Desde as dez da manhã que a praça de touros do Campo Pequeno recebeu o evento Dia da Tauromaquia, organizado pela Prótoiro, e que se traduziu numa grande afluência áquilo que foi uma verdadeira maratona de cultura e pedagogia taurinas, até cerca das dez da noite.
António Ribeiro Telles Filho e Duarte Fernandes, sobrinho de Rui Fernandes, foram os primeiros em praça, a fazer uma demonstração de toureio a cavalo ante uma tourinha muito bem conduzida pelo bandarilheiro retirado Ernesto Manuel. A parte dos tendidos da primeira praça do País que estava aberta, esteve quase cheia e sempre a encher mais e mais, sendo que se seguiu uma demonstração de pegas, com a mesma tourinha e uma selecção de forcados mais jovens de vários grupos. Em seguida chegou a arte a pé, com Rui Miguel e Rodrigo Caldeira, da Academia de Toureio do Campo Pequeno, a presentarem os seus dotes ante a tourinha, num treino de salão que deu o mote para que as bancadas descessem à arena e aí experimentassem quer as pegas quer os capotes e muletas.
Já era hora de almoço e arena mantinha-se cheia de afición, sendo que por essa hora continuavam a decorrer baptismos de equitação no exterior, bem como espectáculos de marionetas a explicar as touradas aos mais pequenos e uma aula sobre História da Tauromaquia, que utilizou o bonito Museu do Campo Pequeno para narrar a cronologia da Festa. O insuflável taurino também esteve presente e sempre muito concorrido, e este ano contou-se ainda com vários expositores taurinos nos corredores da praça, bem como exposições fotográficas.
Entretanto em praça estiveram os pegadores do Sabugal, fazendo uma demonstração com o tradicional forcão ante um touro belíssimo de Veiga Teixeira, mostrando bem o valor da capeia raiana, que voltará ao Campo Pequeno no dia 8 de Junho.
Os recortadores (Tiago Pais, Diogo Santos, Vitor Rebelo e Nuno Salazar) demonstraram a beleza da sua arte também ante um prestável Veiga Teixeira.
Da parte da tarde, ainda havia mais gente no Campo Pequeno, e todos com os olhos postos no festival taurino que tinha um cartelazo! A surpresa de casa quase cheia para o festival foi de todos, julgo nunca ter visto um festival no Campo Pequeno que tenha metido tanta gente, como este com as lides a duo de António Ribeiro Telles e Joaão Ribeiro Telles; Rui Fernandes e Francisco Palha; Luís Rouxinol e Filipe Gonçalves; e Rui Fernandes com João Moura júnior. Os matadores em praça foram António João Ferreira; Nuno Casquinha e Manuel Dias Gomes. As pegas ficaram a cargo de uma selecção de forcados de vários grupos, tendo ido à cara pelo Redondo (Hugo Figueira); da Tertúlia Tauromáquica do Montijo, Márcio Chapa; do Montijo João Paulo Damásio; e do Ramo Grande, a melhor pega da tarde com um trabalho extraordinário do ‘Pipas’, Pedro Coelho dos Reis, como primeiro ajuda.
Os touros lidados a cavalo foram gentilmente cedidos, por ordem de entrada, pelas ganadarias Passanha, Ribeiro Telles, Prudêncio e Romão Tenório. A pé, TóJó recebeu um Calejo Pires complicado que não lhe permitiu o brilho esperado; Nuno Casquinha triunfou com um Condessa de Sobral; e Manuel Dias Gomes viu-se entre um poderoso Falé Filipe que nos deu o que desfrutar.
A cavalo, as lides a duo foram interessantes, tendo sido de destacar o excelente trabalho de Rui Fernandes com Moura Júnior e o extraordinário ferro de Francisco Palha após a queda de Rui Salvador, que parece ter aguçado a garra toureira do mesmo, que se destacou na cravagem após uma colhida que lhe custou duas costelas partidas.
Está provado, com o dia 23 de Fevereiro, que os sábados seriam um excelente dia para os festejos do Campo Pequeno, pelo menos alguns, a intercalar com as quintas-feiras, que como nocturnas a meio da semana impedem muita gente de vir aos touros na capital.
Provado ficou também que o mundo taurino está viçoso de figuras e futuro, o problema é que a conjuntura está contra a tauromaquia e um dia deste não chega, apesar de ser muito bom. O ideal não irá acontecer nunca: era este dia não ser um dia só nosso, mas antes um dia institucionalizado nacionalmente, porém não há coragem política para defender a tauromaquia. Essa vontade não existe porque a imprensa não especializada não descreve nada do que aqui puderam ler, logo a imagem que existe dos taurinos é de sermos um nicho no quadro eleitoral e a política rege-se não por princípios, mas por potenciais votos. Enquanto a publicidade (enganosa) dos anti-taurinos tiver mais eco da que a realidade da Festa Brava o dia da tauromaquia, de facto, não existirá.
Pelo que a vitalidade que aqui temos pode muito bem ser um estertor do fim anunciado pela postura da ministra da tutela, que é como a dona de um cão que decide que é altura de o pôr a dormir…
Sílvia Del Quema
