Gilberto Filipe
Agosto 2013
Alcochete
É o ensino e a doma dos cavalos que preenchem os dias deste cavaleiro, que procura transportar os valores da equitação para o toureio a cavalo. Gilberto suporta-se num estilo de toureio com sentimento, que involuntáriamente faz chegar com facilidade às bancadas, trazendo o público ligado às suas lides desde cedo.
Procurámos conhecer um pouco mais deste talento, nesta simpática entrevista.
Gilberto Filipe é um nome que tem vindo a afirmar-se no panorama taurino, como é que foi chegar até aqui?
Foi uma caminhada muito dura, primeiro porque não tenho antecedentes ligados à tauromaquia, o que torna desde logo as coisas um pouco mais difíceis. Digam o que disserem, em qualquer área se tivermos alguém que nos indique um caminho ou que nos abra as portas torna tudo muito mais fácil. Infelizmente, os meus avós e os meus pais eram aficionados e pessoas ligadas ao campo, não à tauromaquia. Ainda assim, depois de ter algum contacto depressa o gosto foi crescendo, procurei sempre aprender a base de equitação, aliás, tudo começa por aí, primeiro o gosto de montar e depois por graça fui evoluindo até chegar a tourear. Tinha uns 14, 15 anos quando em casa do Engº João Cortesão, que na altura era apoderado da Ana Batista, comecei com um cavalo velho a treinar, o Zafra e toureei a minha primeira vaca. A partir daí as coisas foram crescendo, sem ter nada sonhado, nada pensado, fomos construindo e de ano para ano as coisas foram melhorando até que cheguei ao ponto onde estou hoje.
Na minha opinião, ainda tenho muito que aprender, muito para melhorar, mas faço aquilo que gosto que é tourear e divirto-me com isso. Para mim a grande vitória é conseguir ter uma vida profissional ligada ao toiro e ao cavalo, o que é bastante difícil. Eu estudei engenharia agronómica, mas não exerço nada ligado a essa área, o que eu faço efectivamente é montar a cavalo, participo em provas de ensino, equitação de trabalho, associado a isso consegui alguns clientes, tenho cavalos para ensinar outros para desbastar e é assim que vivo. Neste momento tenho cerca de trinta e muitos cavalos em casa, o que permite dedicar-me ao que mais gosto. Graças a Deus, de há uns anos para cá tenho vendido muitos cavalos lidados por mim a colegas, o que é outra coisa que me dá satisfação, embora tenha um lado mais triste porque tenho necessidade de os vender para conseguir andar na Festa, apenas com o que recebemos nas corridas não se consegue aguentar a estrutura que está montada, mas como digo tem o lado bom que é ensinar cavalos bons, vendê-los e voltar a adquirir novos para ensinar.
Quando é que decidiu que a sua actividade de vida era ser cavaleiro tauromáquico?
Como todos os anseios da infância ou da adolescência tudo começa por ser um gosto, um desejo ou um sentimento. Como disse entre os 14, 15 anos foi quando comecei a tourear as primeiras vacas, aos 16 anos foi quando fiz a primeira corrida em público em Estremoz. Naquela altura era o que eu queria ser, não sabia bem se era para o futuro ou não. O que é certo é que vamos criando sensações e entramos neste meio de tal forma, que “somos obrigados a querer isto”, não nos vemos a fazer outra coisa. Terá sido por volta dos 16 anos que tomei essa opção.
Venceu este ano na Feira da Agricultura mais uma prova de aptidão ao toureio. Aprimorar o trabalho com os cavalos é um dos seus cuidados?
Exactamente, eu estive sempre ligado ao ensino do cavalo, montei muito com alguns mestres, que me ajudaram bastante e mantive-me ligado a provas relacionadas com o cavalo lusitano, muitas delas promovidas pela APSL. Este ano o Dr. António Raúl de Brito Paes com mais 2 ou 3 juízes da raça decidiram organizar umas provas de aptidão ao toureio, o que me pareceu engraçado e muito produtivo, para além de ser uma ideia inédita na minha opinião tem imensa lógica por se tratar de uma prova que tem uma componente de ensino do cavalo, uma componente morfológica e uma componente tauromáquica. Resulta muito bem, porque nós toureiros se temos um cavalo novo vamos prepará-lo para essas provas como antecedente de uma corrida, para quem está ligado ao ensino do cavalo estas provas podem também ser uma montra, e para o coudelero é bom para avaliar aqueles cavalos que não têm aptidão para o ensino e revelam maior predisposição para o toureio.
