A realidade não tem que pedir desculpa, mas a expectativa bem que devia pedir perdão! A dupla João Telles Jr. e Salgueiro da Costa fez-me acreditar neste cartel mais do que qualquer outro de todos os detalhes aliciantes do Colete Encarnado de Vila Franca de Xira. Foi uma boa corrida, uma tarde bem passada, muitíssimo calor, em ambiente de “último dia de festa que se aguenta estoicamente porque vale mesmo a pena”; houve toureio do bom e um toiro de escândalo que deu volta al ruedo… Tudo isso, e mesmo assim venho desiludida.
Em boa verdade se diga, porém, que a “dupla” merece outra oportunidade! Os toiros de Murteira Grave foram um pesadelo para as lides a cavalo. Difíceis, cheios de sentido, inconvenientes e a ridicularizar o trabalho dos cavaleiros, tiraram à tarde as possibilidades que tinha de vir a ser um recital de ferros emocionantes….
João Telles Jr. teve por diante um negro listão de 550kg que meteu a cara com suavidade abaixo no capote de recepção. Os mesmos bons modos teve ainda nos dois compridos que o cavaleiro cravou com acerto. Dali veio sempre a menos e depressa aprendeu a esperar e a apertar nas reuniões. O segundo e terceiro curtos foram seguidos de toques à garupa e no quarto, com os terrenos melhor medidos viu-se o toiro levar a cara lá acima para colher. Abreviou e não houve muito que ver. O da segunda parte, de luminosa pelagem, compacto e muito bem apresentado nos seus 575kg, deu ainda mais trabalho. O primeiro ferro, à tira e bem rematado, serviu-lhe para aprender tudo: ao segundo comprido cita-o o ginete de largo e foi vê-lo cortar a saída e imprimir violento toque à garupa. À medida que foi ganhando querença nos curros, foi esperando cada vez mais – sempre a medir, investia para colher quando o ginete lhe encurtava os terrenos e perseguindo depois o cavalo nos remates. João Telles Jr., esteve bem, resolveu as dificuldades e preferiu arriscar-se menos e zelar mais pelos desenhos das sortes (até porque logo na montada de saída ficaram as marcas do piton, quando uma das embolas se rasgou). Destacou-se o quarto ferro, um bom curto de cingido quarteio – andou correcto mas não deslumbrou.
Salgueiro da Costa acusou a pressão, devido à pouca rodagem que leva ainda nesta temporada, aliados também ao bronco oponente que teve pela frente. Ao segundo comprido já cortava caminho, quase comprometendo a montada. Seguiram-se uma série de percalços – ora falhou o toiro, ora o ferro caiu e acabou por ser no último, quarteando de frente, o único sem pecado. Se os percalços não foram culpa do toiro, também os defeitos do Murteira Grave não tiveram culpa no cavaleiro – brusco e maldoso, a cortar a saída e áspero, não deu jogo nada cómodo. Na segunda parte já parecia que o público estava conformado com a decepção! O primeiro comprido quase à meia volta e um segundo que não resultou porque o castanho de Murteira Grave frenou na reunião foram mau auspício para a última lide a cavalo da tarde. Graças a Deus sobreveio a ousadia ao jovem Salgueiro. Arriscou e fez do segundo curto um daqueles ferros que nos atingem no peito e contrair os músculos! Cingido ao máximo, ao estribo, com o toiro a levar a cara lá acima foi, soberbo – repito, mesmo soberbo! Fez o mesmo com no terceiro e o público já aplaudia de pé. Depressa se passa, porém, “de bestial a besta”… Ao quarto ferro o toiro defendeu-se e imprimiu violento toque à montada. Voltou a arriscar no último, esperou demasiado e saiu novamente tocado no estribo. Autor dos melhores e piores ferros da tarde, teve uma passagem inglória pelo tauródromo ribatejano.
David Mora, por seu turno, lidou um extraordinário cardeno que há-de ter compensado o ganadero de todos os dissabores da tarde. Toiro para quem o diestro, imediatamente acompanhado pelo director de corrida, se exigiu volta a arena. Bonitas verónicas e chicuelinas no tércio de capote foram um menos em comparação com a extraordinária faena de muleta que teve a seguir. O toiro rompeu pronto, com recorrido, a repetir a gosto e a vir a mais, sempre de cara no chão e fiero. Um bravo de bandeira! O espada toureou de mão baixa em simbiose perfeita com a matéria-prima, puxou dos galões e aliou toureio de verdade com sóbrios desplantes para o público! Aproveitou a fonte inesgotável que tinha por diante e bordou o melhor toureio da tarde!
No último, bonito embora cómodo de cara, teve outros tons muito diferentes. Embora metendo a cara no chão, veio muito cedo a menos. Começou por se encostar e não chegou a romper. Precisou da muleta a curto mas nunca foi claro. Pouca profundidade por ambos os pitons, encontrou-se melhor com as séries por naturais. Faena bem conseguida e mais uma boa passagem de David Mora por Vila Franca.
Os Amadores de Vila Franca em solitário tiveram muito que resolver… Rui Godinho abriu praça. Ao primeiro intento calou-se ao toiro e não teve boa reunião. Apesar de ainda se ter fechado à córnea não aguentou a viagem. À segunda corrigiu a técnica mas o toiro entrou só com um piton e cara alta frustrando a reunião. Consumou à terceira com ajudas mais carregadas resolvendo a investida pouco clara do exemplar. Pedro Castelo cumpriu os cinco tempos a rigor e consumou uma pega exemplar com o toiro a investir nobre e pelo seu caminho. Ricardo Patusco viu o oponente ensarilhar e talvez se tenha adiantado um pouco para reunir, consumou à segunda tentativa entrando na jurisdição, fechou à córnea e teve grupo! Por fim Márcio Francisco consumou uma pega gigante que levantou a praça em aplausos. Tecnicamente perfeito, resolveu a dureza do oponente para fazer brilhar a jaqueta encarnada da terra.
No início da corrida rendeu-se um minuto de silêncio por D. Maria Vitória, madrinha dos forcados de Vila Franca, Sr. António Casquinha e José Maria Cortes, recentemente falecidos.
No intervalo belíssima homenagem aos campinos do ribatejo que nos enchem de orgulho!
Sara Teles
