«Abençoadas, pois, as toiradas que livram de torturas e canceiras de espirito e trazem à nossa alma um sol mais quente e mais brilhante». Se o escriba, que há 118 anos relatava com tanta eloquência as tardes de toiros no semanário ilustrado «Branco e Negro», tivesse vindo neste sábado a Santarém muito se teria admirado! Apático e amorfo, o público que encheu um quarto de casa para a corrida de abertura do cinquentenário da catedral escalabitana, pouco viu daquela bênção…
A culpa não foi dos toiros. O curro de Prudêncio, díspar de apresentação (com pesos a oscilar entre os 475 e 520kg de peso) teve mobilidade, génio e matéria que chegasse para uma inspiração que, simplesmente, não aconteceu.
O primeiro da tarde saiu espevitado ao ruedo mas não era nada fácil de ler… Se parecia desinteressado, logo lhe sobrevinha a casta para se impor e apertar nas reuniões. Rui Salvador não se furtou nem a pisar-lhe terrenos nem a deixá-lo vir a trote e “a apalpar” para abrir quarteio no limite e reunir ao estribo. Terminou com dois bons ferros, com ajustadas reuniões com o toiro a levar a cara lá acima, mas a lide foi morna.
Na segunda volta o cavaleiro recebeu o exemplar “a dar cartas” dobrando-se com ele nos médios. Mas o listão também vinha para dar trabalho – de maus modos no capote, passou o tempo distraído nos tendidos, berreando e escarvando. Saía para os ferros quase sempre solto e sem chama nas reuniões. Rui Salvador cumpriu a ferragem da ordem e mais não pôde.
Para Luís Rouxinol saiu em segundo um dos melhores do lote. Saída alegre, a investir franco e humilhando; tinha ganas para repetir no capote mas pouco se interessava pelo cavalo. Andou sempre a contra gosto, pouco se empregando nas sortes e acabou por vir a menos no decorrer dos curtos. Esteve bem o ginete a “dar cova” na brega com que foi ligando os ferros. A lide não saiu muito do tépido mas terminou com um palmo e um par que chegaram às bancadas.
O quinto Prudêncio foi o mais sério. Metia a cara com suavidade no capote e repetia a gosto, com bom tranco de galope e a empregar-se nas reuniões, trouxe os melhores momentos da tarde, que acabaram desaproveitados pelo cavaleiro que pouco fez da boa matéria-prima que teve por diante. Cumpriu a ferragem da ordem mas pouco ficou para recordar.
Duarte Pinto parecia vir disposto a agitar as águas. Foi belíssimo nos compridos em que deixou o terceiro da tarde vir de largo, em três bons ferros de poder a poder. Dali a lide foi sempre a menos, com o cinqueño a sair sempre brusco das tábuas para terrenos de fora. Inusitadamente ao quarto ferro silenciou-se a música e o clássico ginete saiu sem fechar a lide como,
certamente, desejaria fazer. Fechou a fria tarde com um bonito castanho, cujos caracteres de manso cedo se apressou a apresentar. Doeu-se aos primeiros castigos e quase sempre se tapava nos ferros mas verdade se diga que veio crescendo, em que Duarte Pinto desenhou bons ferros mas não rompeu.
A amadora Mara Pimenta apresentou-se em Santarém com uma segurança e um sítio muito distantes de anteriores actuações. Andou compenetrada e sem erros frente a um belíssimo novilho da divisa Passanha que lhe deu jogo.
O capítulo das pegas estava a cargo de dois grandes, ambos, Santarém e Montemor, em tarde de muitas tentativas …
Abriu praça pelos Amadores de Santarém João Torres Vaz Freire que concretizou à primeira sem dificuldade. O toiro saiu solto e bem esteve o da cara a mandar e reunir com decisão à córnea. António Taurino não conseguiu nas duas primeiras tentativas ficar na córnea do oponente, que mal o sentia derrotava brusco para o tirar. À terceira entregou na jurisdição e consumou boa pega, com uma eficaz primeira ajuda. Ruben Giovetti só consumou à terceira, já que lhe tocou um oponente que brigava com derrotes bruscos para o tirar da cara. António Goes pegou à segunda o novilho de Passanha lidado por Mara Pimenta.
Pelos Amadores de Montemor foi o cabo António Vacas de Carvalho quem abriu as hostilidades. “Em tarde não” só à quarta tentativa e com o grupo carregado conseguiu dar a volta a um oponente que não entrava franco, levando as viagens sempre por baixo. As más notas que o exemplar deu na lide não se viram na segunda pega dos alentejanos já que Manuel Dentinho esteve tecnicamente perfeito e consumou com eficácia ao primeiro intento. João Romão saiu da córnea ao primeiro derrote de cima abaixo e consumou à segunda com a primeira ajuda carregada.
Dizia o tal escriba que «o portuguez mais taciturno expande-se n’uma praça de toiros, comunica as suas impressões ao seu visinho, interessa se, aplaude, quebra a bengala nas bancadas, assobia o Botas, critica os bois […]». Imagine-se o seu pasmo, se assistisse agora a três horas de espectáculo com um público em banho-maria.
Sara Teles