Que outros troféus guarda com orgulho e brio pela sua dedicação?
Para além de Santarém, ganhei também em Cabeço de Vide foram as duas únicas provas em que participei este ano. O Átila, é o exemplo de um cavalo que levei às provas, um cavalo que vendi há cerca de um mês ao Luís Rouxinol, é o espelho do trabalho desenvolvido, porque uma coisa é tourear vacas em casa e outras é tourear toiros em praça.
A tourear como profissional desde 2004, nota que o toureio a cavalo tem evoluído? Em que aspectos?
Muito, tem evoluído muito. Em primeiro lugar o público que vai à praça não quer ver 2 ou 3 ferros bons, quer assistir ao espectáculo como um todo, depois este publico já vais estando habituado a ver cavalos lindos e bem arranjados e talentos como o Pablo e o Ventura que procuram criar espectáculos com nível artístico, e se nós portugueses não damos o mesmo partimos desde logo em inferioridade. Neste momento, não basta pôr bons ferros, temos que ladear com os toiros, ter os cavalos bem arranjados, temos que pôr um ou outro ferro diferente, não podemos apostar apenas em ferros a direito, devagar, a quartear e cravar. Só o ser ao estribo, que é onde está a verdade já não é o suficiente.
Posso dar o exemplo de um colega que toureou comigo há dias, um verdadeiro interprete do toureio clássico, pôs ferros extraordinários, mas o público não aqueceu…querem ver outras coisas. Não podemos dizer que o público esteja mal, o público é soberano, quem paga quer ver aquilo que gosta, mas neste momento o público quer ver muita coisa, quer ver variedade. Habitualmente eu cuido a vertente estética que é um factor que salta à vista, os espanhóis por exemplo são muito aprimorados, até porque têm várias alternativas de ornamentar, com fitas, com pom-poms etc., eu como sei que isso chega facilmente ao público cuido essa parte, procuro uniformizar as cores das fitas com a casaca, e com as bandarilhas, por exemplo. Todo o aspecto visual tem impacto. Hoje em dia os media, permitem conhecer realidades além-fronteiras que inevitavelmente são comparadas à portuguesa, ora se não houver evolução naturalmente somos inferiorizados.
Por outro lado, a evolução do toureio está sempre adjacente à investida do toiro, se o toiro não permitisse o toureio não poderia evoluir. Está aqui também um trabalho enorme dos ganaderos, em preparar o toiro para acompanhar esse toureio. Ao contrário do que se pensa, nós toureiros não queremos um toiro parado, queremos um toiro que participe, que invista, que transmita, que ponha algo dele e existem algumas ganadarias neste momento em Portugal que consideram isso mesmo. Mas na minha opinião ainda se continuam a vender espectáculos pelo toiro grande e pela tragédia, o que é mau para o toureio e mau para o público, porque muita vezes um toiro grande não permite dar espectáculo.
Quando se fala em momentos altos, qual é a primeira imagem que lhe surge?
