos com que se dirige ao público vai uma diferença abissal. Mas isso são as contas que pouco importam, porque vai, de facto, por muito bom caminho.
Moura Caetano vem, propositadamente por último. Como já se viu, a corrida vinha em tom brando e sem emoção. “De repente” Moura Caetano trouxe uma abordagem e uns argumentos completamente diferentes para a interpretação dos seus toiros. A verdade é que não terá sido a sua melhor actuação. Já o vimos em actuações de magníficos contornos. O que “chocou” foi mesmo a abordagem. É que a matéria-prima era do mesmo tipo mas o génio foi outro. Nos compridos cravou de praça a praça. Depois situou a lide nos médios e de tércio a tércio e a escolha dos terrenos não podia ser melhor. Depois, conseguiu colocar-se de maneira a dar vantagens, cravando depois ao quiebro, recebendo o toiro debaixo do braço. Ao mesmo tempo, o temple e a segurança dos gestos sobressaíram como uma pincelada de vermelho numa escala de cinzentos. A segunda parte da corrida não foi tão plena. Comparada com a primeira, na segunda metade da corrida não foi uma lide tão redonda. Andou mais discreto na ferragem comprida e nos curtos houve imprecisões. Em geral, porém, foi um conjunto de variedade, com excelentes momentos nas reuniões. Provou mais uma vez possuir um conceito de toureio muito singular e muito próprio, que com certos toiros é realmente “de génio”.
Pois nas pegas os toiros também não pediram muitas contas e a noite decorreu sem problemas de maior. Dos três grupos inicialmente apontados, foi substituído o de Coruche, que quis honrar um compromisso assumido de não pegar corridas com três formações e, em seu lugar, entrou Beja.
Os mais antigos eram os de Ribatejo. Abriu função João Machacaz, que teve como única complicação a hesitação para investir. De resto veio recto e pelo seu caminho, garantindo pega limpa. Pedro Coelho ajudado com elementos dos outros dois grupos, concretizou uma pega aguentando alguns derrotes com determinação. João Carreira, recuou com o toiro e fechou à barbela consumando à primeira.
Pelos Amadores de Beja, foi primeiro Miguel Sertório. Foi à jurisdição e sacou boa pega, da barbela à córnea com uma boa primeira ajuda. Guilherme Santos, teve coração para aguentar na cara e nos terrenos do toiro durante uma longa hesitação. Depois não conseguiu recuperar e acoplar-se, saindo por cima do toiro. Ao segundo intento, depois de uma longa insistência sem sucesso para que o toiro arrancasse de largo, concretizaram com acerto, de sesgo, sem dificuldade.
Dos Amadores do Aposento do Barrete Verde, Bruno Amaro concretizou ao primeiro intento a mais bonita pega da noite. Começou por dar muita vantagem ao toiro, e, depois atacou-o nos seus terrenos, fechou-se à córnea, e, a ajuda que se posicionou de largo, garantiu em conjunto um boa pega. César Nunes, foi a terrenos de compromisso, num cite cheio de galhardia e acabou por não conseguir recuperar quando empranchou com a mangada alta. À segunda tentativa, com a mesma garra, aguentou os derrotes, bem ajudado nas primeiras.
Sara Teles
