É tempo da cortiça e Coruche é a capital desta matéria-prima. A corrida estava inserida na Ficor e, se quem pensou o espectáculo tinha em mente pôr em destaque o melhor que aquela terra tem, então foi uma ideia bem sucedida porque os triunfos da noite ficaram “em casa”.
A nocturna de Coruche começou muito bem e terminou melhor ainda! Se o primeiro toiro teve muita qualidade certo é também que não se vêem muitos como o último toiro da ordem, porque o Veiga Teixeira foi um bravo de bandeira! Ao longo da corrida viu-se em cada toiro boas características mas sempre faltando qualquer coisa: um voluntarioso mas falto de chispa, um com chispa mas de mau génio, outro reservado mas nobre, etc… Valeu a pena esperar pelo último, Submarino, nº 365, 525kg, 4 anos de idade, que voltou para o campo sob ‘indulto’! A ganadaria, recém-chegada do galardão de bravura de Évora, teve assim nesta noite o segundo triunfo da temporada.
Igual triunfo somou João Telles Jr.! Toureia com uma verdade e talento tão pouco tangíveis que são até difíceis de descrever. Toureia com simplicidade, sem negar os adornos, tem um toureio complexo que intui o toiro, o cavalo e os terrenos de forma tão natural que tudo é arte! O primeiro Veiga Teixeira que lhe tocou foi reservado e logo que recebeu o primeiro ferro procurou tapar-se. O segundo comprido foi cravado em tábuas, mas a lide acabou nos médios e o toiro veio de menos a mais ao longo do laborioso trabalho do ginete, já que apesar de pedir distâncias curtas acabava por transmitir na reunião. Apesar da saída fria sobreveio a raça ao tal último da noite: um toiro sério, com bom tranco, que metia a cara abaixo e com um inesgotável recorrido nas investidas, foi para o cavaleiro da Torrinha a simbiose perfeita. O toiro transmitia e pedia contas mas era nobre e ia pelo seu caminho permitindo os ferros de frente com um justo quarteio a saltar à vista e a chegar à bancada. Terminou com dois de violino e o público de pé perante os dois compridos e quatro curtos sem pecado!
João Salgueiro abriu praça com o segundo melhor toiro do curro de Teixeiras. Um toiro muitíssimo voluntarioso, nobilíssimo, que acudia a todas as chamadas sem escolher os terrenos e muita qualidade de investida. Com ladeares e piruetas a abrir e fechar as sortes, entrando de frente atacando os terrenos de jurisdição, Salgueiro firmou uma lide de grande nota e meteu o público no espectáculo. Já na segunda parte tocou-lhe um oponente que cumpriu mas nunca se entregou. Tardo a investir e a empregar-se apenas a rematar a sorte, o toiro exigiu um Salgueiro muito distinto do da primeira parte. Cumpriu a ferragem e houve bonitos ferros mas faltou emoção.
Para Rui Fernandes o segundo toiro da tarde saiu enraçado, a perseguir o cavalo com pata. Contudo ao primeiro – emotivo – comprido logo se mostraram as asperezas do encastado. Meteu a cara lá em cima e reagiu mal ao castigo, distraído, andarilho pareceu tirar uma pausa para estudar os trajectos do cavalo. Passou a adiantar-se, a cortar a saída à montada, a investir pela certa. Rui Fernandes não pôde nem quis mais do que cumprir a ferragem da ordem e saiu o terceiro curto. Na segunda metade da corrida, voltou a ter uma lide suada. Apesar dos esforços, o reservado não acudia aos cites e veio de mais a menos à medida que o gás foi faltando e que lhe foram exigindo a investida a contra querença.
As pegas a cargo dos Amadores de Évora e Amadores de Coruche tiveram emoção e completaram o bom-tom da corrida.
Pelos Amadores de Évora pegou ao primeiro intento Ricardo Sousa que tardou ligeiramente a carregar a sorte quando o toiro arrancou com pata mas ficou bem embarbelado aguentando o derrote acima, fechando o grupo com eficácia e um excelente trabalho do rabejador. João Madeira esteve muito bem perante as hesitações do toiro quando lhe pisou a jurisdição. Apesar de ter saído abruptamente ao aviso do capote, o forcado recuou o suficiente para se fechar decidido à córnea e aguentar a viagem com o toiro a fugir ao grupo. Dificuldades maiores encontrou Dinis Caeiro que teve pela frente o maldoso que já tinha pedido contas a Rui Fernandes. Às três primeiras tentativas viu-se o toiro empregar-se para o forcado para o despejar da cara assim que o sentia. À quarta o grupo carregou e consumaram a dura pega a sesgo.
Dos Amadores de Coruche foi primeiro Luís Gonçalves. Consumou uma pega tecnicamente perfeita, trazendo o oponente toureado a recuar fechou à córnea com o grupo a fechar com coesão. Pedro Galamba executou uma pega de encher o olho. Com o toiro bem colocado ligeiramente fora, arrancou intempestivo e o forcado esteve exemplar a carregar a sorte e recuar dobrando-se com o toiro para se fechar à córnea e aguentar o derrote acima. Paulo Oliveira não esteve bem à primeira tentativa, em que recebeu o toiro com os joelhos. À segunda tentativa emendou-se e concretizou uma pega dura frente ao último toiro de bandeira que não se rendeu até ao fim.
Sara Teles