Olhe, no ano de 2004 quando tirei alternativa fiz trinta e muitas corridas e de seguida tive épocas muito boas, 2005, 2006 e 2007. Depois de 2008 a 2010 vim a menos, por inúmeros factores; primeiro porque eu estava montado de uma certa maneira e os cavalos que me acompanhavam esse ano estavam a terminar, tive de montar uma quadra nova. O panorama nacional alterou-se completamente, surgiram muitos colegas novos com raízes tauromáquicas na família e houve um boom de corridas montadas para as famílias e para as dinastias, o que fez com que nessa altura tivesse um decréscimo de número de corridas. Graças a Deus, em 2011 mudei de apoderados, só tive dois apoderamentos na vida, o José Carlos Amorim a quem agradeço muito pelo acompanhamento destes anos em que fizemos coisas muito giras, mas passei a ser apoderado pela Campo e Praça com os amigos António Manuel Barata e Albino Caçoete. Essa época felizmente foi muito produtiva, com um volume considerável de corridas embora em praças com menos visibilidade, o ano passado tive duas corridas em Évora muito boas, uma da TV que correu lindamente e a outra com toiros do Dr. Barata Freixo em que me senti muito bem. Fui ao Redondo com toiros do Falé Felipe e senti-me lindamente, toureei também aqui no Montijo uns toiros do Engº José Lupi em que me diverti muito. Este ano levo poucas corridas, levo quatro apenas, até agora a que me senti melhor foi a do Campo Pequeno, senti-me bem também em Montemor onde toureei toiros do Veiga Teixeira, na Moita tive dificuldade com um segundo toiro do Palha que era um toiro com algumas dificuldades, fugia da brega.
Mas para já posso considerar que o momento alto desta época foi a actuação no Campo Pequeno.
Esta carreira é sinónimo de muitas relações de entreajuda e compromissos, o Gilberto terá certamente alicerces que o apoiam neste caminho, quem são?
Primeiro a minha família, que sempre me acompanhou. Depois tenho a felicidade de ter a amizade daquela que não é apenas uma casa de apoderados, mas também uma casa de amigos que é o António Manuel Barata e o Albino Caçoete, são eles quem me tem ajudado. Depois é lógico que temos muitos amigos, não será correcto enumerar 3 ou 4, mas tenho inclusivamente amigos toureiros, colegas a quem me mantenho ligado. São pessoas com quem converso, que me dão moral porque isto não é fácil, num dia somos os reis e noutro dia não. Estamos constantemente a ser avaliados, temos mesmo que ter alicerces fortes.
Estamos na época alta da temporada taurina, momento em que a afluência de público à praça se faz notar. Se falasse à afición, o que lhe diria?
Bem sei que vivemos um momento difícil, a crise toca a todos. Apesar das dificuldades sabemos que temos de fazer as coisas. A única mensagem que posso deixar é pedir que não deixem de ir aos toiros, sabemos que as famílias que gostariam de ir a 3 corridas, neste momento escolhem apenas uma, mas não deixem de ir.
Tento colocar-me dos dois lados, vejo a vertente de quem compra considerando que o poder de compra baixou, e vejo o lado de quem monta as corridas, os toureiros têm as suas despesas, as praças têm que ter manutenção, os toiros segundo os ganaderos estão a ser pagos abaixo do preço de custo, e pelo que vejo a crise toca a todos.
A única coisa que peço é que mantenham a sua afición e continuem a ir ao toiros.
Dos bonitos exemplares que compõem a sua quadra, quais são as estrelas e as novidades que introduziu esta temporada?
Eu vendi esta temporada 4 cavalos a colegas meus, 4 cavalos de confiança que integravam a quadra. Vendi um ao António Telles o Assim-Sim um cavalo puro, bonito da linha do Neptuno, vendi um árabe que tinha de saída ao Luís Rouxinol um cavalo com o qual recebi quase todos os toiros o ano passado, vendi um novo com o ferro do Diniz ao António Brito Paes e vendi o Átila também ao Luís Rouxinol, portanto 4 cavalos prontos para tourear que compunham a quadra. Mantive um Coimbra, que é o cavalo com que toureio há mais tempo, tenho muita confiança nele, é um cavalo bonito, bem feito e com um sitio especial, mantive um Arsénio Cordeiro com que toureei o ano passado por ser um cavalo com uma base de arranjo muito boa, tem alguma variedade nas sortes, permite-me ir de longe, permite-me ir de curto, cravar violinos, ferros curtos, mantive também um Herdade das Silveiras, o Zeus.
De momento, tenho 3 cavalos novos, tenho um Vinhas filho do Famoso, é novo, muito bonito, artista, habilidoso penso que me vai ajudar. Tenho outro cavalo que está também novo, de saída, toureei já na Moita e no Campo Pequeno com ele. Tenho outro, que é aquele em que mais esperanças deposito, chamo-lhe o Diniz, é filho de um cavalo que vendi ao Pablo da linha do Zamorino do Salgueiro, são cavalos muito artistas. Pensei levá-lo ao Campo Pequeno, mas teve uma lesão nessa semana e fiquei impedido do levar, mas já está recuperado.
