Foi uma noite longa mas muito entretida a de homenagem a Helder Antoño em Alcochete. Começou às 21h30 com a reposição da estátua, mais brilhante que nunca. Foram muitos os que, escutando as tocantes palavras de Francisco Morgado, se reuniram no pátio presidido pelo forcado, falecido há 26 anos.
Escultura igual mas em escala menor, seria entregue ao ganadeiro que apresentou o melhor toiro da corrida, que findou já passava das duas horas da manhã. O engenheiro Samuel Lupi, pelo toiro da divisa Rio Frio seria o vencedor deste lindíssimo troféu oferecido por Vasco Pinto em nome da jaqueta alcochetana. Ninguém discutiu a atribuição, mas a noite foi renhida em apresentação e bravura!
Com esta jaqueta vestiram-se para esta noite mais de setenta elementos, antigos e actuais. Encheram o pequeno redondel e fizeram da noite um recital da história do grupo. António Cardoso (Nené), João Pedro Bolota e Chalana Marques, foram três das várias velhas glórias que saltaram ao ruedo, nesta noite de enormes pegas.
A cavalo, Rui Fernandes devia abrir a corrida mas acabou por fechá-la e com chave de ouro. Foi dos sete, absoluto triunfador. Assim que pisou a arena estalou o agrado da bancada. É que o “nosso” ginete vinha de Torrejón de Ardoz, onde toureou pelas seis da tarde, cortou uma orelha e perfez 637 quilómetros até Alcochete e isso era bastante para ter já o público consigo. Foi uma lide de triunfo redondo! O cavaleiro lidou o toiro da divisa Samuel Lupi, que deu jogo e transmitiu. Sobrou em classe, com o sítio e a segurança com que pisou terrenos de compromisso. Citou em curto, perfilando-se na cara do toiro parado para dar vantagens e cobrar ao estribo nas sortes ao piton contrário. Guardou-se, sem dúvida, o melhor para o fim.
A noite tinha começado bem com Sónia Matias. Abriu praça com um toiro de Paulo Caetano, que embora sério não se impunha nas reuniões. Cumpriu o oponente e a amazona aproveitou as qualidades para se recriar nas sortes e levar a lide de menos a mais.
O toiro de Herdeiros de Lopes Branco transmitiu. Embora por vezes se tapasse, manteve-se nos médios e acudiu às chamadas de Gilberto Filipe. O cavaleiro desenhou uma lide alegre e adornada, aproveitando na brega as mangadas encastadas do oponente.
Filipe Gonçalves esteve em dia não. Diga-se que toiro de Fernandes de Castro era muito complicado.Com “riñones” e encastado, impunha-se e comprometia sem perdoar. O cavaleiro vinha para dar tudo. Com uma exuberante recepção dobrando-se com o toiro nos médios, cravou o primeiro comprido sonante e sofreu violento toque quando se adornava com uma segunda pirueta arriscadíssima a rematar a sorte. Com o toiro a adiantar-se sem permitir nada, Filipe Gonçalves não logrou obter o triunfo a que se viu vir disposto.
A Tomás Pinto tocou o toiro de Herdeiros de António Lampreia, que cedo se revelou manso e enquerençado em tábuas. O ginete optou por não o tirar da querença mas sacou dali, sequenciais ferros emotivos, em que a aparente ausência de saída para a montada fizeram com que o público vibrasse. Foi uma lide fluída e bem conseguida.
Mateus Prieto lidou o toiro de Rio Frio (quanto a nós justamente premiado). O oponente tinha “sal e pimenta” ou “gatos na barriga” mas também era nobre e franco, sem comprometer. O jovem aproveitou a transmissão do oponente e logrou chegar à bancada, principalmente com o violino com que fechou.
O imponente toiro de Alves Inácio foi lidado por Salgueiro da Costa. Distraído, o oponente andou sempre interessado nas trincheiras, embora saísse com relativa facilidade quando lhe entravam na jurisdição. O cavaleiro impôs-lhe uma lide variada nos terrenos e nos desenhos das sortes, levando bom efeito na bancada.
Todas as pegas da noite foram emotivas, não fosse esta, uma noite para Helder Antoño.
«[…] Mais ainda quando homens morrem com cara de meninos, na flor de uma vida, praticando uma arte que é conscientemente arriscada, mas suficientemente forte para se enfrentar com um sorriso nos lábios» como disse Francisco Morgado no início desta noite.
Vasco Pinto abriu a noite com uma pega tecnicamente perfeita, consumada ao primeiro intento. António Manuel Cardoso (Nené) viu o toiro arrancar com pata, não conseguindo reunir nas melhores condições, saiu por cima com um forte derrote. Foi dobrando pelo seu filho, que apesar de ter visto o toiro querer tirar-lhe a cara, conseguiu ficar com a ajuda do grupo. Fernando Quintela esteve enorme e consumou rija pega. Daniel Gonçalino foi buscar o toiro à jurisdição, mandou e fechou eficaz à córnea com uma boa 1ª ajuda de João Pedro Bolota. Rúben Duarte consumou também uma pega dura e tecnicamente exemplar. Tomás do Vale saiu ao primeiro intento com fortíssimo derrote. À segunda consumou “um pegão”, em que valeram os braços e a alma para ficar e aguentar a viagem. Joaquim Quintela viu o toiro sair inesperado e intempestivo à primeira tentativa, tentou mandar mas faltaram ajuda. À segunda, embora com um joelho por diante fechou-se com determinação e aguentou a difícil viagem.
Sara Teles