Sendo o Gilberto um cavaleiro ponderado que prefere participar em menos corridas, mas corridas de destaque, como está a agenda para 2013?
Vou à feira da Moita, vou a Coruche, vou a Évora, vou a Estremoz e penso que estejam 3 contractos por fechar ainda. Decidimos numa base daquilo que é também o percurso feito pela empresa, fazer um nº reduzido de corridas e escolher as praças de maior importância com cartéis de maior destaque. Tem o seu benefício, mas também tem as suas dificuldades, temos de ter os cavalos mais montados, mais trabalhados por não estarem tão rodados e tão calhados.
A sua actuação no Campo Pequeno, no passado dia 8 de Agosto chegou rapidamente às bancadas. Quer descrever esta lide?
No Campo Pequeno, de saída o toiro ajudou, transmitiu o que foi desde logo um passo para chegar ao público. Dos dois compridos, o primeiro foi bom e o segundo não tão bom, mas o remate deste segundo foi melhor e o toiro transmitiu. Eu acreditei no toiro, penso que faltava uma de duas coisas, ou eu dar um passo mais à frente ou o toiro transmitir um pouco mais no momento do ferro. Foi só o que faltou com o Coimbra, para as coisas correrem como eu desejava. O toiro tinha cara, tinha peso e entrei bem nos curtos, a partir do primeiro julgo que o público esteve comigo. Gostei muito dos dois últimos curtos, principalmente o último com o toiro de praça a praça, foi quando me senti melhor.
Depois tal como falámos há pouco, o público gosta de um ferro ladeado, ao estribo, com emoção mas também gosta dos adornos e por isso decidi fechar com uma sorte de violino, pode ser considerada uma sorte de recurso mas tem uma proporção enorme junto do público e assim foi..
Por acaso até tive ideia de deixar mais um ferro, um palmo, mas como as coisas estavam tão bem decidi não o fazer, não fosse vir a menos.
Como é que caracteriza o seu estilo de toureio, mais clássico, mais exuberante…?
Penso que não sou exuberante, pelo menos procuro não ser. Não sou muito dado a essas coisas. Acho que o meu toureio é mais numa base de sentimento, talvez por isso chego com alguma facilidade ao público, sinto aquilo que estou a fazer e penso que se me estiver a divertir e a sentir o que estou a fazer é lógico que o público sentirá também. Toda a minha vida lutei, temos que aprender, andar, trabalhar e vencer, penso que as coisas estão no bom caminho, mas é naquele momento em praça que se vê o esforço do trabalho diário, semanal e mensal. Por isso quando as coisas correm bem, os sentimentos vêm à flor da pele, e o público também vai sentir e entrega-se.
À parte disso, procuro tirar partido de cada cavalo que tenho, é lógico que há cavalos com um sitio outros com outro, é só procurar qual o melhor sitio para cada um deles, procurar fazer as coisas bem feitas para assim chegar ao público, embora saibamos que é impossível agradar a todos. Bem sabemos que o nosso esforço não toca de igual forma a todos os aficionados.
Acima de tudo, temos de ser sinceros connosco, perceber se é o que gostamos e se é o que sabemos fazer. O que me trouxe a idade e a experiência foi o ensinamento de que devemos tourear para nós, para nos divertirmos e nos sentirmos bem, porque se assim não for não é bom nem para nós, nem para quem nos vê.
A 7 de Setembro de 2012 debutou em ruedos espanhóis, é para continuar?
Para já não, gostei da experiência mas vejo isto como sendo um profissional e como profissionais não podemos andar de borla, praticamente. Ir a Espanha é uma despesa grande, temos muito mais custos que em Portugal, temos de levar 3 bandarilheiros, temos que levar moço de espadas, temos que levar um jogo de rojões, não fazemos 300 ou 400 Km mas sim 800 ou 900, e a remuneração não compensa. Não quer dizer que não volte a ir, se aparecer uma corrida que coloque os pesos bem distribuídos na balança pode ser que calhe, mas este ano ainda não fomos. No entanto gostei, gostei de tourear em Espanha foi mais uma experiência, com um público diferente que gosta de um toureio mais pausado, porque os toiros também o permitem, admitem-nos certas coisas que cá não são permitidas, como por exemplo; lá podemos por um rojão à meia volta e se colocarmos um comprido à meia volta aqui, somos punidos. Há um senão que é o matar, é uma sorte para a qual não estamos calhados porque nunca nos foi incutida, por mais que treinemos não é fácil, no meu primeiro toiro matei à terceira (tive petição de orelha na mesma, mesmo morto à terceira), no segundo matei à segunda e senti dificuldades porque assim que agarramos num rojão de morte sabemos que não é uma sorte que dominamos.
Em momentos em que as coisas tenham corrido menos bem, alguma vez pensou em desistir?
Há dias que sim, mas depois dormimos e no dia seguinte tudo passa. Penso que faz parte, eu analiso-me a mim e aos meus colegas, para tentar perceber se será só comigo que isso acontece, e vejo que todos têm dias maus e que continuam a andar cá.
Só sabe o que é ganhar quem já perdeu, mas quando se perde é duro.
Imagine que na sua profissão se propõem a atingir um objectivo, e se não o conseguir atingir é mau, mas pior ainda é o facto de não ter conseguido se tornar público, o que torna as coisas ainda piores. Depois, se for o caso de se tratar de um toureiro que toureia muito, hoje está mal e amanhã pode estar bem, as coisas tapam-se, agora se for um toureiro que toureia pouco até à próxima corrida a ideia que fica é sempre do que correu mal anteriormente. Mas é claro, que tentamos sempre ultrapassar e seguir em frente.
Numa fase em que muito se fala em dificuldades sócio-económicas, teme pelo futuro da Festa em Portugal?
Não, não temo. Vejamos para um ganadero não é fácil criar apenas toiros de lide, para um toureiro não é fácil viver só das corridas, mas se olharmos para um historial constatamos que desde sempre quem toureava não era apenas toureiro tinha outras actividades, os ganaderos não eram apenas criadores de toiros de lide eram lavradores que tinham gado de engorda, agricultura etc. Ou seja, mantinham uma ligação à tauromaquia porque gostavam mas a nível profissional todos tinham outras actividades adjacentes. O caso do Mestre João Branco Núncio, que segundo sei era um lavrador em larga escala e só toureava a meio do Verão porque no inicio da estação cuidava da lavoura. Temos uma casa aqui perto de nós, do Engº José Lupi que para além de criar toiros de lide, tem vacas mansas, dedicava-se à agricultura, nomeadamente às plantações de arroz, o que revela que há sempre uma vertente de suporte à dedicação pela tauromaquia.
Lógico que em momentos económicos mais confortáveis as coisas são mais facilitadas e há quem consiga viver da tauromaquia por si só, mas em momentos menos favoráveis como o que atravessamos agora, é muito difícil depender desta actividade.
Considera que temos assegurada uma próxima geração de profissionais do toureio a cavalo?
Sim, penso que há sangue novo e que o toureio está maduro, vejamos o caso do Luís Rouxinol que consegue comemorar os 25 anos de alternativa no auge da sua carreira. Isto mostra que o nosso toureio está maduro, está firme e ainda conseguimos ter no activo bons toureiros com muitos anos de alternativa. Depois temos outros toureiros, muito novos e que funcionam muito bem, mas o facto de existirem toureiros mais velhos ainda no auge, significa que estes novos toureiros têm uma margem de progressão muito elevada.
Portanto, não é uma actividade onde a idade seja um factor condicionante, pelo contrário a experiência e a idade acumuladas permite aos toureiros desenhar grandes carreiras.
Partindo do princípio que são artes diferentes e com origens distintas, como encara a presença do rejoneo no toureio em Portugal?
Na minha opinião a única diferença entre o rejoneo e o toureio a cavalo é que no rejoneo cravam-se rojões de castigo e no toureio a cavalo são ferros compridos. De resto não vejo grandes diferenças, ambos procuram ir de frente, a direito, templar a investida e cravar ao estribo. Embora chamemos rejoneadores ao Pablo e ao Ventura porque em Espanha toureiam com rojões, eles são toureiros a cavalo, eles sabem tourear a cavalo.
Lembro-me de uma corrida de rejoneo que vi em 92 que aquilo mais parecia estarem a campinar a cavalo, não se parece nada com o rejoneo a que assistimos agora.
Houve uma introdução do toureio a cavalo no rejoneo e não foi o rejoneo que veio para Portugal, penso que os próprios espanhóis vieram buscar o nosso toureio a cavalo e deixaram de rejonear apenas, passando a tourear a cavalo.
Agora, defendo que todos os toureiros, ou rejoneadores que tragam espectáculo à praça e tragam público à praça, são de louvar, vimos por exemplo o S. Pedro aqui no Montijo que é uma data forte e fez meia praça, e passado uma semana ou duas veio o Diego e encheu a casa. Isto é uma mais valia para todos, ganaderos, toureiros, empresários e público.
Acredita que a qualidade das ganadarias portuguesas se manterá na próxima geração de ganaderos?
Não é fácil gerir uma ganadaria, mesmo para um ganadero antigo. Como se diz na gíria, dois mais dois não são quatro. Nunca fui ganadero mas pelo que sei, ainda mais difícil é criar um toiro de acordo com o que se procura agora, porque se quer um toiro a durar uma lide com cerca de 15 minutos, quer-se que o toiro tenha recorrido por trás, que transmita, que se empregue, que tenha alegria, mas depois também se quer que faça tudo isto mas a pesar 500 ou 600Kg. Não é fácil!
Graças a Deus penso que os ganaderos portugueses têm conseguido melhorar, adaptando os toiros aquilo que os toureiros querem, o que ao fim ao cabo é aquilo que o público quer.
Os espectáculos têm resultado o que é sinal de que os ganaderos também têm sucesso.
Temos ganaderos com muitos anos de actividade e penso que os novos ganaderos, não aparecem com 20 ou 30 anos, vão aparecer com 40 ou 50 e é nessa idade que vão iniciar a gestão das ganadarias, portanto, penso o sistema se auto-renovará, não vejo porque razão não o fará.
Como disse antes, as dificuldades são muitas para todos, mas vontade de desistir é que não!
Qual o tipo de Toiro que melhor se ajusta à sua lide?
Eu tenho 3 ganadarias com as quais me identifico bastante relativamente ao tipo de toiro. A ganadaria Pinto Barreiros, são toiros com transmissão que andam pelo se sitio, a ganadaria José Lupi Rio Frio, também são toiros que andam pelo caminho deles, com mobilidade e com transmissão e por fim a ganadaria Conde Cabral com bons toiros também. São 3 ganadarias com que tive boas actuações e com as quais me identifico, gosto muito de ver os toiros, são toiros finos, bem feitos, bem desenhados que se encaixam muito no meu perfil.
Não quer dizer que hajam toiros de outras ganadarias que não me agradem e que tenha não gostado de os tourear, mas gosto muito deste tipo de toiro, com alegria, que anda, que transmita e que venha pelo seu caminho, principalmente.
Quem é Gilberto Filipe Lopes da Silva?
Sou um rapaz com 32 anos que acorda de manhã a pensar nos cavalos, passa o dia nos cavalos, e que se deita a pensar nos cavalos, mas que no meio de tudo isto tem uma família e quando fala com ela é para falar de cavalos.
Estudei engenharia agronómica, que não exerço minimamente apesar de ter gostado muito do curso. Fiz muitos amigos, foi uma fase que marcou a minha vida, mas aquilo de que gosto francamente é de cavalos e toiros e o que faço é acordar de manhã e vir montar, à tarde igual, sempre que posso dedico o meu tempo aos cavalos não sei se são 5 ou 6 horas ou se são 12 ou 18, a minha vida é passada com os cavalos.
O Gilberto Filipe tem uma vida dedicada a cavalos e toiros.
Ana Paula Delgadinho
